Financeiro

[Opinião] Uma “guerra relâmpago” sobre o agronegócio: o que esperar?

Setor sucroenergético está entre os que tiveram as perspectivas mais afetadas para a safra 2020/21


USP - 24 jun 2020 - 13:54

Por Heloisa Lee Burnquist*

Neste início de 2020, a população global enfrenta uma espécie de “guerra relâmpago”, causada por um inimigo invisível: o coronavírus SARS-CoV-2, doença infecciosa com alta capacidade de contágio, que causa a covid-19.

As máscaras obrigatórias, a obsessão por álcool em gel e o temor na aproximação de outras pessoas marcarão uma geração. O que parecia quase impossível – brasileiros passarem pelo menos quatro meses sem futebol no domingo à tarde – já ocorreu. E não temos perspectivas de quando voltaremos à “normalidade” em termos de ir e vir, pois medidas não assumidas para preservar vidas e saúde vêm prejudicando o controle da doença.

Com certeza muita coisa vai mudar. Por vivermos uma situação sem precedentes, será necessário intensificar análises e pesquisas para identificar os ajustes a serem feitos na formulação de políticas públicas, tanto para a saúde como para os efeitos socioeconômicos decorrentes.

Uma fonte de apreensão quanto às possíveis mudanças introduzidas pela pandemia é a possibilidade de retração do comércio entre os países com o emprego de medidas protecionistas. Essa reação foi observada em crises globais anteriores e a situação atual pode ser agravada pelo contexto já prevalecente. Nos últimos anos, tem-se observado o enfraquecimento da capacidade da OMC em coibir o emprego do protecionismo, as guerras comerciais entre EUA e China, retrocessos na globalização e fortalecimento da regionalização do comércio.

A despeito das expectativas negativas neste front, acredita-se que o agronegócio brasileiro pode sobreviver à crise e até sair fortalecido. Em 10 de junho, o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) divulgou resultados bastante positivos para o setor, indicando que esse foi responsável por 60,9% do total exportado pelo país em maio de 2020. Um valor recorde de exportações foi alcançado, de US$ 10,9 bilhões, o que representa um incremento de 17,9% relativamente ao resultado de maio em 2019.

A mesma fonte indicou que o desempenho foi particularmente resultado dos embarques de soja em grãos (US$ 5,2 bilhões), carne bovina (US$ 780milhões), açúcar (US$ 767 milhões) e café verde (US$ 468 milhões).

É importante destacar que o relativo sucesso no contexto externo nestes primeiros meses da pandemia se deve, em boa parte, ao patamar elevado sustentado pelo câmbio de real por dólar. Em meados de maio, a variável atingiu um valor historicamente recorde de R$ 5,9/US$.

Além disso, é importante atentar ao fato de que esses resultados estão suprindo necessidades alimentares de curto prazo de outros países, por onde o vírus passou antes de chegar ao Brasil. A ocorrência da pandemia e a opção pelo lockdown pelos governos de diversos países dificultou a realização da produção.

Embora positivos, tais resultados podem não ser suficientes para manter os diferentes segmentos do agronegócio equilibrados, em função de suas peculiaridades.

O setor sucroenergético, por exemplo, foi um que teve as perspectivas para a safra 2020/21 totalmente frustradas. A expectativa era de que, após uma década de superação dos problemas iniciados no governo Dilma, a safra evoluiria alavancada por uma conjunção de aspectos positivos.

O consumo de etanol vinha em patamar elevado, com o barril de petróleo tipo brent mantendo um nível suficientemente alto para dificultar a competitividade da gasolina com o álcool no mercado doméstico. Os preços do açúcar na bolsa de NY chegando a 15 centavos de dólar por libra-peso para o contrato com vencimento em abril de 2020. Além disso, as condições climáticas favoreceram o aumento da produtividade da cana, confirmando que esse seria o ano da virada.

Com o câmbio alcançando R$ 4,30/US$, boa parte do açúcar brasileiro a ser produzido foi vendido, segundo uma estratégia extremamente oportuna. Em poucas semanas, ocorreu a reversão nos direcionadores positivos para o setor. A pandemia de coronavírus, iniciada na Ásia, foi transferida rapidamente para o continente europeu e chegou ao Brasil, consolidando um cenário de pesadelo e provocando um número de mortes bastante elevados, além de consolidar problemas econômicos e sociais em praticamente todo o seu caminho.

