Financeiro

FMC fecha parceria com fintechs para oferecer R$ 200 milhões para custeio na safra 2021/22


Agência Estado - 02 jun 2021 - 07:50

A norte-americana FMC selou parceria com duas fintechs, Duagro e TerraMagna, para disponibilizar R$ 200 milhões a revendas e produtores de soja, milho, cana-de-açúcar, algodão e café na safra 2021/22.

Com os recursos, as revendas poderão comprar os insumos da FMC à vista com desconto e oferecer condições mais atrativas de financiamento aos agricultores clientes, explicou ao Broadcast Agro o gestor de operações estruturadas e barter da FMC Brasil, Alexandre Toledo. As distribuidoras também poderão utilizar parte dos recursos para comprar outros insumos, como adubos, segundo a CEO da Duagro, Fernanda Mello.

“As fintechs trazem inovações para aliviar a burocracia no campo. Em relação ao custo da operação, em razão dos financiadores envolvidos (investidores) esse custo é muito mais competitivo que outras fontes tradicionais de financiamento, como a indústria e as linhas comerciais de crédito”, explica Toledo. “Isso (a aquisição de insumos) compõe o custo médio da revenda e consequentemente vai ser espelhado no custo da safra do produtor”, continuou.

Por meio das cerca de 200 revendas de todo o País cadastradas no programa Juntos, da FMC, que oferece soluções personalizadas a clientes, aproximadamente 800 agricultores devem acessar os recursos disponibilizados por meio da Duagro e da TerraMagna nesta safra.

A Duagro, com R$ 100 milhões, prevê atender inicialmente entre 200 e 400 agricultores, a depender do valor concedido a cada um, conta a CEO da fintech. A TerraMagna deve emprestar para outros 400. As fontes dos recursos são investidores e fundos acessados pelas fintechs, interessados em investir no agronegócio.

Na parceria com a FMC, a Duagro, criada pela XP em parceria com a Securitizadora Vert, continuará seguindo a estratégia de financiar produtores de porte pequeno, com propriedades de até 100 hectares, e médio, cuja área vai de 100 a até 2,5 mil hectares. O limite por beneficiário será R$ 1 milhão, de acordo com Mello, mas o valor médio deve ficar por volta de R$ 300 mil.

O recurso deve cobrir uma parcela dos gastos dos produtores com o custeio da safra, até 50%, explica ela. “Também existe o crédito rural (com taxas de juros subsidiadas ou controladas) e certamente eles vão acessá-lo dentro do que for possível. Então é o começo da diversificação das fontes de recursos dos produtores”, disse Mello ao Broadcast Agro.

A Duagro vai captar os R$ 100 milhões junto a investidores nacionais e estrangeiros, por meio da emissão de um Certificado de Recebível do Agronegócio (CRA), segundo a executiva. Já TerraMagna, que entra no projeto junto com a consultoria Markestrat, acessará recursos exclusivamente de investidores nacionais, de acordo com seu CEO, Bernardo Fabiani.

A oferta de crédito a produtores por meio das fintechs tenta resolver duas das principais “dores” apontadas por eles na tomada de crédito, destaca Mello: burocracia e garantia. No primeiro caso, os trâmites diminuem porque quando o vendedor da revenda oferecer ao produtor a possibilidade de financiar sua compra pela Duagro, ele já estará com seu crédito aprovado. Isso porque cada revenda compartilhará com a fintech uma base de produtores rurais clientes, que terão seu perfil analisado na plataforma da Duagro.

Com a inserção de poucas informações, o sistema acessa dados relacionados ao produtor em diversos bancos de dados, como da Embrapa, de satélites, Serasa, justiça, informações climáticas e outras. A partir daí, analisa a área da propriedade, as culturas cultivadas, histórico de produtividade, se há registro de ocorrência associada à trabalho análogo à escravidão, irregularidades ambientais, entre outros pontos. O cruzamento de dados permite à Duagro aprovar ou desaprovar a inserção de produtores no grupo dos beneficiários.

“Uma vez que o produtor seja aprovado para receber o recurso, o revendedor pode oferecer a opção. Quando o agricultor fizer o pedido na revenda, ela vai preencher a CPR (Cédula de Produto Rural) financeira e o produtor vai assinar pelo próprio aplicativo. E pronto, acaba ali”, explica Mello. A Duagro não exige garantia real (hipoteca) nem penhor de safra. Ao fim da colheita, quando os agricultores tradicionalmente quitam suas dívidas com as revendas, o pagamento será feito, neste caso, à própria Duagro, que vai então remunerar os investidores.

A TerraMagna também recorre à tecnologia para agilizar a liberação de crédito a produtores sem deixar de analisar sua capacidade produtiva e riscos de crédito, agronômicos e climáticos. Para isso, usa dados de satélites, inteligência artificial e informações alternativas.

Diferentemente da Duagro, no entando, a TerraMagna demanda como garantia o chamado “penhor de safra”, ou seja, a produção, utilizando sua plataforma para monitorar o desenvolvimento das lavouras e a colheita. “Os distribuidores de insumos têm acesso limitado ao crédito de indústrias no agro. Com essa operação, poderão fornecer mais insumos aos produtores que, por sua vez, contarão com valores mais atrativos para aquisição dos produtos”, afirma Fabiani.

Fernanda Mello, da Duagro, enfatiza a importância de operações como esta para aproximar os produtores rurais do mercado financeiro. “Daqui dois, três anos, esse produtor vai ter um histórico com investidores, o que significa mais acesso a crédito e taxas mais baratas. É isso que vai trazer sustentação para, no futuro, o mercado absorver a necessidade crescente de crédito, enquanto a oferta de crédito rural oficial vem decrescendo”, diz.

Segundo ela, a estimativa hoje é de que, somente para custeio da safra, o agronegócio demande em torno de R$ 300 bilhões. No Plano Safra 2020/21, o total disponibilizado para custeio com taxas equalizadas ou controladas foi de R$ 102,5 bilhões. Ela cita que, até 2040, o Banco Central projeta uma demanda para custeio de R$ 560 bilhões, a fim de dobrar a safra de grãos. “A lacuna está aumentando”, afirma.

Clarice Couto