Financeiro

Setor sucroalcooleiro chegará ao fundo do poço em 2014


novaCana.com - 29 nov 2012 - 07:45 - Última atualização em: 28 ago 2014 - 16:31

O endividamento do setor sucroalcooleiro do Centro-Sul chegou a R$ 48 bilhões na safra 2011/2012 e deve continuar aumentando, segundo estudo divulgado em agosto pelo Itaú BBA. De acordo com os dados da análise, a dívida cresceu R$ 5 bilhões no último ano e deve chegar a uma situação de "fundo do poço", em março de 2014. As principais razões para o déficit são o aumento de custo de produção, em função da quebra da safra de cana-de-açúcar, falta de competitividade do etanol e investimentos tardios na recuperação de canaviais e mecanização.

O portal novacana.com entrevistou com exclusividade o diretor comercial de açúcar e etanol do Itaú BBA, Alexandre Figliolino, para saber quais são as atualizações do cenário e as possíveis consequências dos dados obtidos no estudo. Segundo Figliolino, apesar da dívida dar sinais de que continuará crescendo, há indícios de que os grupos mais bem-estruturados podem aproveitar para dar um salto de crescimento nas próximas safras, aproveitando o investimento feito nas lavouras, que demora cerca de dois anos para trazer resultados.

O diretor do Itaú BBA divide o setor sucroalcooleiro em quatro grupos bem definidos. No total, aproximadamente um terço do setor passa por dificuldades expressivas. Grandes grupos (majoritariamente internacionais) com pleno acesso ao capital representam 36% do setor; grupos nacionais com excelente performance e endividamento adequado (tendo em vista o retorno esperado) representam 29%; grupos em recuperação com elevada alavancagem (relação entre rentabilidade e endividamento) somam 16%, enquanto 18% dos grupos não têm mais condições de recuperação, tendo necessidade de passar por processo de fusão ou aquisição. "É um grupo muito heterogêneo", diz Figliolino.

De acordo com o diretor do Itaú BBA, o terceiro grupo, com elevada alavancagem, é que merece mais atenção, estando numa espécie de "limbo". Os próximos dois anos serão cruciais para determinar se conseguirão diminuir a alavancagem ou se sucumbirão, passando a também necessitar de processo de fusão.

Mesmo entre os grupos mais saudáveis, de acordo com Figliolino, os lucros estão vindo da venda de açúcar e, em menor parte, do etanol anidro, já que o etanol hidratado está sendo vendido às distribuidoras por um preço próximo ou até inferior aos custos de produção. A razão para essa dificuldade se deve em grande parte à manutenção do preço estável da gasolina pelo governo, desde setembro de 2005.

divida-etanol-sucroalooeiro-mini-281112Processos de fusão interrompidos
A falta de definição das políticas do governo para os biocombustíveis também dificulta os processos de fusão, que beneficiaram o setor ao trazer unificação entre produção e distribuição. "Há alguns anos, havia mais aquisições. Os agentes estão inseguros, em cima do muro, consolidando o que compraram".

Segundo ele, o governo precisa dar sinais claros de investirá no setor do etanol. Figliolino afirma entender a preocupação natural de não incentivar grupos ineficientes, mas acredita que a política atual do governo erra na medida, deixando grupos produtivos em situação complicada. "Com essa linha de hoje, os grupos bons não se aventuram a crescer. Está todo mundo correndo atrás do prejuízo. Se a situação se mantiver assim, o governo está condenando todo um setor a fechamento de unidades. Precisa haver mais segurança", diz. Segundo o estudo, aproximadamente 30 usinas do Centro-Sul interromperam sua produção entre 2011 e 2012.

Fator climático
Figliolino lembra que o congelamento dos preços da gasolina aliou-se à quebra de safra de 2011 ("um tombo gigantesco") e dificultou ainda mais a situação do setor sucroalcooleiro. Desse modo, fatores estritamente climáticos se uniram às "dores do crescimento" para dificultar a vida dos usineiros.

O momento de crise aconteceu justamente num período em que muito se investiu em mecanização e renovação das lavouras. Como consequência, mesmo alguns agentes que haviam acabado de entrar no mercado obtiveram performances abaixo do esperado. "Se pra quem está de dentro já não é fácil, imagina para quem está chegando e já tem de enfrentar uma infinidade de coisas adversas", afirma.

Para o diretor do Itaú BBA, a crise acaba gerando um círculo vicioso, pois os grupos em dificuldade acabam tendo de tratar o caixa e segurar a renovação dos canaviais. Isso fez com que muitas usinas trabalhassem bem abaixo da capacidade máxima de moagem, aumentando o custo de produção – como consequência final, a safra 2011/12 terminou com o setor apresentando uma dívida líquida de R$ 105 por tonelada de cana-de-açúcar, valor mais elevado do que os R$ 86,8 registrados na safra 2008/09, momento de eclosão da crise financeira mundial e retração da oferta de recursos.

Beco sem saída
O endividamento dos grupos sucroalcooleiros também preocupa o diretor da Archer Consulting, Arnaldo Corrêa, que vê o setor num "beco sem saída", em função da política do governo de manter a gasolina num preço artificialmente congelado. Essa decisão influi diretamente na competitividade do etanol, pois o consumidor só compra o biocombustível quando o preço está abaixo de 70% da gasolina, tendo em vista as diferenças de rendimento.

"O preço da gasolina sai hoje da cabeça do sr. [Guido] Mantega [Ministro da Fazenda]. Como convencer alguém a investir se não se sabe como será estabelecida a formação de preços? É um potencial imenso desperdiçado, já que a frota de carros flex só cresce", diz Corrêa.

Pessimista, o diretor da Archer afirma ser difícil uma reversão da situação a médio prazo, já que a dívida do setor equivale à arrecadação de duas safras inteiras. "Há grupos em ótima situação financeira, mas isso não significa muito. Se há um frango para duas pessoas, e uma o come inteiro, alguém fica sem comer nada", diz.

André Simões - novaCana.com