Financeiro

Dívidas ainda travam investimentos em cenário positivo para o setor canavieiro


DCI - 29 jun 2016 - 09:37

Déficit de açúcar no exterior, demanda crescente para o consumo doméstico de etanol, clima favorável e manutenção nos custos de produção são alguns dos fatores que compõem plano de fundo positivo para as usinas de cana-de-açúcar nesta safra.

Com níveis de remuneração mais altos para os subprodutos do setor sucroenergético, esperava-se uma retomada nos investimentos que não veio, travada, sobretudo, pelo nível de endividamento que ainda se mantém alto. "Vemos um Brasil que vai voltar a crescer, o cenário é positivo e há condições. Achamos que os investimentos devem acontecer, mas ainda não aconteceram", enfatizou ao DCI o diretor da Agência Nacional de Petróleo (ANP), Aurélio Amaral, durante o NovaCana Ethanol Conference, ontem, na capital paulista.

Em meados de março, o sócio da consultoria MB Agro, Alexandre Figliolino, disse à imprensa que as dívidas do segmento giravam em torno de US$ 150 por tonelada na temporada 2015/ 2016, 15% superiores ao ciclo anterior, totalizando cerca de R$ 93 bilhões e com tendência de alta para o curto prazo, impactada pelos efeitos do dólar alto até o início do ano e do fluxo de caixa negativo das empresas.

"Hoje não temos praticamente nenhum novo investimento no setor, só vemos migração de produtos dentro das próprias usinas", concordou o diretor de combustíveis renováveis do Ministério de Minas e Energia (MME), Ricardo Dornelles. Para ele, enquanto não houver aumento na capacidade de moagem de cana, será difícil atender a demanda dos dois subprodutos. "Nosso problema hoje não é mercado, temos mercado para crescer", acrescentou.

Entrave logístico

A logística de distribuição de etanol é o fator mais prejudicado pela falta de suporte financeiro. São Paulo é o grande consumidor porque também é o maior polo produtor, as usinas estão localizadas estrategicamente tanto para o mercado interno, quanto para encaminhamento aos portos, para exportação.

O executivo da ANP cita as usinas goianas como exemplo deste problema. "Goiás tem potencial de produção mas está longe. Há o projeto do duto, que está pronto na parte sudeste, até Uberaba (MG) e Uberlândia (MG), mas ainda precisam chegar a Goiânia. Com isso, o transporte apenas por meio de caminhões onera o processo e tira competitividade do produtor", explicou.

Em suma, atualmente, a logística do etanol é ancorada na da gasolina, e a falta de um sistema específico é o que afeta os ganhos reais do usineiro da Região Centro-Oeste.

Uma das saídas sugerida por Amaral é a realização de contratos pela BM&FBovespa com entrega física do biocombustível, uma medida que permite ao setor travar os valores de venda do produto e negociar o melhor momento para a comercialização. Apesar de ser algo ainda insipiente, "já pedimos os elementos para que os produtores levassem seus contratos para a Bovespa", lembrou.

Açúcar

Na última semana, o Indicador Cepea/Esalq do açúcar cristal no mercado paulista, fechou a R$ 86,05 por saca de 50 kg, o maior patamar nominal de toda a série histórica do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), iniciada 2003. Entre 13 e 20 de junho, o Indicador subiu 3,53% e, na parcial deste mês, o aumento já é de 11,36%. Segundo pesquisadores do instituto, embora o momento seja de safra no centro-sul, a oferta de açúcar cristal está reduzida no mercado interno, devido às chuvas no início deste mês, que atrapalharam a moagem da cana-de-açúcar.

O gerente do departamento de pesquisa setorial do Rabobank, Andy Duff, destacou durante o evento que os preços praticados pelo açúcar brasileiro subiram 48%, valor mais alto entre os maiores países fornecedores em função da desvalorização da moeda nacional. Nos concorrentes Índia e Tailândia, este percentual representa 19% e 21%, respectivamente, enquanto a cotação internacional subiu 10%.

No Brasil, o frio mais intenso previsto para o inverno pode colaborar para a melhora da produtividade, visto que os canaviais estão com taxas de renovação cada vez mais baixas. "Capacidade existe, mas precisaremos de tempo bom para moer", ressaltou o sócio analista da Agroconsult, Fábio Meneghin.

Nayara Figueiredo


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