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Pesquisadores exaltam vantagens da produção de etanol em pequena escala


novaCana.com - 28 nov 2012 - 14:51
Microdestilaria Etanol Alcool
A construção de microdestilarias de etanol para consumo local pode ser alternativa pra o Brasil. Regiões remotas seriam as maiores beneficiadas.


Criar uma nova fonte de renda para os agricultores é umas das principais vantagens da produção de etanol em microdestilarias. Além disso, a produção do biocombustível em pequena escala contribui para a diversificação da produção e pode ajudar a minimizar os problemas de desabastecimento em regiões isoladas.

Essa é a opinião de pesquisadores que estão debatendo junto ao governo a viabilidade técnica e econômica desse modelo de produção de álcool. Eles defendem a permissão a pequenos produtores de produção do combustível para consumo local.

"A vantagem da microdestilaria é que todos os problemas que surgem para a grande destilaria são soluções na produção em pequena escala", afirmou ao portal NovaCana.com o pesquisador do departamento de Engenharia Agrícola da Universidade Federal de Viçosa, Juarez de Sousa e Silva.

Nas grandes destilarias, por exemplo, gasta-se muito para tratar os resíduos da cana-de-açúcar, mesmo com o bagaço sendo utilizado para geração de energia elétrica. Nas microdestilarias, todos os resíduos da planta podem ser utilizados.

100% de aproveitamento
A produção de etanol poderia complementar a produção de carne e leite, na opinião de Silva. "Não haveria perda nenhuma. Os resíduos do bagaço podem ser utilizados no solo, a vinhaça pode ser usada na irrigação, e as folhas e parte do bagaço podem ser usados na alimentação do gado", informou.

O transporte da matéria-prima e do produto final também é menos problemático para a pequena destilaria, onde a cana é transportada em pequenas distâncias dentro da própria fazenda. "No caso das grandes usinas, o transporte da cana para a planta por distâncias maiores do que 50 quilômetros se torna inviável, pois é muito caro", explicou Silva.

O professor esteve no Congresso Nacional em Brasília para defender o financiamento público e a permissão para a instalação de microdestilarias de cana-de-açúcar em pequenas propriedades.

"Há restrições ao pequeno produtor. As exigências feitas pela grande indústria aos produtores são muitas, e os pequenos não podem atendê-las. Estamos lutando pela formação de cooperativas, à semelhança do modelo de produção do leite", disse o professor, que trabalha com a questão há 30 anos.

Além das restrições da indústria, a legislação atual também impede que os agricultores produzam álcool para fins comercias, eles podem produzir apenas para consumo próprio.

"Nossa legislação é antiga, de uma época em que não havia possibilidade nem demanda de produção em pequena escala", disse ao portal NovaCana.com o biólogo da área de transferência de tecnologia da Embrapa, Marcos Jacob de Almeida.

O biólogo enfatizou que a intenção não é concorrer no mercado com as grandes usinas. "A proposta é otimizar o sistema que nós temos hoje, propiciando a produção local para consumo local", disse.

Regiões do país que são muito isoladas demandam transporte de longa distância do combustível, o que onera todo o sistema de distribuição. Os altos custos desse transporte acabam sendo distribuídos, e todos os consumidores pagam a conta dos combustíveis sendo entregues em regiões remotas.

Almeida acredita que os produtores podem se organizar em pequenas cooperativas para atender com a produção local as necessidades locais, principalmente em cidades onde o combustível não chega, ou chega a preços muito altos.

"A legislação não se ajustou à situação atual. Na prática, sabemos que já existem pessoas com produção e consumo próprio", afirmou Almeida.

Uma destilaria com capacidade de produzir 500 litros de álcool por dia custaria ao agricultor algo entre R$ 150 mil e R$ 200 mil. "O investimento é recuperado em três ou quatro anos", estima Silva.

Normalmente o agricultor que monta uma microdestilaria não precisa de toda essa quantidade de álcool, e teria que vender uma parte. Como os pequenos produtores não conseguem atender a todas as exigências da grande indústria para vender esse combustível, a saída seria a formação de cooperativas. O álcool produzido seria entregue nas cooperativas para comercialização. "Essa é a proposta pela qual temos lutado junto ao governo", disse Silva.

A ideia é que as cooperativas sejam um agente central, já que a fiscalização de inúmeras unidades, espalhadas pelo Brasil, produzindo o combustível, que é estratégico para o país, seria tarefa difícil.

Rodada de debates
Em dezembro, especialistas em biocombustíveis da Embrapa Agroenergia (Brasília), Embrapa Agroindústria Tropical (Ceará) e Embrapa Meio Norte (Piauí) se reunirão em dois encontros para debater a viabilidade técnica e econômica da instalação de microdestilarias para a produção de etanol a partir de matérias-primas alternativas no contexto da agricultura familiar, como a batata doce e a mandioca.

Cada reunião terá três dias de duração, e a primeira delas será em Brasília. Além da produção de etanol com novas matérias-primas, os pesquisadores vão discutir as tecnologias dos equipamentos para extração desse combustível.

O segundo encontro acontece em Teresina, onde, entre outras questões técnicas, serão definidos os lugares ideais de instalação das destilarias.

As reuniões contemplam o Projeto de Lei 2397/11, proposto pelo deputado federal Jesus Rodrigues (PT), que cria o Programa de Microdestilarias de Biocombustíveis e pretende permitir a produção e comercialização de etanol por pequenos produtores para consumo local.

Usina piloto
Na década de 70, quando houve a crise do petróleo e o Brasil discutia maneiras de estabilizar o abastecimento, algumas microdestilarias foram instaladas no país. No entanto, sem apoio público, o projeto não foi para frente.

Neste ano, o projeto de construção de uma microdestilaria no Piauí foi aprovado, e receberá financiamento do Banco do Nordeste. A planta, capaz de produzir 300 litros de etanol por dia, estará em funcionamento a partir do próximo mês de maio em Palmeira do Piauí.

Helen Mendes - novaCana.com
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