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Usina Coruripe quer captar R$ 800 milhões com emissão de CRAs


novaCana.com - 16 jul 2019 - 10:35

A usina Coruripe, de Alagoas, está levantando R$ 800 milhões no mercado por meio de um certificado de recebíveis do agronegócio (CRA). Segundo reportagem publicada pelo Valor Econômico, a oferta foi estruturada pela XP e está sendo vendida em sua plataforma para investidores qualificados, com pelo menos R$ 1 milhão em aplicações financeiras.

Se houver excesso de demanda, o CRA poderá chegar a até R$ 960 milhões. O valor mínimo para a compra é de R$ 10 mil.

De acordo com o texto, porém, a operação chamou atenção no mercado – em especial devido à situação financeira da Coruripe, considerada frágil. “A captação de recursos por meio desse CRA é crucial para solucionar problemas de liquidez de curto prazo da usina”, aponta a reportagem.

Outra questão é que a Coruripe deu como garantia os créditos que estima ter a receber por conta de uma ação que move contra a União. Trata-se dos precatórios do Instituto do Açúcar e do Álcool (IAA), instituição governamental que realizou um tabelamento de preços na década de 1980, prejudicando os rendimentos do setor.

Segundo os especialistas consultados, os números da Coruripe, as garantias oferecidas e a estruturação da oferta exigem análise. Há também a avaliação de que os papéis seriam mais adequados para gestores especializados em títulos de alto risco – e não para a plataforma atual.

Procurados pelo Valor, XP e Coruripe não deram entrevista, alegando período de silêncio obrigatório para as ofertas regidas pela Instrução 400 da Comissão de Valores Mobiliários (CVM).

Perspectiva negativa

De acordo com o Valor Econômico, o CRA atualmente funciona como uma espécie de debênture, em que a empresa emite para uma securitizadora. Com isso, o investidor corre o risco de financiamento da empresa emissora e não dos recebíveis. O formato também favorece que o CRA seja mais utilizado pelas grandes empresas do setor que, por conta do incentivo fiscal, captam recursos a custos menores.

Porém, essas “grandes empresas” citadas possuem notas A ou AA nas agências de avaliação de risco, o que indica baixo risco de crédito. No caso da Coruripe, só no ano passado, a Standard & Poor's realizou dois rebaixamentos consecutivos na nota da usina.

Em outubro, o rating de crédito de emissor de longo prazo na escala global passou de B+ para B-, com perspectiva negativa. Ou seja, a perspectiva era de que uma próxima avaliação trouxesse um novo rebaixamento.

“O desempenho operacional da processadora brasileira de cana-de-açúcar Coruripe continua a se enfraquecer em meio aos fundamentos desfavoráveis da indústria, que incluem uma seca na região onde a empresa opera e os baixos preços do açúcar”, justificou a agência na ocasião.

De acordo com relatório da S&P, o endividamento da companhia em dólar e a alta carga de juros também estariam pressionando os resultados da Coruripe.

Atualmente, a dívida líquida da Coruripe é de cerca de R$ 2 bilhões e metade está atrelada ao dólar. O ponto positivo da emissão do CRA é que ele poderia reduzir o endividamento em dólar da usina para cerca de um terço, o que poderá ser mais favorável para as suas finanças.

Em entrevista ao Valor Econômico, o analista Bruno Matelli, da S&P, afirmou que a emissão do CRA ajudou a empresa a enfrentar uma situação mais aguda de vencimentos entre maio e junho. Por essa razão, a nota da usina não foi novamente rebaixada.

Entretanto, o problema de liquidez permanece e a emissão do CRA ainda está aberta, de modo que a perspectiva segue negativa. “O rating de outubro refletia a quantidade de vencimentos entre maio e junho e a possibilidade de a empresa quebrar 'covenants' [compromissos financeiros]. Como ela conseguiu, com recursos desse CRA, fazer os pagamentos e também obteve perdão dos credores, não rebaixamos a nota”, afirma Matelli.

Destinação do CRA

Segundo o Valor, a oferta do CRA da Coruripe tem distribuição continuada. Isso significa que ela pode ficar aberta na plataforma da XP por até seis meses – até novembro – ou até alcançar o valor pretendido.

Nesta modalidade, os recursos entram no caixa da companhia à medida que os investidores compram os papéis. “As informações que circulam são de que os recursos da captação estão sendo usados para reduzir o endividamento – inclusive pagando a emissão de outro CRA, de cerca de R$ 200 milhões, que a usina colocou no mercado no meio do ano passado”, aponta a reportagem.

Entretanto, isso vai contra a definição do CRA, que só poderia ser usado para financiar atividades ligadas ao agronegócio. No prospecto da operação, a Coruripe diz que os recursos devem ser usados para pagar os custos da emissão e a compra de insumos agrícolas necessários à produção e industrialização de cana-de-açúcar.

De acordo com o Valor, os investidores acreditam que, uma vez que a empresa solucione a questão do endividamento, ela conseguirá uma elevação do rating e, dessa forma, o CRA terá seu preço valorizado no mercado secundário.

Investimento desaconselhado

Ainda segundo a reportagem, o único relatório de análise da operação é da Eleven Financial – e ele não recomenda o investimento. Na avaliação, a Coruripe possui baixa probabilidade de atingir um perfil adequado de liquidez e crédito no médio prazo, mesmo após concluir a captação.

Para os analistas, a geração de caixa operacional da Coruripe seguirá estável ao longo das próximas duas safras. O cenário considera que o fluxo de caixa livre será entre R$ 125 milhões e R$ 150 milhões ao ano no período. Eles ainda apontam que a necessidade de recursos para renovação do canavial da usina deve consumir cerca de R$ 500 milhões ao ano até 2021.

Ainda conforme o relatório, o colchão de liquidez atual (R$ 510 milhões) e a geração orgânica de caixa seriam insuficientes para amortizar as obrigações da usina que vencem neste ano e no próximo. “Embora a emissão do CRA seja crucial para 'destravar' a rolagem de dívidas de curto prazo (R$ 1 bilhão), a liquidez da empresa continuará apertada nas próximas colheitas”, destaca a Eleven.

Parte significativa das dívidas da Coruripe vence em 2020 e 2021 (R$ 665 milhões) e 2021 e 2022 (R$ 624 milhões). A Eleven também considera que outros exercícios de reperfilamento ainda serão necessários para assegurar a solvência da empresa no médio prazo.

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Com informações do Valor Econômico