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Pesquisas

CTBE perde seu diretor, mas o jogo precisa continuar

Gonçalo Pereira não é mais diretor do laboratório nacional de bioetanol


Marina Gallucci – novaCana.com - 30 nov 2017 - 10:11

Gonçalo Amarante Guimarães Pereira, como sempre reforça, é acima de tudo um professor. Com ele, toda conversa “vai longe” e vira uma verdadeira aula, especialmente quando a matéria é biotecnologia e biocombustíveis – assuntos pelos quais é um apaixonado.

Na primeira entrevista que fiz com ele, Gonçalo contou sobre os projetos frente à diretoria do Laboratório Nacional de Ciência e Tecnologia do Bioetanol (CTBE), cargo que havia assumido há pouco tempo. Um ponto marcante da conversa foi o seu relato sobre como sua experiência do “outro lado”, do lado das empresas, contribuiria para o amadurecimento dos trabalhos de pesquisa realizados pela equipe do laboratório.

Entre as estratégias de jogo para o CTBE estava fortalecer o suporte científico, tecnológico e de inovação dado pela instituição “para que as empresas prosperassem e contribuíssem para o crescimento e liderança do país”.

A ideia era jogar com o mesmo time, mas através de lances diferentes: fazer com que os já conceituados trabalhos do laboratório ganhassem as empresas do país. “Não tem riqueza, por melhor que seja a ciência que um país faça, se essa ciência vira simplesmente artigo científico, relatório, curiosidade”, falou durante entrevista publicada em março pelo novaCana.

É esse jogo que o CTBE vem jogando e reforçando em cada movimento em campo no último ano, sob à direção de Gonçalo.

Há quem diga que foi um ano extraordinário para o laboratório e que o CTBE deve continuar jogando e fazendo gol. A diferença é que agora o time provavelmente precisará jogar com um técnico diferente. Gonçalo foi desligado do laboratório na noite desta segunda-feira (27).

Já é notório que o Centro Nacional de Pesquisa em Energias e Materiais (CNPEM), centro do qual o CTBE faz parte, passa por dificuldades financeiras. Em agosto, em extensa matéria publicada pelo Estado de São Paulo, o diretor geral do centro chegou a falar que havia uma reserva de contingência que daria apenas para “demitir todo mundo e fechar as portas”.

“Sempre vejo essa imagem: o cientista brasileiro aprendeu a pedalar. Só que ele está pedalando uma bicicleta ergométrica, que não sai do lugar. Então, a junção com a indústria é que nos vai permitir botar essa bicicleta no chão e ganhar quilometragem, avançar”. - Gonçalo Pereira

Hoje, mais da metade dos projetos desenvolvidos pelo laboratório são voltados para o mercado privado e realizados a partir dessa parceria. A outra metade é subsidiada pelo governo por intermédio do CNPEM. Dentro do contexto de aproximação com o setor produtivo, o CTBE realiza um trabalho de gestão que se diferencia bastante em relação aos seus pares no centro.

Assim, sobrou para o CTBE, que perdeu a queda de braço em meio aos conflitos financeiros. A notícia é que a direção do CNPEM fez cortes significativos no laboratório voltado ao etanol, sem comunicar o então diretor. Gonçalo não aceitou e “deu no que deu”, ouvi de colegas do CTBE.

O ex-diretor segue como professor da Unicamp e continua as pesquisas e o laboratório de genômica da instituição, sempre focando na conexão com o setor produtivo, atividade que nunca abandonou. A briga pelos biocombustíveis também não acaba. Terça-feira, às vésperas da votação do RenovaBio na Câmara, Gonçalo foi visto em Brasília, acompanhando os avanços do projeto.

Já nos corredores do CTBE, o discurso do time que fica é que o laboratório segue estruturado e “caminha muito bem sozinho”.

Com o RenovaBio e o papel da ciência e tecnologia para que o setor dê os saltos de produtividade tão necessários ao segmento, a continuidade do trabalho desenvolvido pela instituição precisa ocupar mais espaço na agenda do setor.

O CTBE continua o caminho, mas resta saber se o ambiente será propício para sobrevivência do centro, cujas verbas e algumas decisões ainda dependem significativamente dos planos do CNPEM.

Marina Gallucci – novaCana.com