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Acionistas da Usina Canabrava tentam afastar gestor investigado pelo Ministério Público

Fundo que tem o controle acionário da usina do Norte Fluminense contesta judicialmente o atual gestor


O Dia (RJ) - 13 mai 2019 - 07:54

Uma usina de etanol que é um barril de pólvora. A frase parece incendiária, mas resume o atual momento Canabrava, em Campos dos Goytacazes. Enquanto o arrendatário da companhia faz festa para celebrar a safra 2019 e é investigado por diversas esferas da justiça, um fundo de investimento questiona o gestor. Uma briga que se confunde com a já conturbada história da Canabrava.

O jornal O Dia teve acesso a ações e processos movidos pelo Fundo de Investimento Bioenergia, que reivindica a gestão da usina. A administração está nas mãos da RLO Solução Empresarial - Consultoria e Assessoria Eireli, na figura de Rodrigo Luppi de Oliveira. Ele é o arrendatário judicial da Canabrava desde abril de 2018, após decisão da 4ª Vara Trabalhista de Campos.

O fundo é o principal acionista da usina e contestou a sentença que decidiu o arrendamento. Segundo uma fonte de dentro da empresa, a questão é o passado de Rodrigo Luppi. “O fundo se posicionou contra porque detinha uma proposta de compra do negócio por parte de um investidor e também porque sabia da terrível fama do Rodrigo”, conta.

Foi com a RLO à frente que a Canabrava foi interditada duas vezes depois que a ANP descobriu 16 milhões de litros de etanol contaminados com metanol vindos da usina. Além disso, Luppi é acusado pela 2ª Vara Criminal de Duque de Caxias por crimes contra a ordem econômica e não se apresentou nem foi encontrado pela justiça por oito anos.

Ele ainda é investigado pelo Ministério Público Federal (MPF) e pelo Ministério Público estadual (MPRJ) por supostos crimes praticados durante sua gestão no comando da Canabrava. Entre as suspeitas, produção e comercialização de combustível adulterado, captação de recursos públicos e desvio de capital entre 2012 e 2016.

Mesmo assim, o juiz da 2ª Vara do Trabalho de Campos, Claudio Victor de Castro Freitas, devolveu a Canabrava à Rodrigo Luppi. Por e-mail o magistrado alega que “o arrendamento foi homologado por proposta apresentada como a única viável à época e, ao que parece, vem funcionando de forma perfeita dentro dos termos propostos”.

O fundo Bioenergia, contudo, contesta justamente o modo de gestão da RLO na Canabrava. “Após o arrendamento, a usina passou a ser sangrada pelo Rodrigo, pois ele vende toda a produção de etanol por um preço subsidiado para a distribuidora de sua família. Está transferindo todo o lucro para a distribuidora e arruinando a usina”, acusa a fonte ouvida pelo O Dia.

A medida seria uma forma de minimizar a obrigatoriedade de repasses para abater as dívidas com ex-funcionários. Por lei, uma porcentagem do faturamento da Canabrava deve ser direcionada diretamente para o pagamento de ações trabalhistas.

Ao mesmo tempo, a distribuidora beneficiada seria a Minuano, com sede em Duque de Caxias. A empresa está no nome da mãe de Luppi, Roxane, Arlezer Luppi de Oliveira, e também é suspeita de crimes contra a ordem tributária. Entre eles, trazer etanol de São Paulo e Minas Gerais em caminhões-tanque com nota fria e sem licenças ambientais do Ibama e do Inea.

A Minuano é a principal patrocinadora da Território Motosport, escuderia que participa de ralis com veículos UTV (veículos recreativos que parecem um quadriciclo fechado), incluindo o Rally dos Sertões. Luppi é um dos pilotos e dono da equipe.

A reportagem procurou a usina Canabrava, mas não conseguiu contato com a assessoria de imprensa, nem com Rodrigo Luppi.

Gestão contestada

Composto por credores e ex-diretores da usina, o Fundo de Investimento em Participações Bioenergia Multiestratégica é o maior e principal acionista do Grupo Canabrava. Mesmo assim, o antigo controlador da empresa, Ludovico Tavares Giannatasio, conseguiu colocar a RLO e Rodrigo Luppi no comando da empresa, em 2015.

A usina foi interditada por duas vezes e Luppi foi afastado. Voltou em abril de 2018 por decisão da Justiça do Trabalho, também contestada pela Bioenergia. Em uma das ações às quais O Dia teve acesso, o fundo de investimento diz que, até fevereiro de 2019, não havia recebido qualquer informação contábil da companhia e que a RLO não responde às inúmeras notificações.

Giannatasio construiu a usina em 2012, em uma época na qual o segmento sucroenergético vivia grave crise e várias usinas do Norte Fluminense fechavam as portas. Mesmo assim, capitaneou R$ 700 milhões em investimentos, principalmente de fundos de pensão – em especial Petros e Postalis.