Há uma mudança em curso que levará à ampla adoção dos modelos elétricos na próxima década

Bloomberg 07 abr 2016 - 10:34 - Última atualização em: 16 set 2016 - 12:14

Com todas as boas tecnologias, chega uma hora em que comprar a alternativa antiga deixa de fazer sentido. Basta pensar nos smartphones na década passada, nas TVs a cores nos anos 70, ou nos próprios carros a gasolina no começo do século XX. Prever o prazo dessas mudanças é difícil, mas quando elas acontecem, o mundo inteiro se altera.

Ao que parece, os anos 2020 vão ser a década do carro elétrico.

As baterias ficaram 35% mais baratas no ano passado. Se essa trajetória de queda continuar, dentro de seis anos os veículos elétricos, sem subsídios, serão tão acessíveis quanto seus equivalentes a gasolina. É o que revela uma análise do mercado de veículos elétricos feita pela Bloomberg New Energy Finance (BNEF). Será o deslanchar de um verdadeiro mercado de massas para os carros elétricos.

Segundo as projeções, até 2040 os carros elétricos de longa autonomia estarão custando menos de US$ 22 mil (pelos referenciais atuais), e 35% dos carros novos fabricados no mundo virão equipados com plugue para recarga elétrica.

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Os mercados de petróleo não estão se preparando para esse cenário, e é fácil entender o motivo. Os carros recarregáveis constituem hoje apenas a décima parte de 1% do mercado global de carros. Eles são uma raridade nas ruas da maioria dos países, e têm um custo consideravelmente maior que os movidos a gasolina.

A Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP) sustenta que os veículos elétricos representarão apenas 1% dos carros em 2040. Segundo Ryan Lance, CEO da ConocoPhillips, o impacto material dos elétricos não será sentido pelos próximos 50 anos – ele próprio não acredita que verá isso acontecer em vida, como afirmou numa entrevista no ano passado.

Mas eis o que sabemos: Tesla, Chevy e Nissan têm planos para começar a vender carros elétricos com autonomia longa na faixa dos US$ 30 mil. Outros fabricantes e empresas de tecnologia estão investindo bilhões em vários novos modelos. Já em 2020, alguns deles serão mais baratos e terão melhor desempenho que os carros a gasolina.

A meta seria reeditar o sucesso do Tesla Modelo S, que hoje bate todos os concorrentes convencionais na categoria grandes de luxo nos EUA. Sendo assim, a pergunta que fica é: em que medida isso causará uma redução na demanda de petróleo? E quando essa redução será suficiente para virar a balança e provocar uma nova crise do petróleo?

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Em primeiro lugar, precisamos de uma estimativa do quanto crescerão as vendas nos próximos anos.

No ano passado, a venda de elétricos no mundo aumentou em torno de 60%. É um percentual interessante, de vez que praticamente equivale ao índice de crescimento anual de vendas projetado pela Tesla até 2020, e coincide com o índice que levou o Ford Modelo T a deixar cavalos e carroças para trás na década de 1910. Para fins de comparação, os painéis solares têm seguido uma curva parecida, com um crescimento anual em torno de 50%, enquanto as vendas de lâmpadas LED vêm se ampliando na base de impressionantes 140% ao ano.

No primeiro episódio de Sooner Than You Think [Antes do que você imagina], a nova série animada da Bloomberg, calculamos o efeito de um crescimento continuado de 60%. Descobrimos que os veículos elétricos podem eliminar uma demanda de 2 milhões de barris/dia já em 2023, o que criaria um excedente de petróleo equivalente ao que desencadeou a crise do petróleo de 2014.

Como não é possível as taxas compostas de crescimento anual permanecerem na faixa dos 60%, trata-se de uma previsão bastante agressiva. O BNEF adota uma abordagem mais metódica em sua análise, discriminando os preços dos componentes dos veículos elétricos para fazer uma previsão de quando os preços irão cair a ponto de se tornarem atrativos para o consumidor médio. Com base no modelo do BNEF, a barreira dos 2 milhões de barris irá demorar um pouco mais para ser cruzada – em 2028.

