Investimento

Um Davos-man com interesses no Brasil


Valor Econômico - 28 jan 2013 - 08:42
Jens-Ulltvelt-Moe
O milionário presidente da Umoe Bioenergy, Jens Ulltvelt-Moe, 70 anos, com a aparência de uns dez anos a menos, é um típico frequentador do Fórum Econômico Mundial: caminhando pelas calçadas cobertas, em certos trechos, por um gelo traiçoeiro, passou os últimos dias da semana passada andando de um evento a outro nos hotéis e no centro de convenções de Davos, entre as dezenas de encontros, almoços, jantares e seminários, dando preferência aos temas de seu interesse.

No primeiro jantar do presidente do BNDES, Luciano Coutinho, no Fórum, lá estava Jens. Em um almoço-debate sobre política monetária, também. No café onde se esbarravam autoridades, executivos, jornalistas e todo o restante da fauna geralmente bem vestida que povoa os corredores do Fórum, Jens raramente era visto sozinho. Foi em outro café, em um dos hotéis de Davos, entre um compromisso e outro, que Jens contou, em tom desapaixonado, sua experiência brasileira.

"Estava disposto a botar dinheiro do meu bolso no Brasil", explicou, ao contar como se entusiasmou em 2007 ao ouvir, do então presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em visita a Noruega, um convite para investimentos no país. Três anos, depois, quando o rei da Noruega, Harald V, veio ao Brasil, em sua comitiva estava Jens, que, de fato, botou, numa usina de etanol, e em um terreno de 45 mil hectares de Presidente Prudente, cerca de R$ 500 milhões. Tem no Brasil dois mil dos oito mil empregados de sua empresa, uma das maiores companhias norueguesas, com negócios em transporte marítimo, etanol, instalações elétricas, restaurantes, investimentos financeiros, tecnologia da informação e telecomunicações.

Ao criar a Umoe Bioenergy, em 2010, Jens via no Brasil uma oportunidade de explorar alternativas de energia sustentável e combustível barato, mas pelo qual as pessoas se dispusessem a pagar um preço adicional, e o país lhe pareceu com excelentes perspectivas, um bom clima para investidores estrangeiros. Pensava que o etanol seria o combustível do futuro, capaz até de render dividendos com os futuros incentivos à redução das emissões de CO2 na atmosfera.. "Em muitas áreas eu estava errado", reconheceu, na semana passada, ao comentar que só agora, quatro anos após o começo do investimento, ele começou a cobrir os custos de operação.

Ao criar a empresa, não chegou a considerar a burocracia um problema, mas teve de aumentar o salário e o número de empregados contratados cuidar dos trâmites legais e destrinchar a intrincada legislação tributária. O primeiro susto, de verdade, veio ainda em 2010, quando o governo ameaçou fazer valer a restrição a compra ou aluguel de terras a estrangeiros, acima de determinado limite.

"Foi muito desapontador e assustador para mim, teria destruído meu negócio", conta ele. Ele conseguiu um sócio brasileiro e passou a acompanhar, angustiado, o noticiário sobre o tema, até receber, de São Paulo, relatos mais tranquilizadores sobre o futuro de seu negócio brasileiro.

Em seguida, passou a ver seus custos subirem, com a inflação, enquanto o preço do etanol estagnou, com a repressão aos reajustes do preço da gasolina, pela Petrobras. Decidiu, porém, manter as atividades no Brasil. Processa 2,6 milhões de toneladas de cana-de açúcar anualmente e é autossuficiente em energia, produzida com bagaço de cana da própria usina, que gera 45 MW, consome 17 MW e vende o restante no mercado.

Jens tem a crença de que o etanol continua sendo o combustível do futuro, capaz de render com mecanismos de redução de emissão de carbono, e que, "cedo ou tarde", o preço terá de acompanhar as pressões do mercado, e subir.

"A Petrobras não tem como continuar subsidiando o consumidor brasileiro e permanecer viável como empresa, mantendo os investimentos que tem de fazer", raciocina.

Ele vê que o Brasil está longe da situação da Califórnia, onde se paga um prêmio sobre o preço da cana de açúcar. Aproveitou a queda na produção do álcool de milho nos Estados Unidos para vender para lá associado da Copersucar. "Estou muito feliz com as exportações", diz ele.

Seus planos de criar uma segunda usina, contudo, foram postos na geladeira. Está investindo na ampliação das instalações atuais; pretendia até usar apenas seu próprio dinheiro, mas preferiu aproveitar as excelentes condições que encontrou no financiamento do BNDES, para o qual só tem elogios.

"Se estivesse conversando uns anos atrás eu diria que estava pronto para comprar outra usina", contou. Agora, porém, Jens acha que os riscos políticos no país são bem "mais altos" do que imaginava quando, fascinado pelo convite de Lula, partiu para Presidente Prudente. "Também fiquei apavorado com essa questão da propriedade de terras por estrangeiros."

Ele não tem lucro na usina e pensa que não terá por pelo menos mais um a dois anos. Nos últimos anos, viu empresas estrangeiras atuantes no setor fazer as malas e partir do Brasil. Como é o único dono da empresa na Noruega, ele não precisa dar satisfações a ninguém e, aparentemente, tem o apoio da mulher, a simpática e veemente professora de Economia da Universidade de Oslo Karen Helene Ultveit-Moe, que o acompanhou a Davos e, em lugar dos programas como um almoço com o escritor Paulo Coelho, previstos para as outras esposas de executivos, optou por participar ativamente de debates como o que discutiu o novo cenário econômico influenciado pelas políticas expansionistas dos bancos centrais dos países desenvolvidos.

Sorridente, sereno, Jens nem cogita encerrar suas atividades do Brasil, para onde deve viajar em breve. "Mas vou dizer: se tivesse de depender de sócios estrangeiros, dificilmente eles me deixariam continuar por lá".

Sergio Leo é especialista em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília (UnB) e graduado em jornalismo pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
E-mail: [email protected]

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