Usinas

O proálcool solitário da Tereos


Isto É Dinheiro - 31 mar 2014 - 12:25 - Última atualização em: 31 mar 2014 - 17:52
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Homem do campo: o presidente da Tereos, Jacyr Costa

O executivo Jacyr Costa Filho, presidente da Tereos Internacional, empresa francesa que controla a usina Guarani, a terceira maior usina sucroalcooleira do Brasil, é uma das poucas pessoas do setor canavieiro a demonstrar otimismo. Atuando em um mercado que passa por uma severa crise, com a quebra de 44 usinas desde 2009, Costa se mantém sereno e aposta que 2015 será o ano da virada. "As condições são favoráveis", afirma o executivo. "Temos uma grande frota de veículos bicombustível." Os números desse mercado mostram porque é difícil encontrar quem o acompanhe nessa postura.

A dívida média das companhias do setor supera o faturamento bruto e cerca de 20% das receitas estão comprometidas com o pagamento de juros, segundo a associação que representa as empresas da indústria da cana-de-açúcar, a Unica. Apesar disso, a Tereos, uma das maiores cooperativas agrícolas da Europa, acaba de concluir um investimento de R$ 1 bilhão no País para aumentar sua capacidade, que deve chegar a 20 milhões de toneladas de cana processada por ano. Nascido em Marília, no interior de São Paulo, Costa exibe a calma e a tranquilidade de um homem acostumado ao ritmo moroso do campo. Mas é sua vasta experiência nos canaviais que determina seu otimismo.

Com 25 anos de atuação na operação e no comando de usinas, o executivo já passou por momentos absolutamente distintos. "Vi o auge e o declínio desse mercado nos anos 1980 e 1990, e mais tarde o grande crescimento do etanol entre os anos 2000 e 2010", diz. "A diferença, agora, é que as empresas estão muito mais produtivas." É justamente na capacidade de melhorar a operação e reduzir custos que a Tereos se apoia para se lançar nessa espécie de Proálcool solitário. Segundo Costa, apesar da queda nos preços, que chegou a 16,9% na cotação do açúcar este ano, existe uma saída: aumentar a produtividade. "Empresas profissionalizadas têm mais condições de lidar com os altos e baixos das cotações", diz.

No caso da Tereos, 95% da cana própria, ou seja, plantada pela própria empresa, já é colhida mecanicamente. A idade média do canavial caiu no ano passado, de 3,7 anos para 3,3 anos. No seu ano fiscal 2013, encerrado em março, a Tereos Internacional, braço da cooperativa francesa com sede no Brasil, e que concentra todos os negócios do grupo no Exterior, faturou R$ 7,6 bilhões, um terço das receitas totais do grupo. O resultado representa um crescimento de 11% em relação ao ano anterior. No Brasil, o montante de cana-de-açúcar processada subiu 11,5%, atingindo 18,2 milhões de toneladas. A produção de açúcar aumentou 11,7% e a de etanol, com todos os desafios do setor, aumentou 4,7%.

Mas é na área de cogeração de energia que a companhia deu o maior salto. As vendas cresceram 43%, para 523 GWh. Essa é a grande aposta de Costa para o futuro. Neste ano, a expectativa é de quase dobrar a geração, atividade que já representa pouco mais de 10% dos negócios. Nos três últimos trimestres, a comercialização de energia, incluindo atividades de trading, já cresceu 48%, para 695 GWh. O presidente da Tereos atribui o mérito de ter apostado nesse mercado, em grande parte, a uma parceira de peso: a Petrobras. A petroleira estatal fechou um acordo, em 2010, no qual se comprometeu a comprar 45,7% da Guarani pagando, para isso, R$ 1,6 bilhão até 2015. Seu braço de logística, a BR Distribuidora, responde por quase a totalidade das vendas de etanol da usina.

"Decidimos entrar forte no ramo de geração graças ao incentivo de Miguel Rossetto (atual ministro do Desenvolv­imento Agrário)", diz o executivo. Até o início deste ano, Rossetto ocupava a presidência da Petrobras Biocombustíveis. A parceria com a Petrobras ajuda a explicar, também, o motivo pelo qual a Tereos vai na contramão do setor sucroalcooleiro, inclusive em relação à principal reivindicação dos fazendeiros e usineiros. Segundo Elizabeth Farina, presidente da Unica, a raiz de todos os problemas enfrentados nas últimas cinco safras está na política de preços de combustíveis instituída pelo governo, que desonera o combustível fóssil.

"Temos de virar o jogo, corrigindo a política de preços de combustíveis e valorizando o etanol em nossa matriz energética", afirmou Elizabeth, em discurso proferido durante o lançamento de um programa de apoio à inovação no setor, em fevereiro deste ano. Para o presidente da Tereos, no entanto, essa é uma questão difícil de resolver. "Se aumentarmos o preço da gasolina, a demanda por etanol vai aumentar. Só que a produção continuará a mesma", afirma Costa. "Como consequência, não teremos condição de atender os consumidores, gerando ainda mais aumento nos preços e prejuízo à população."

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Rodrigo Caetano

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