O novaCana estimou o quanto os grupos Raízen, São Martinho, Atvos, Adecoagro e Biosev – autorizados a exportar etanol para a Califórnia – teriam lucrado com CBios, conforme suas intensidades de emissão de carbono

novaCana.com 09 mai 2019 - 09:52 - Última atualização em: 06 set 2019 - 08:13

Cumprindo com o cronograma do RenovaBio, a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) já certificou três firmas inspetoras e, recentemente, finalizou um processo de consulta pública referente à determinação das metas das distribuidoras. Além disso, o Ministério de Minas e Energia (MME) abriu outra consulta para estabelecer as metas anuais de descarbonização do programa.

Entretanto, até o momento, nenhuma produtora de etanol publicou sua nota de eficiência energético-ambiental, um dos fatores que determinará quantos créditos de descarbonização (CBios) ela poderá emitir. Com isso, é cada vez mais imperativa a compreensão, por parte das usinas, de como o programa se dará na prática e quais serão os retornos financeiros.

Para isso, o novaCana fez um cálculo para simular o quanto algumas usinas brasileiras poderiam ter recebido com a venda de CBios caso o programa estivesse vigente na safra 2018/19.

Como base, foram usados os valores de intensidade de carbono calculados pelo estado da Califórnia para as usinas brasileiras autorizadas a exportar para lá. Embora a calculadora do programa norte-americano utilize critérios e parâmetros diferentes dos adotados pelo RenovaBio, ela foi uma das principais referências para a formulação da RenovaCalc.

Transformando um conceito em receita adicional

A partir da nota de eficiência energético-ambiental é possível calcular quantos litros cada usina necessita vender para a emissão de um CBio – que, por sua vez, é equivalente a uma tonelada de carbono que é minimizada por meio de biocombustíveis. Além disso, com o preço referência de R$ 34 para o CBio, projetado pelo MME, e a produção de etanol de cada usina, se torna viável estimar os rendimentos adicionais das empresa no mercado de papéis criado pelo RenovaBio.

Para fazer um cálculo referente à safra passada, o novaCana assumiu que toda a produção do grupo em 2018/19 entraria na conta, ignorando que nem todas as usinas possuem autorização do governo californiano e, tampouco, intensidade de carbono quantificada por ele.

Além disso, é preciso observar que, embora a metodologia utilizada pelo governo californiano seja uma das principais referências da RenovaCalc, os valores relativos à emissão não são iguais nos dois programas. Uma das principais diferenças é a contabilização da mudança no uso da terra, um valor que é considerado pelo LCFS, mas não pelo RenovaBio.

O governo da Califórnia oferece vantagem competitiva para o etanol brasileiro de cana-de-açúcar desde que a sua produção cumpra os parâmetros determinados pelo Padrão de Combustíveis de Baixa Emissão de Carbono (LCFS). A tabela de cálculo usada leva em conta o ciclo completo de produção e consumo do combustível, desde o cultivo da cana, colheita e transporte, até distribuição e uso final no veículo.

Quanto as usinas lucrariam?

Atualmente, a Raízen é o grupo que possui mais usinas autorizadas a exportar para a Califórnia. Das suas 26 unidades, 14 podem enviar etanol para o estado norte-americano, com emissões entre 41,24 e 49,32 gCO2e/MJ.

Além disso, cinco unidades da Raízen possuem duas autorizações diferentes. Um exemplo é a Usina Araraquara, localizada no município paulista de mesmo nome. A unidade possui uma licença referente ao processo tradicional de produção de etanol, com crédito para exportações excedentes de cogeração e colheita mecanizada; e outra licença para a produção de etanol com melaço de cana, também com crédito para colheita mecanizada.

A Raízen produziu, durante 2018/19, cerca de 2,59 bilhões de litros de etanol. Conforme os cálculos do novaCana – considerando o valor padrão do CBio e a mesma nota do programa californiano –, o grupo poderia ter lucrado entre R$ 7,49 milhões e R$ 9,08 milhões com a venda de créditos de descarbonização, caso o RenovaBio estivesse em vigor na safra passada.

A variação se dá dentro do intervalo entre a pior e a melhor notas obtidas pelo grupo. Além disso, foi considerado todo o volume produzido, independente de unidade.

renovabio califórnia 03052019

Partindo do mesmo raciocínio, a São Martinho, que produziu 1,09 bilhões de litros na temporada 2018/19, teria entre R$ 3,4 milhões e R$ 4,26 milhões de receita adicional. Três das quatro unidades do grupo são autorizadas pelo governo californiano e tiveram emissões calculadas entre 46,61 gCO2e/MJ e 48,22 gCO2e/MJ.

Já a Atvos, com produção de 2,08 milhões de litros de etanol, lucraria R$ 6,16 milhões. Apenas uma usina do grupo, que possui nove, foi avaliada pelo programa da Califórnia. Trata-se da Unidade Conquista do Pontal, em Mirante do Paranapanema (SP), com emissões de 48,39 gCO2e/MJ.

Com produção de 675 milhões de litros do renovável em 2018/19, a Adecoagro teria receita adicional de R$ 2,10 milhões com CBios. O grupo possui três unidades no Brasil, mas apenas a Usina Angélica, em Ivinhema (MS), possui autorização para realizar envios para a Califórnia.

Por fim, a Biosev, que produziu 754 milhões de litros na temporada 2018/19, receberia um adicional de entre R$ 2,02 milhões e R$ 2,4 milhões. Atualmente, quatro das dez usinas do grupo podem exportar para a Califórnia, com emissões entre 45,5 e 52,97 gCO2e/MJ.

As usinas de etanol menos poluidoras do Brasil

Atualmente, 61 usinas, de 31 diferentes grupos brasileiros, são autorizadas a exportar etanol para o estado norte-americano. Do total, 48 estão em São Paulo, cinco em Minas Gerais, três no Paraná e duas em Mato Grosso do Sul. Mato Grosso, Alagoas e Goiás possuem uma usina autorizada cada.

Dentre as autorizadas, a unidade Bioflex, da GranBio, é a que apresenta a menor intensidade de emissão de carbono: 33,82 gramas de CO2 equivalente por megajoule (gCO2e/MJ). Segundo o Conselho de Qualidade do Ar da Califórnia (Carb), o valor é referente ao etanol celulósico produzido com resíduos de palha de cana-de-açúcar, com crédito para cogeração com o excedente de exportação.

Dentro do RenovaBio, este é um dos melhores valores para as usinas de etanol. Inclusive, considerando a manutenção dessa avaliação e a intensidade de carbono de 87,4 gCO2e/MJ para a gasolina, conforme estabelecida pela RenovaCalc, a nota da usina da GranBio no programa brasileiro seria de 53,58 gCO2e/MJ.

ranking emissao tabela 06052019

A nota do RenovaBio leva em conta as emissões mitigadas pelos biocombustíveis no comparativo com seus combustíveis fósseis equivalentes. Ou seja, quanto maior, melhor.

Já a usina com maior emissão dentre as autorizadas no programa da Califórnia é a Ivaté, do grupo Santa Terezinha, com 54,37 gCO2e/MJ. Esse valor é referente à produção de etanol a partir do melaço de cana, com crédito para a colheita mecanizada.

Neste caso, a nota da usina no RenovaBio seria de 33,03 gCO2e/MJ. Entre as medidas que poderiam ser adotadas para elevar o valor está, por exemplo, a utilização de resíduos do processo para a cogeração de energia.

Gabrielle Rumor Koster – novaCana.com{/viewonly}