Usinas

ESG é estratégia de negócio, não de marketing, diz vice-presidente da Raízen


Folha de S. Paulo - 27 set 2021 - 07:53
Para Cláudio Oliveira, da Raízen, a agenda ESG faz todo sentido do ponto de vista econômico

Quem acha que o ESG (sigla em inglês para boas práticas ambientais, sociais e de governança) é uma estratégia marqueteira está enganado. A agenda faz todo sentido sob o ponto de vista econômico e existe mercado para que a sustentabilidade seja um modelo de negócio.

A avaliação é de Cláudio Oliveira, vice-presidente de relações institucionais e sustentabilidade da Raízen, joint venture entre Shell e Cosan.

Responsável pelo maior IPO do ano, a Raízen é a principal produtora de etanol do Brasil e se apresentou ao mercado com uma tese baseada no ESG.

Dos R$ 6,9 bilhões movimentados em sua oferta inicial de ações, 80% serão dedicados à expansão dos produtos renováveis, em especial o E2G, etanol de segunda geração feito a partir do bagaço e da palha da cana-de-açúcar.

“A grande vantagem [do E2G] é que você consegue produzir 50% a mais de etanol no total com a mesma área plantada”, diz Oliveira em entrevista à Folha.

Apesar de apostar na transição para uma matriz energética mais limpa, a Raízen está vinculada aos derivados de petróleo. A empresa é uma das maiores distribuidoras de combustíveis do país e controla mais de 7.000 postos de abastecimento da marca Shell no Brasil e na Argentina.

Segundo o vice-presidente, sair definitivamente do mercado de fósseis é uma possibilidade, mas ainda não está no radar para os próximos anos.

“No longo prazo, essa jornada de transição levará para uma matriz mais limpa, que vai pressupor a utilização de combustíveis renováveis. Eu diria que, no longo prazo, é provável que essa jornada vá caminhar para isso sim”, diz.

A Raízen vê com entusiasmo ou com ceticismo essa febre do ESG?
A gente vê com muito otimismo. O mercado e a sociedade são sábios o suficiente para separar o que são propostas sérias de outras propostas. As nossas propostas são muito sérias, porque são embasadas em tecnologia e têm demonstrações claras do que já acontece. Um exemplo é o biogás. A história do biogás é emblemática. Para produzir um litro de etanol, a gente produz, como subproduto, dez litros de vinhaça. A vinhaça tem uma parte orgânica e outra inorgânica, e sempre foi devolvida, simplesmente, como um fertilizante para cultivo da cana-de-açúcar. A nossa sacada foi pegar esse produto e botar em biodigestores. A parte orgânica vai se transformar em biogás e a parte inorgânica a gente continua retornando para o canavial sob forma de fertilizante. Ou seja, é uma economia completamente circular.

Qual o principal desafio que o agro brasileiro enfrenta em relação ao ESG?
Vou falar dos desafios da Raízen. A Raízen tem 1,3 milhão de hectares de cana plantada, dos quais metade vem de fornecedores parceiros e a outra metade de plantações próprias. A gente tem o compromisso de rastrear essa cana, de ter um padrão de certificação internacional, de colher e transportar da forma mais segura e mais eficiente, ter processos industriais adequados, utilizar o máximo de circularidade nesses processos e, finalmente, posicionar os produtos. O grande desafio é olhar para esse processo extremamente complexo e ordená-lo. Construímos um plano ESG com cerca de 1,2 mil ações, um controle bastante acurado da implementação desses pontos, e sintetizamos em oito compromissos públicos.

“A gente viu que era preciso ter compromissos relacionados às mudanças climáticas. Assumimos um compromisso público de, até 2030, fazer reduções importantes na pegada de carbono da fabricação do etanol e do açúcar”, Cláudio Oliveira (Raízen)

Outro aspecto desafiador é a gestão hídrica, e nós fixamos uma meta para ter uma redução de 10% na captação total de água até 2030. A gente também tinha que garantir que a nossa cana-de-açúcar fosse toda rastreada e, mais do que isso, fosse certificada por um padrão internacional. Escolhemos o padrão Bonsucro para certificar tanto nossos processos industriais quanto a nossa cana-de-açúcar. Hoje em dia, das 35 usinas que temos, 22 são certificadas. A gente tinha também o compromisso de ser reconhecido internacionalmente por essas fontes de energia. Eu queria interessar os meus parceiros para que eles tivessem programas específicos de certificação, e a gente criou o Elo, que é um programa de melhoria contínua.

A Raízen faz rastreamento de questões sociais como trabalho escravo, trabalho infantil e invasão de terras protegidas?
Sem dúvida. Isso está no processo de certificação Bonsucro e Elo. A gente garante, por meio desses mecanismos, que não vai haver nenhuma violação aos direitos humanos. A Raízen tem zero violações e pretende continuar a ter zero, mas precisamos ter bastante atenção rastreando todo o nosso insumo, toda a cana-de-açúcar, todos os prestadores de serviço, todos os terceiros.

Hoje em dia esse monitoramento não é de 100%?
Ele é praticamente 100%. Toda a cana própria está rastreada e quase a totalidade da cana de terceiros também. O Elo é um programa de melhoria contínua, então ele começa com o nível 1 e vai até o nível 4, que equivale a um processo de certificação internacional. Temos uma parcela inferior a 5% de toda a cana fornecida que está em processo de implementação do rastreamento.

