Usinas

[Entrevista] Mesmo com preço em alta, CBios ainda não são capazes de mudar mix das usinas


EPBR - 23 out 2020 - 08:01

Até a primeira semana de outubro, a produção de etanol registrava uma queda de 7,5% em comparação com o mesmo período do ano passado, diante de uma retração de mais de 15% no consumo. O setor atravessa um ano em que houve a combinação dos efeitos da pandemia – redução da demanda –, com clima mais seco, que acelerou a safra, e o incentivo da escalada do dólar para produção de açúcar.

É também o primeiro ano de operacionalização RenovaBio, que remunera os produtores de biocombustível por meio da emissão e dos créditos de carbono CBios, que dobraram de valor em dois meses, para um patamar de R$ 40.

“Ainda estamos falando de um valor de CBio que não faz com que o setor migre sua produção do açúcar para o etanol. Há um caminho longo a percorrer em termos de preço e estruturas de regulação”, afirma o economista e professor Haroldo Torres, do Programa de Educação Continuada em Economia e Gestão de Empresas (Pecege), da Esalq-USP.

Torres é um dos responsáveis pelo estudo que embasou a proposta da BR Distribuidora, maior do país em participação de mercado, para uma redução mais agressiva das metas do RenovaBio, começando em 8,5 milhões de CBios, em 2020. A meta original era de 29 milhões – ainda assim, prevaleceu o plano do Ministério de Minas e Energia, de 14,6 milhões.

Nesta entrevista para a EPBR, o economista analisa a situação do setor de etanol, do RenovaBio e as projeções para o mercado sucroenergético e de CBios.

Em que momento do RenovaBio estamos?
O mercado começou a ganhar tração. O preço médio já passa dos R$ 40 – dobrando de valor em menos de dois meses –, o que também abre uma primeira precaução: um ativo que tem uma valorização e volatilidade em curto espaço de tempo. Entretanto, ainda estamos falando de um valor de CBio que não faz com que o setor migre sua produção do açúcar para o etanol. Há um caminho longo a percorrer em termos de preço e estruturas de regulação.

As distribuidoras estão deixando para cumprir suas metas? Vão adquirir CBios na última hora?
Dos 10,5 milhões CBios depositados, cerca de 3,2 milhões foram adquiridos pelas distribuidoras, e apenas 50 mil pela parte não obrigada. São as distribuidoras que estão movimentando de fato este mercado. Temos ainda uma insegurança. Precisamos nos preocupar com as regras do jogo, garantindo um mercado de previsibilidade e transparência, para que não tenhamos que fixar preço teto e preço mínimo. Para as distribuidoras, as regras tributárias não estão claras, porque não se sabe se pode deduzir os custos de CBio no [cálculo do] Lucro Antes do Imposto de Renda. Elas estão aprendendo e entendendo este mercado. Não podemos olhar para metas tão agressivas em um curto prazo.

E como fica o cumprimento das metas do RenovaBio a partir do ano que vem?
No curto prazo, se todas as usinas emitirem e colocarem à venda os CBios relacionados a sua produção em 2020, teríamos uma oferta de 17,2 milhões, com uma meta de 14 milhões. Isto é, teríamos excesso de oferta, levando a uma pressão negativa sobre o preço do ativo. Para 2021 e 2022, o mesmo cenário. No curto prazo, teríamos uma oferta maior que a demanda da meta. No longo prazo, essa situação se inverte. A partir de 2025, se as metas se mantiverem, teremos escassez da oferta em relação à demanda.

Será necessário algum controle para evitar distorções na comercialização?
Existia uma preocupação de ter squeeze, ou manipulação. A parte obrigada é uma parte concentrada, quatro distribuidoras que têm 70% do mercado de combustível no Brasil e têm poder de criar movimentos abruptos de mercado, porém não acredito que o fariam. À medida que se cria um ambiente muito regulado e impeditivo, também se afasta investidores externos. Temos que atraí-los para poder deixar de ter parte obrigada, e a própria sociedade valorizar esse título.

Como fica para as distribuidoras menores?
Temos um volume muito grande de pequenas distribuidoras, mais de 200. Elas terão custo de transação e terão que se organizar para criar uma área de inteligência de mercado em comum e tentar diluir os custos que enfrentarão no programa. Elas terão que criar instrumentos de compra, entender o mercado, formação de preço e o repasse para o combustível. Vão precisar formar parcerias, embora eu não tenha visto esse movimento acontecer. Mas é melhor elas se organizarem coletivamente do que criar um mercado de privilégios, ou uma diferenciação de preços.

Gabriel Chiappini


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