Tecnologia

Do campo para a usina: O uso de blockchain para certificar a produção de biocombustíveis


EPBR - 15 jan 2021 - 07:30

O setor sucroenergético está de olho na blockchain como estratégia para determinar a sustentabilidade da produção. As usinas veem na tecnologia uma solução para armazenar, registrar, organizar e rastrear os produtos para garantir confiabilidade e segurança das informações sobre a origem das matérias-primas e insumos.

Usada largamente para registro de transações financeiras, a tecnologia funciona como “um grande livro-caixa” com os dados registrados simultaneamente em vários computadores e está começando a ser aplicada na cadeia de biocombustíveis no Brasil.

Um dos projetos é conduzido pela Embrapa em parceria com a Cooperativa dos Plantadores de Cana do Estado de São Paulo (Coplacana), a Safe Trace e a Usina Granelli.

Os trabalhos em campo, liderados pela Embrapa Informática Agropecuária (SP), tiveram início no ano passado com experimentos em conjunto com produtores de Piracicaba, Tambaú e Charqueada, municípios no interior do estado de São Paulo.

O acordo inclui a geração de processos agropecuários, softwares, modelos, banco de dados e metodologia técnico-científica.

O pesquisador da Embrapa que lidera o projeto, Alexandre de Castro, revela que a ideia inicial era a rastreabilidade da cadeia da cana-de-açúcar para agregar valor ao produto. Mas, a partir do desenvolvimento dos trabalhos, a equipe percebeu que a tecnologia poderia ser estendida e aproveitada pelos produtores de biocombustíveis.

É o caso da Usina Granelli, que começou a parceria para estabelecer um padrão de qualidade para o açúcar mascavo e agora também pretende usar a tecnologia para preencher a RenovaCalc, a calculadora de eficiência energética e ambiental da Política Nacional de Biocombustíveis (RenovaBio).

A diretora jurídica da usina de etanol, Mariana Granelli, conta que a parceria com a Embrapa para desenvolver essa especificação acabou motivando a empresa a se certificar para emitir os créditos de descarbonização (CBios) do RenovaBio.

“Como já estamos fazendo essa rastreabilidade da cana, a partir dela eu consigo preencher a RenovaCalc com uma exatidão muito maior. Isso garante que a quantidade de CBio que vem do meu combustível é aquele valor mesmo, e não um valor estimado, como é hoje”, explica.

Um CBio equivale a uma tonelada de carbono que deixou de ser emitida no processo de produção do biocombustível em comparação com o combustível fóssil equivalente.

O projeto da Embrapa prevê a criação de uma tecnologia baseada em sensoriamento remoto para organizar, processar e disponibilizar em nuvem imagens de satélite proximais, suborbitais e orbitais, aplicadas a análises de lavouras da cana-de-açúcar, que vão contribuir para apoiar o planejamento e controle operacional da cultura, tanto na fazenda como em talhões.

Outra novidade é que imagens aéreas de canaviais serão usadas para detecção de doenças das plantas e pragas daninhas, deficiências nutricionais, estresse hídrico e estimativas de produção de biomassa. O diagnóstico vai permitir aos produtores a adoção de medidas de controle com mais rapidez e eficiência.

De olho nos CBios, a Associação dos Plantadores de Cana da Paraíba (Asplan) firmou uma parceria com a Associação Centro Interdisciplinar de Pesquisa em Educação e Direito (Ciped) para certificar as plantações de cana-de-açúcar da Paraíba com blockchain.

“Com a certificação, a Asplan parte na frente para assegurar que seus associados sejam inseridos no RenovaBio e passem a receber CBios proporcional a sua produção e organização. A Paraíba é pequena, mas nós pensamos grande”, disse o presidente da entidade, José Inácio de Morais, ao Cointelegraph.

Além da cana

A Embrapa também estuda ampliar o uso de blockchain para a cadeia produtiva de grãos, especialmente visando o etanol de milho e o biodiesel de soja.

“Já estamos conversando com outras duas empresas representativas dessas cadeias. Para etanol de milho, iniciamos a tramitação do acordo com a FS Bioenergia. E estamos conversando com uma empresa no setor de soja”, conta Alexandre de Castro.

Segundo Castro, o projeto começou com a cadeia sucroenergética, mas automaticamente migrou para a de grão. “Percebemos que na cadeia da cana, em média, 50% da matéria-prima vem de área própria das usinas, e os outros 50% de fornecedores diretos e de longo prazo. Já para milho e soja, é muito mais complexo. As empresas têm poucos fornecedores diretos”, relata.

De acordo com o pesquisador, cerca de 90% da matéria-prima para etanol de milho e biodiesel vem de fornecedores indiretos, o que dificulta o controle da originação.

No setor de biodiesel, por exemplo, os produtores compram o óleo de soja de outros fornecedores, o que cria obstáculos na hora de identificar de onde veio o grão.

“O blockchain serve para marcar os pontos da cadeia, de forma definitiva, permanente. Caso seja alterado, toda a cadeia será alterada e saberemos onde foi mexido. É um sistema de criptografia em cadeia”, explica Castro.

Neste caso, a tecnologia vai permitir identificar um fornecedor, cooperativa ou cerealista no meio da cadeia, com uma assinatura digital.

“Nas cadeias de grãos, eu faço a marcação dos pontos na rede com essas assinaturas. Essas cadeias, geralmente, vão misturando diversos fornecedores e, a cada mistura, eu marco também. Fica mais fácil para auditoria das firmas inspetoras”, destaca.

Isso poderá auxiliar no cálculo de CBio por volume de biocombustível produzido. “Quem emitia um CBio por 800 litros poderá emitir um pouco mais, dependendo da sustentabilidade da cadeia”, conclui o pesquisador.

Nayara Machado