Pesquisas

Mulheres lideram pesquisas em cana-de-açúcar do CTC

Em uma área dominada por homens, dupla é responsável no CTC por desenvolver variedades mais eficientes e resistentes a pragas


O Estado de S. Paulo - 21 jun 2021 - 07:44
Silvia Yokoyama e Adriana Capella, pesquisadoras do CTC, conseguiram aprovar uma nova variedade de cana transgênica

Em um setor tradicionalmente comandado por homens, duas mulheres foram escolhidas para comandar as pesquisas do Centro de Tecnologia Canavieira (CTC) – empresa líder na ciência da cana-de-açúcar. Adriana Capella e Silvia Yokoyama são as responsáveis pelo desenvolvimento de novas variedades, mais eficientes e resistentes às pragas. O objetivo é dar ao setor um ganho de produtividade semelhante ao que ocorreu com o milho e a soja no Brasil.

Capella, de 49 anos, é bióloga formada pela Universidade de São Paulo (USP) e com mestrado em bioquímica pela Unicamp. Trabalhou na multinacional Monsanto, na área de transformação genética de plantas, e passou os últimos quatro anos em Saint Louis, nos Estados Unidos, trabalhando com outras culturas agrícolas. No ano passado, recebeu proposta para liderar a área de pesquisa e desenvolvimento do CTC e voltou ao Brasil com o desafio de desenvolver tecnologia capaz de melhorar a eficiência dos canaviais.

Antes de Capella, a engenheira de alimentos Yokoyama, de 55 anos, também havia sido convidada para integrar a equipe do centro de tecnologia e liderar a área de regulação das novas descobertas. Com mais de 15 anos de experiência e mestre em agronegócio pela FGV, ela teve passagens pela Monsanto e Dow, trabalhando com outras culturas agrícolas, como soja, milho e algodão.

Agora, as duas vão trabalhar em parceria no CTC: uma desenvolvendo variedades geneticamente modificadas e outra trabalhando para a aprovação das tecnologias nos órgãos responsáveis. E há muito trabalho pela frente. Ao contrário do que ocorreu com a soja e o milho, a cana-de-açúcar não apresentou o mesmo aumento de produtividade e, em alguns casos, houve até a regressão por causa da mecanização, diz Capella.

“O papel da minha área é elevar essa produtividade da cana para ter um retorno maior da área plantada”, afirma Capella. Isso só será possível com o melhoramento genético convencional e variedades geneticamente modificadas. Na avaliação da pesquisadora, apesar de o setor produtivo ter muita inovação, como a mecanização, a questão da biotecnologia da cana ficou atrasada em relação a outras culturas que são mais globais.

Uma das metas da bióloga é criar variedades que ainda não existem para controle de doenças. Atualmente, o CTC tem seis variedades para o controle de pragas. Em maio deste ano, as duas profissionais conseguiram aprovar uma nova variedade de cana-de-açúcar geneticamente modificada para combater a broca-da-cana, a mais importante praga que infesta os canaviais do país e que causa prejuízos estimados em R$ 5 bilhões por ano.

“Com essa aprovação, o CTC passa a ter um portfólio de variedades transgênicas resistentes à broca que cobre todo o território da cana no País, adaptado às lavouras dos variados climas e solos”, diz Yokoyama. “Todo produto novo passa por novos ensaios para averiguar se realmente funcionam e se são seguros para serem consumidos”.

O trabalho é submetido aos órgãos regulatórios e ambientais e também enviado para países que importam do Brasil.

Mulheres

Apesar do ambiente predominantemente masculino do setor sucroenergético, Capella e Yokoyama não se sentem intimidadas. Hoje, 65% dos funcionários do CTC são homens e a interlocução com o setor é basicamente feita com executivos, diz Yokoyama. Na área de ciência, que inclui o Departamento Regulatório e Pesquisa e Desenvolvimento (P&D), são 161 funcionários, sendo 50% mulheres. “Aqui não sinto nenhum tratamento diferente por ser mulher em relação a outros líderes da empresa”, diz Capella.

Mas, em empresas anteriores, ela percebia a desigualdade e a falta de mulheres em posição de liderança. “Participei de inúmeras reuniões para tomada de decisões em que eu era a única mulher entre 15 homens”, relata. A questão incomodava a bióloga, que discutia o assunto com homens da família em posição de liderança e eles sempre argumentavam que escolhiam os profissionais por competência.

“Quando perguntava quantas mulheres tinham em cargos de liderança, ouvia que nenhuma. Ou seja, não havia nenhuma mulher competente para assumir a liderança de alguma área?”, questionava. “Eles realmente não viam problema nisso”.

Para Capella, ter duas mulheres à frente da tecnologia do CTC tem um significado muito importante e representa uma inspiração para outras. “Não somos só líderes da ciência, mas do negócio do CTC. Somos responsáveis pela tomada de decisões que afetam o dia a dia e o futuro do negócio”, declara.

Bolsa de valores

O Centro de Tecnologia Canavieira (CTC) é uma empresa de biotecnologia e inovação e uma das líderes mundiais em ciência da cana-de-açúcar. Detém um dos maiores bancos de germoplasma (material genético de uma espécie) da cana no mundo, com mais de 4 mil variedades.

Atualmente, tem dois laboratórios: um em Piracicaba (SP) e outro em Saint Louis (EUA). Nos dois locais, os cientistas desenvolvem trabalhos em transgenia e edição genética. O portfólio da companhia reúne variedades de cana de alta produtividade e resistentes a doenças e pragas.

Criado em 1969, o CTC tem entre seus principais sócios a Copersucar, Raízen, São Martinho e o braço de participações do BNDES, o BNDESPar. Em outubro do ano passado, a empresa decidiu olhar novas oportunidades de crescimento e fez um pedido de registro para sua oferta inicial de ações (IPO, na sigla em inglês). O objetivo era buscar recursos para investir em projetos de sementes sintéticas, em seleção genômica e em novos negócios.

Em janeiro, no entanto, com a deterioração do mercado, decidiu adiar a operação. Retomou em fevereiro e, no final de abril, interrompeu novamente o processo.

A empresa não desistiu de abrir o capital, mas vai aguardar o melhor momento para retomar o processo. Inicialmente, a ideia era fazer uma oferta primária (dinheiro que entra no caixa da empresa) e uma secundária (dinheiro que vai para os acionistas que vendem seus papéis).

Renée Pereira


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