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Aralco vai a mercado para pagar credores


Valor Econômico - 15 abr 2013 - 08:35 - Última atualização em: 29 nov -1 - 20:53

A Aralco, produtora de açúcar e álcool do Estado de São Paulo, termina hoje uma rodada de encontros com investidores no exterior com a expectativa de levantar pelos menos US$ 200 milhões com a emissão de bônus, e com isso melhorar seu perfil de endividamento e ganhar fôlego para novos investimentos. Mais da metade de sua dívida líquida de cerca de R$ 620 milhões vence até 2014, mesmo após recente alongamento. Do total, cerca de 60% estão nas mãos dos bancos Votorantim (R$ 141 milhões), Credit Suisse (US$ 55 milhões), Itaú BBA (R$ 87,2 milhões), HSBC (R$ 25 milhões) e Pine (R$ 37,6 milhões), os coordenadores da operação.

Emissões de títulos de dívida e até ações lideradas por bancos credores, como o bônus da Aralco, tornaram-se cada vez mais comuns após a crise financeira de 2008. "Bancos que só tinham carteira comercial, para agregar receita aos empréstimos, passaram a pedir reciprocidade", afirma uma pessoa que atua no segmento. Mas isso, pondera, é prática no mercado de capitais brasileiro, na América Latina, Ásia, em todo o mundo.

Não à toa os bancos de investimento, especialmente os americanos, que contam com mais liquidez, reforçaram seus balanços para a concessão de crédito de forma a não perder participação no mercado de capitais. "Principalmente depois da crise, as empresas passaram a privilegiar bancos com os quais têm relacionamento."

A grande questão é dar transparência aos investidores. O documento apresentado aos potenciais investidores da Aralco mostra o histórico de relacionamento entre os coordenadores e a empresa, assim como a dívida que a empresa detém com as instituições. E, mais importante, destaca ainda que os recursos a serem captados com os bônus serão usados para quitar boa parte dos passivos.

Em 31 de dezembro de 2012, a Aralco tinha R$ 260 milhões a pagar no último mês de 2013. Com a recente negociação, esse valor caiu para R$ 128 milhões. No entanto, sozinha a empresa, que informou um Ebitda (lucro antes dos juros, impostos, depreciação e amortização) de R$ 172,9 milhões nos nove meses encerrados em 31 de dezembro, não conseguiria gerar todo o caixa necessário para honrar esses compromissos. Hoje, o nível de alavancagem da companhia é 3,6 vezes o Ebtida.

A emissão de bônus, que tem vencimento em 2020, com opção de resgate antecipado em 2017, ajudaria a Aralco a alongar o perfil de seu endividamento, aumentando o prazo médio da dívida de 2,8 anos para 6,3 anos. A companhia até prevê nesta safra iniciada em abril (2013/14) processar mais cana, em torno de 6,5 milhões de toneladas. Mas sua produção, ainda que maior, será vendida em um mercado com forte viés de baixa. As cotações do açúcar derretem na bolsa de Nova York diante de mais um ano de superávit mundial da produção da commodity. Além disso, como sócia da trading Copersucar, com 5%, a Aralco teria, segundo fontes, um limite de crédito que poderia chegar a R$ 200 milhões, o que lhe ajudaria a pagar a dívida de dezembro de 2013. No entanto, no ano seguinte, em dezembro de 2014, outros R$ 191 milhões teriam que ser quitados, o que tornaria mais difícil a situação da empresa que tem mais de 1,2 mil títulos em protestos (ainda que de valores baixos, entre R$ 1 mil e R$ 10 mil) e dois pedidos de falência contra controladas (que somados se referem a uma dívida também baixa, de R$ 120 mil).

O bônus, ainda que o custo de captação seja mantido, deixaria a empresa numa situação mais confortável, assim como ocorreu com outras emissoras do setor sucroalcooleiro, entre elas Tonon Bioenergia e Virgolino de Oliveira, esta última também sócia da Copersucar, que acessaram o mercado externo.

A Aralco está sujeita aos riscos do setor, como oscilação de preços de commodities e interferência do governo no preço da gasolina. Nas últimas três safras, intempéries afetaram a produtividade dos canaviais. A companhia também teve uma gestão pouco eficiente nos últimos anos, dizem pessoas que conhecem seu histórico. A empresa chegou a "enterrar" US$ 100 milhões na construção de uma fábrica de cerveja em Frutal (SP).

A proposta de emissão dos bônus recebeu a nota "B" das agências Standard & Poor's e Fitch, na faixa de grau especulativo. A perspectiva é que os recursos sejam levantados, especialmente, com fundos focados em empresas "high yield" (de alto risco e retorno). Caso contrário, os bancos coordenadores devem encarteirar os títulos.

Alessandra Bellotto e Fabiana Batista