Financeiro

Pioram as perspectivas para as usinas de cana


Valor Econômico - 13 dez 2012 - 08:31
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O inferno astral do setor sucroalcooleiro promete ser mais intenso do que previam os mais pessimistas. A notícia de um adicional de, no mínimo, 1 milhão de toneladas de açúcar nesta safra no Centro-Sul parece ter ancorado o preço da commodity abaixo de 19 centavos de dólar por libra-peso em Nova York. O mau humor respingou também nas ações das companhias sucroalcooleiras listadas em bolsa, que recuaram. Os próximos trimestres tendem a ser difíceis para as mais de 300 empresas do setor. Muito pouco do açúcar que será exportado no ano que vem teve hedge de preços em níveis mais altos do que os atuais.

A condição pouco afeta a safra 2012/13, em fase de conclusão, cuja exportação está quase toda vendida a preços médios de 23 centavos de dólar por libra-peso. A questão é que apenas de 20% a 30% do açúcar que será embarcado no ano que vem teve preços hedgiados em bolsa. Ou seja, ainda há, pelo menos, 70% das exportações para serem vendidas, em um mercado com forte viés baixista.

A commodity voltou ontem a bater níveis inferiores a 19 centavos de dólar por libra-peso em Nova York. O contrato março (o de maior liquidez no momento) fechou em baixa de 1,80%, a 18,54 centavos de dólar por libra-peso, o menor valor em 28 meses.

"A percepção que se tinha é de que essa produção maior de açúcar na região já estava contida nos preços em Nova York. Mas os últimos pregões mostraram que não estava", diz a gerente de pesquisa da trading inglesa Czarnikow, Ana Carolina Ferraz.

A questão que preocupa, explica a especialista, é que esse volume adicional do Centro-Sul vai se juntar em janeiro aos 1,8 milhão de toneladas que a Tailândia deve ofertar para exportação. "Esses fatores seguirão pressionando", diz.

A má notícia, diz o diretor da Czarnikow Brasil, Tiago Medeiros, está no fato de a tendência ser de as cotações do açúcar convergirem para a paridade com os preços do hidratado - que na terça-feira equivaliam a 17,60 centavos de dólar por libra-peso.

De olho nesse cenário pessimista, os investidores penalizaram os papéis das sucroalcooleiras na BM&FBovespa. Ontem, as ações da São Martinho, única empresa de capital aberto estritamente sucroalcooleira, recuaram 1,5% na bolsa de São Paulo. A Tereos Internacional, controladora da produtora de açúcar e etanol Guarani, caiu menos (0,70%), com suporte de sua operação diversificada, de processamento de milho e produção de amidos. A Cosan, mais posicionada em infraestrutura e energia do que em cana-de-açúcar, foi a única entre as três a subir (0,50%). O Ibovespa teve ontem queda de 0,25%.

Relatório do Barclays divulgado ontem menciona que as ações da São Martinho estão precificadas para um açúcar a 15 centavos de dólar por libra-peso em 2013/14, bem abaixo dos preços atuais e da própria estimativa do banco, que era de 17,9 centavos de dólar por libra-peso. O relatório acrescentou como viés positivo que a São Martinho fez hedge de uma parte importante de sua produção esperada de 2012/13 para 2013/14 a valores além das expectativas.

Mas neste momento a pergunta que vale ouro é: o que vai acontecer com o etanol?, indaga o diretor de Açúcar da trading inglesa Armajaro, Eduardo Rocha. "Há excesso de açúcar no mercado e, a partir de abril uma nova grande safra de cana no Brasil virá. Se nada acontecer com a demanda por etanol, o cenário de superávit se acentuará", diz Rocha. A previsão da trading para a safra no Centro-Sul é de moagem de 534 milhões de toneladas de cana e produção de 34,3 milhões de toneladas de açúcar, número que, se confirmado, será 1,6 milhão de toneladas acima da previsão da Unica de 32,7 milhões de toneladas. Até a semana passada portanto, antes do relatório da Unica, a Armajaro apostava em um superávit mundial de 7 milhões de toneladas da commodity.

O alvoroço do mercado desta semana foi provocado pelo relatório de segunda-feira da União da Indústria de Cana-de-Açúcar (Unica). Nele, a entidade informa que, até 1º de dezembro, a moagem no Centro-Sul havia sido de 510 milhões de toneladas. Como o clima segue favorável à colheita da cana, o mercado passou a trabalhar com perspectiva de produção de açúcar de 34 milhões de toneladas, ante as 32,7 milhões previstas para toda a safra pela Unica. Ontem, a Companhia Nacional de Abastecimento elevou de 530 milhões para 535 milhões de toneladas a moagem para a região. Reduziu, no entanto, em 500 mil toneladas a produção de açúcar para o Nordeste.

Fabiana Batista

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