Pesquisas

Pesquisadores da USP de São Carlos criam plástico a partir do bagaço da cana-de-açúcar


G1 - 06 out 2020 - 07:26
Estudo se destaca pelo ineditismo ao usar um poliol específico, que não possui registros anteriores de preparação e pela estratégia utilizada para fazer os compostos

Foi com uma técnica inédita que dois pesquisadores do Instituto de Química de São Carlos (IQSC) da Universidade de São Paulo (USP) desenvolveram um plástico a partir do bagaço da cana-de-açúcar.

A pesquisa teve como tema central o uso da biomassa da cana-de-açúcar para construção de outras moléculas com alto valor agregado. O professor Antonio Burtoloso e a doutoranda Camila Santos foram os criadores do produto sustentável.

Eles explicam que o Brasil possui uma situação privilegiada para obter a biomassa, já que ela tem diversas origens possíveis como plantas, madeira, resíduos agrícolas ou restos de alimentos, sendo facilmente renovada.

A partir da decomposição química ou biológica destas biomassas é possível, então, obter uma série de moléculas orgânicas que servirão como matéria-prima para inúmeras transformações.

“Esses compostos que a Camila está utilizando como material de partida, a gente poderia obter também através de outras biomassas, mas é vantajoso usar a cana-de-açúcar porque estamos no Brasil e há muito descarte. A gente gera muito bagaço, então, é natural que queiramos utilizar, enquanto os Estados Unidos, por exemplo, usam o milho, porque eles plantam muito”, disse Burtoloso.

O processo

O bagaço da cana-de-açúcar passa por um tratamento ácido com água, que converte a celulose em ácido levulínico. A partir dele, os pesquisadores preparam a gama-valerolactona, um composto que tem sido utilizado como solvente, para fazer o poliol que, na sequência, é transformado em plástico.

Uma amostra do material foi produzida em laboratório, mas Burtoloso e Santos ainda não sabem qual a melhor finalidade do produto, assim como sua real resistência e elasticidade, pois a análise das características será feita por outro professor. A etapa ainda não foi iniciada por causa da pandemia do novo coronavírus.

Diferenças

O professor do IQSC explicou que existem outros trabalhos que produziram monômeros, a partir da biomassa, que já são utilizados na indústria. Ainda assim, a pesquisa se destaca pelo ineditismo ao usar um poliol específico, que não possui registros anteriores de preparação.

Ele também reforça que a estratégia utilizada no processo pode ser considerada pioneira, já que a gama-valerolactona nunca foi usada para a ação específica que eles realizam para fazer os compostos.

Outro ponto relevante é que enquanto os monômeros conhecidos são menores, o deles possui ao menos 10 carbonos e, por isso, será diferenciado para fazer novos plásticos.

Custo-benefício

Segundo Burtoloso, o processo ainda é mais caro do que os realizados atualmente, mas, é crescente o interesse de outros países em substituir de 20 a 30% a matéria química que serve de base para a indústria, trocando o que vem do petróleo pelo o que vem da biomassa.

“O petróleo ainda é barato, mas imagine daqui a 30 anos com essas novas normas e tratados, onde não querem mais matéria-prima vinda do petróleo. Então, algum processo que esteja mais caro, futuramente pode ficar mais barato”, disse Burtoloso.

O professor explicou, contudo, que o processo ainda é longo para que as pessoas possam usar o plástico, pois, até o momento, os testes foram realizados apenas em escala laboratorial e será necessário financiamento para as próximas etapas do trabalho.

Geovana Alves
Sob supervisão de Fabio Rodrigues