Tirando a pecuária, uma das principais fontes de emissão de gases de efeito estufa no agro é o uso de fertilizantes sintéticos, que está associado a culturas como a da cana-de-açúcar. A Raízen tem iniciativas para reduzir esse impacto?
Tem. Quando a gente fala em reduzir a pegada de carbono ao longo da cadeia de produção do etanol e do açúcar, isso passa exatamente por aí. São duas coisas fundamentais: o uso de fertilizantes sintéticos e o uso do diesel na lavoura. A gente tem planos específicos para os dois. No caso do diesel, uma das rotas que estamos explorando é usar o biometano produzido na própria unidade. No caso dos fertilizantes é a reutilização, por exemplo, da vinhaça, que me permite diminuir o uso de fertilizantes sintéticos.

Uma das apostas da Raízen é em relação ao etanol de segunda geração. Quão avançada está a companhia em relação à produção desse biocombustível?
Há sete anos a gente começou a desenvolver o projeto do etanol celulósico, de segunda geração, que é um etanol produzido a partir de subprodutos da cana-de-açúcar (a palha, o bagaço ou ambos). A grande vantagem é que você consegue produzir 50% a mais de etanol com a mesma área plantada. Hoje em dia, a gente tem a única unidade que produz, em escala industrial, o etanol celulósico. É uma tecnologia que a Raízen domina totalmente e que está apta a replicar através de outras unidades anexas aos parques de bioenergia já existentes.

Quanto a produção desse etanol de segunda geração representa no negócio da Raízen hoje?
Hoje, representa um volume pequeno. A gente vai produzir nesta safra cerca de 25 mil metros cúbicos de etanol celulósico, mas ele tem uma possibilidade de escalagem da produção muito grande.

Os biocombustíveis competem com a eletrificação do setor de transportes?
Essa é uma pergunta interessante. Vamos pensar o contrário. Hoje em dia, a gente tem no Brasil uma solução que descarboniza os transportes, que descarboniza a economia como um todo, que são os biocombustíveis. Temos um parque sólido de produção, um programa, que é o RenovaBio, que garante a produção sustentável. Pelo lado da distribuição, temos uma solução pronta também, porque existem cerca de 42 mil pontos de abastecimento já oferecendo esse biocombustível. Então, a estrutura e a solução da descarbonização através de biocombustíveis, no Brasil, estão prontas. Obviamente, a eletrificação vai se inserir em algum momento, mas a gente não sabe qual rota vai ser usada e quando ela se insere, dado que temos uma solução excepcional hoje já rodando no nosso país.

A Raízen diz que pretende liderar a transição energética rumo a uma matriz cada vez mais limpa. Mas a empresa também está ligada aos derivados de petróleo, seja na distribuição de combustíveis ou nos postos de abastecimento. Isso não seria uma incoerência?
Eu diria que não. Hoje a gente tem um portfólio completo para abastecer o mercado brasileiro, mas nenhuma outra empresa, seja distribuidora ou produtora de biocombustíveis, tem uma solução tão completa e integrada quanto a Raízen. Não existe outra empresa que tenha as possibilidades, hoje, de liderar essa transição com mais competência. É fato que, nos 7 mil postos entre Brasil e Argentina, a gente tem um portfólio que inclui derivados de petróleo, mas somos o maior produtor de biocombustíveis e o segundo maior distribuidor. É uma transição que a gente vive.

Está no radar da empresa sair definitivamente do mercado de fósseis?
É uma jornada. No longo prazo, essa jornada de transição levará para uma matriz mais limpa, que vai pressupor a utilização de combustíveis renováveis. Eu diria que, no longo prazo, é provável que essa jornada vá caminhar para isso sim.

O agro é um dos setores mais afetados pelos eventos extremos ligados à crise do clima. O quão exposta está a Raízen aos riscos climáticos?
Isso é algo que a gente trata desde o começo da Raízen, tanto é que risco climático sempre esteve na nossa matriz de risco. Obviamente a gente vem fazendo trabalhos de mitigação, à medida que os nossos planos apontam para os crescimentos desses riscos. Existem algumas regiões em que a gente começou a fazer um processo de irrigação, já antevendo algumas dificuldades, sobretudo no oeste do estado de São Paulo. Agora, a exposição a qual a Raízen está sujeita é a exposição a que todo o agro está sujeito. O truque é nos anteciparmos para mitigar essas mudanças climáticas e estarmos preparados para enfrentá-las

Existe mercado para que o ESG seja um modelo de negócio, e não só uma estratégia marqueteira?
Sem dúvida. A melhor resposta é a própria Raízen. Desde o nosso nascimento, a gente aposta muito nisso, tanto é que fizemos um processo agressivo de crescimento na produção de combustíveis renováveis, porque a gente acredita que faz todo o sentido sob o ponto de vista econômico. Então não é só uma estratégia marqueteira, é uma estratégia de negócio de fato. Isso inclui uma governança sólida, que só traz benefícios; uma responsabilidade social, que traz benefícios para a empresa e para o entorno; e uma responsabilidade ambiental que mitiga as mudanças climáticas, nos prepara para um processo sustentável e nos impulsiona a procurar inovações para abrir novos mercados, como foi o caso do biogás e do etanol de segunda geração. Sob a ótica da Raízen, [ESG] é de fato uma estratégia de negócio.

Thiago Bethônico


Acompanhe as notícias do setor

Assine nosso boletim

account_box
mail

Card image


x