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Usinas podem encontrar cenário mais favorável à compra de fertilizantes nos próximos meses


INTL FCStone - 04 out 2019 - 07:15

Por Matheus Costa*

Entre o fim de 2019 e os primeiros meses de 2020, usinas do Centro-Sul devem realizar a maior parte do plantio da cana-de-açúcar da temporada, tanto para a implementação de novas áreas quanto para a renovação de lavouras de maior idade. Vale destacar que a semeadura é um dos períodos em que unidades produtoras utilizam os maiores volumes de fertilizantes – especialmente fosfatados e potássicos.

Como a aquisição desses insumos é realizada com certa antecedência, é fundamental analisar como a relação de troca entre os subprodutos da cana e os principais adubos utilizados no plantio pode impactar o investimento das empresas nestes insumos. Ademais, torna-se importante entender como a decisão acerca do mix produtivo das usinas ao longo da safra 2019/20 (abril a março) têm afetado a disponibilidade de recursos para estas compras.

Em 2019, o mercado internacional de fertilizantes tem sido marcado por um arrefecimento da demanda nos principais importadores mundiais em meio à uma crescente oferta por parte da indústria. As dificuldades do plantio da safra de grãos nos Estados Unidos durante a primavera (primeiro semestre) impactaram o volume de adubos aplicados, acarretando no acúmulo de estoques significativos de NPK – nitrogênio (N), fósforo (P) e potássio (K) – no país norte-americano.

As aquisições de ureia e fosfatados pela Índia, que – atipicamente – liderou as compras na primeira metade do ano, não se mostraram suficientes para levar à sustentação dos preços dos nutrientes citados acima, a despeito das importações brasileiras aquecidas no início do terceiro trimestre.

De tal modo, compôs-se um quadro de sobreoferta nos países consumidores, com destaque para o Brasil e EUA. No caso dos fosfatados, o arrefecimento da demanda resultou em retração anual superior a US$ 100/tonelada CFR Paranaguá das cotações do MAP – queda que superou a recente desvalorização da moeda brasileira, de cerca de 8% nos últimos três meses. No que tange os potássicos, os estoques confortáveis nos países americanos levaram os preços para um patamar 6,6% abaixo do observado no segundo semestre de 2018.

A desvalorização dos fertilizantes favoreceu a acessibilidade destes insumos aos produtores e usinas de cana-de-açúcar. Neste sentido, é importante relembrar que uma relação de troca (RT) mais baixa sinaliza a necessidade de menores investimentos para a aquisição e aplicação de adubos no canavial, favorecendo a compra dos nutrientes.

Especificamente, a RT entre a ureia e o açúcar VHP FOB Santos se contraiu em 12,2% nos últimos 12 meses, atingindo uma média de 1,03 tonelada/tonelada no fim de setembro. A RT entre o NAM e o adoçante, por sua vez, apresentou trajetória similar ao recuar 10,3% frente ao mesmo período do ano passado.

Para os fosfatados, a queda foi ainda mais acentuada. A relação de troca entre o adoçante e o MAP atingiu 1,20 vez, contração de aproximadamente 28% frente a relação de 1,67 vez registrada no fim de setembro de 2018.

A remuneração das usinas do Centro-Sul

O mix produtivo no cinturão canavieiro brasileiro tem se mostrado fortemente alcooleiro na temporada corrente. Acompanhamento de safra divulgado pela Unica em 24 de setembro mostrou que a representatividade acumulada do etanol entre a primeira quinzena de abril e a primeira quinzena de setembro alcançou 64,5%. Comparativamente, essa proporção representa alta de 1,1 ponto percentual frente ao mesmo período de 2018/19, que havia sido o maior dos últimos 20 anos. Mas o que isso significa em termos práticos?

O cenário de preços foi relativamente positivo ao etanol, pois, mesmo durante o pico da colheita, as cotações do hidratado PVU com base em Ribeirão Preto se mantiveram significativamente acima das máximas históricas, chegando a ser negociado a até R$ 2,17/l. Considerando a média dos últimos três anos, por exemplo, o nível máximo do biocombustível no início de agosto foi de R$ 1,75/l.