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Previsões como essas exigem precaução, na melhor das hipóteses. O máximo que se pode esperar é que sejam mais precisas que o que dita o senso comum, o que, na perspectiva da indústria do petróleo, significa pouco interesse no avanço dos carros elétricos.

“Se olharmos os estudos da Opep ou da Exxon, eles trabalham com uma adoção na faixa dos 2%”, afirma Salim Morsy, analista do BNEF e autor do estudo em questão. “Francamente, quer o valor final para 2040 seja de 25% ou 50%, o que importa mesmo é que a adoção maciça aconteça”.

A análise do BNEF focou no custo total da posse de um carro elétrico, incluindo coisas como manutenção, o custo da gasolina e – o que é mais importante – o custo das baterias.

As baterias representam um terço do custo de fabricação de um carro elétrico. Para que eles se tornem comuns, é preciso que uma das seguintes coisas aconteça:

1. Os governos ofereçam subsídios para reduzir os custos
2. Os fabricantes aceitem trabalhar com margens de lucro ínfimas
3. Os consumidores estejam dispostos a gastar mais para aderir ao elétrico
4. O custo das baterias diminua

As três primeiras coisas já estão acontecendo nesta fase inicial de comercialização dos carros elétricos, mas não têm como se sustentar. Felizmente, o custo das baterias caminha na mesma direção.

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Há um outro aspecto a se levar em conta nessa equação: de onde virá toda essa eletricidade? Em 2040, os carros elétricos irão consumir um total de 1.900 terawatts-hora, segundo o BNEF. Isso equivale a 10% de toda a energia elétrica produzida pela humanidade no ano passado.

A boa notícia é que a eletricidade está ficando mais limpa. Desde 2013, o mundo vem acrescentando mais capacidade de geração de eletricidade por via eólica e solar do que de outras fontes como carvão, gás natural e petróleo somadas. Os carros elétricos reduzirão o custo da armazenagem de energia em baterias e ajudarão a estocar energia solar e eólica. Na passagem para um matriz mais limpa, veículos elétricos e energia renovável criam um ciclo de demanda mutuamente benéfico.

Que dizer de todo o lítio e outras matérias-primas finitas usadas na fabricação de baterias? O BNEF também analisou esses mercados e descobriu que não são um problema. Até 2030, as baterias utilizarão menos de 1% das reservas conhecidas de lítio, níquel, manganês e cobre, e 4% das reservas de cobalto. Depois disso, novas soluções químicas provavelmente franquearão o uso de outras matérias-primas, tornando as baterias menores, mais leves e mais baratas.

Em que pese isso tudo, ainda há razões para os mercados de petróleo permanecerem céticos. Os fabricantes precisam concretizar na prática essa redução no preço dos carros elétricos, e hoje ainda não possuímos postos de carga rápida em número suficiente para viabilizar viagens longas. Muitos novos motoristas chineses e indianos continuarão a optar pela gasolina e pelo diesel. A demanda crescente nos países em desenvolvimento pode vir a sobrepujar o impacto dos carros elétricos, especialmente se as cotações do petróleo caírem para US$ 20 e se estabilizarem nesse patamar.

O BNEF também levou em conta outras incógnitas, como o surgimento dos carros autônomos e de serviços de compartilhamento de veículos como o Uber e o Lyft, o que aumentaria o número de carros que percorrem mais de 30 mil quilômetros por ano. Quanto maior a distância percorrida por um carro, melhor o custo-benefício das baterias. Caso esses novos serviços tenham êxito, os elétricos podem abocanhar uma fatia de 50% do mercado de veículos novos até 2040, segundo o BNEF.

Uma coisa é certa: quando o crash do petróleo vier, será apenas o começo. Depois disso, o número de carros elétricos em circulação só irá aumentar, enquanto a demanda de petróleo perde fôlego. Alguém, com os barris, vai ficar a ver navios.

Tom Randall
Tradução novaCana.com