Pelo menos no curto prazo, tem-se considerado que a balança deve pender negativamente para o etanol relativamente ao açúcar. A manutenção de pessoas em suas casas e a queda brusca no preço de petróleo no mercado internacional – provocadas por desentendimentos entre grandes produtores, como Rússia e Arábia Saudita – reduziram o consumo do biocombustível de forma drástica.

Ao longo da última década, a venda de etanol se tornou a principal fonte de fluxo de caixa para as usinas. Face ao contexto atual, a gestão das empresas precisa ser adequada à nova realidade.

No ano passado, cerca de 60% da cana colhida na região Centro-Sul foi direcionada à produção de etanol devido aos baixos preços do açúcar no mercado internacional. Para a presente safra, a melhor alternativa de curto prazo parece ser o armazenamento do produto para evitar “preços de liquidação”, visando manter a participação no mercado.

Líderes do setor vêm trabalhando junto ao governo para que uma política adequada seja implementada, minimizando os danos que baixos preços podem ter para o setor. Tem-se observado também que cerca de 30% das unidades moendo cana no país produzem apenas etanol, o que precisa ser contabilizado nas análises quanto à perspectiva para o produto e o seu preço de mercado.

No caso do açúcar, sabe-se que quanto maior a influência externa sobre os mecanismos de mercados, tanto mais suscetíveis estes ficam a amplas variações na demanda, resultando em variações expressivas dos preços. Na realidade, os principais direcionadores dos preços de açúcar brasileiro atualmente são seis: estoque global da commodity, taxa de câmbio, preços do petróleo, condições climáticas, regulamentações governamentais e tendências do consumo.

No que tange aos estoques, quanto mais elevado, tanto maior a pressão negativa sobre os preços. Desde a safra 2016/17 os estoques foram se acumulando no contexto global, atingindo nível recorde superior a 65 milhões de toneladas – tendência essa que seria revertida na safra atual, com análises indicando um déficit da ordem de 10 milhões de toneladas no mercado internacional.

Isso vinha sendo visto com grande entusiasmo pelo setor, considerando que dentre os direcionadores dos preços do açúcar, o patamar de estoque global é fundamental. Na verdade, este é um fator que afeta todas as commodities. Para o açúcar, níveis baixos de estoque indicam fortalecimento da demanda, baixa produção ou ambos. Para o açúcar de cana, particularmente, o efeito pode ser acentuado devido ao período de produção envolver um ciclo relativamente longo, nos grandes países produtores.

Logo no início de março, no entanto, as variáveis voltaram a desestimular as exportações de açúcar brasileiro, com exceção do câmbio, que chegou a um patamar recorde da ordem de R$ 5,9/US$ em meados de maio. As cotações de açúcar voltaram ao patamar de 10 centavos de dólar por libra-peso no mercado externo, com a configuração de um novo período de risco nos mercados financeiros voltando a pressionar os preços das commodities.

Os efeitos do terceiro direcionador – o preço do petróleo, já mencionado acima –, apresentou um fenômeno desafiador para os grandes nomes da economia: mais especificamente, a distribuição da commodity pelos EUA a preços negativos da ordem de US$ 17,00/barril face à impossibilidade de estocagem. Mudanças no mix se tornaram favoráveis ao açúcar, seguindo o entusiasmo que um incremento de preços sinalizava.

As condições climáticas favorecem a produtividade brasileira, enquanto notícias sobre quebras na Tailândia – importante produtor de açúcar – em função da falta de chuva eram tidas como um fator positivo adicional para o desempenho do sucroenergético brasileiro nesta safra.

A essa altura, inferências quanto às regulamentações governamentais e particularmente ao consumo que também são importantes direcionadores parecem não ter uma base bem definida para interpretação.

Com a evolução da covid-19 no mundo, os mercados das commodities agrícolas passaram por uma elevada instabilidade, expondo os produtores a uma única certeza: uma boa porção da demanda esperada para os produtos do agronegócio pode ser reduzida e a estabilidade de cadeias de oferta tornaram-se tênues. É preciso arregaçar as mangas e aprender a lidar com os prejuízos, que ainda podem ser administrados com empenho e responsabilidade.

* Heloisa Lee Burnquist é professora da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq), da Universidade de São Paulo (USP)


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