Por sua vez, a menor participação do açúcar na capacidade produtiva acabou limitando os recursos obtidos com o adiantamento de vendas que serão realizadas durante a entressafra. Vale ressaltar que, usualmente, usinas negociam parte de sua produção para entrega futura, o que facilita o adiantamento da receita através do sistema financeiro.

Também, é preciso notar que as cotações mais baixas do adoçante pesaram ainda mais sobre o retorno econômico – especialmente em relação ao etanol. Desde abril, o biocombustível remunerou, em média, US¢ 1,11/lb equivalente a mais que o adoçante, sendo que essa diferença chegou a atingir US¢ 2,42/lb nos momentos iniciais do ciclo 2019/20.

Perspectivas

As indicações são de que as relações de troca entre os produtos da cana e os principais fertilizantes se mantenham favoráveis. Isso porque o quarto trimestre marca o período de baixa temporada do mercado de fosfatados, com os principais demandantes ausentes do comércio internacional.

Deste modo, as recentes quedas registradas nas cotações do fosfato monoamônico (MAP) devem continuar no curto prazo, em meio a perspectiva de retomada do apetite dos importadores apenas no final do primeiro trimestre de 2020, com o início das compras dos Estados Unidos para a primavera.

Ademais, Brasil e Índia finalizam no quarto trimestre o plantio das principais culturas consumidoras de MAP, corroborando o viés baixista do mercado de fertilizantes.

A mesma tendência deve ser desenhada pelas cotações dos potássicos. Os estoques confortáveis no Brasil e Estados Unidos podem garantir o abastecimento de seus respectivos mercados no curto prazo, em vista do quadro de sobreoferta. Contudo, as maiores produtoras globais do nutriente anunciaram nas últimas semanas um corte de produção do cloreto de potássio (KCl) em 2019. Essa medida é vista como uma tentativa de conter a oferta, e, consequentemente, uma queda mais acentuada dos preços.

O mercado de nitrogenados, por sua vez, espera nos próximos meses a intensificação das importações brasileiras em preparação para o plantio da safra de inverno, com destaque para o milho e o algodão.

As compras internacionais do Brasil devem coincidir com os carregamentos de ureia adquiridos em licitação pela Índia – navios que obrigatoriamente devem zarpar com o adubo premiado até 16 de outubro rumo aos portos indianos –, concedendo força aos preços internacionais no quarto trimestre. No entanto, a utilização de nitrogênio no plantio da cana é reduzida em relação aos outros dois nutrientes analisados.

Com base no cenário apresentado, observa-se que o potencial de receita para as usinas nos próximos meses pode reforçar o ambiente favorável às aquisições de fertilizantes.

Para o açúcar, observa-se que unidades produtoras possuem excedentes exportáveis e, mesmo que menores em relação a anos anteriores, tais volumes ainda são significativos. Assim, como já havia sido sinalizado no 1º Giro de Safra da INTL FCStone, algumas empresas podem optar por negociar os volumes remanescentes para entrega durante a entressafra e até mesmo para o início de 2020/21 – aumentando sua capacidade de investimento na fertilização das lavouras.

Ademais, espera-se que as cotações do açúcar encontrem cenário construtivo no curto e médio prazo. Contudo, é preciso ressaltar que valorização da commodity no mercado internacional tende a ser mais limitada em patamares próximos aos US¢ 13-13,50/lb, visto que esses níveis tendem a estimular as exportações da commodity por vendedores indianos.

Para o etanol, as perspectivas são de valorização ao longo dos próximos meses, principalmente se os preços da gasolina continuarem em alta. Isso porque a demanda tem se mantido firme ao mesmo tempo em que os estoques estão menores em relação ao ciclo anterior.

Ao fim da primeira quinzena de setembro, por exemplo, o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) mostrou que a tancagem do biocombustível no cinturão canavieiro alcançou 9,2 bilhões de litros, queda de 11,9% no comparativo anual.

É preciso ponderar, contudo, que usinas com situação financeira menos favorável podem não conseguir carregar volumes expressivos de álcool para comercialização durante a entressafra, limitando o potencial de receita para a aquisição de adubos no curto prazo.

* Matheus Costa é analista de inteligência de mercado da INTL FCStone do Brasil desde 2017, atuando na área de açúcar e etanol. Para este texto, ele teve a colaboração de Jaine Gomes e Gabriela Fontanari, também da equipe de inteligência de mercado da INTL FCStone.