Financeiro

[Opinião] Choque de preços em um mundo saturado de óleo


O Estado de S. Paulo - 23 abr 2020 - 07:38

Por Celso Ming*

Na última segunda-feira, pela primeira vez na história, os preços do petróleo dos Estados Unidos, o WTI (West Texas Intermediate), referência no mercado, tiveram brutal cotação negativa. Para entrega em maio, chegou a ser negociado a US$ 37,63 negativos por barril de 159 litros.

Não é bem uma situação em que você vai ao posto de gasolina, manda encher o tanque e, em vez de pagar R$ 200, você recebe do frentista isso aí ou até mais. Os estoques de petróleo e derivados estão tão altos, que aqueles investidores que se comprometeram a comprar petróleo para entrega em maio não tinham onde armazená-lo. Para zerar seus contratos, foram obrigados a pagar aos vendedores para que estes fiquem com aquele óleo.

Essa distorção diz mais do que apenas uma situação esdrúxula que acontece uma vez na história, como o dilúvio universal. Mostra que o mundo está inundado de óleo porque o consumo de energia despencou e porque a atividade econômica quase parou. Ao mesmo tempo, isolado em casa, o consumidor deixou de usar combustível, os aviões deixaram de voar (portanto, deixaram de queimar querosene), os caminhões estão encostados nas garagens e assim por diante.

Embora a Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep) e também produtores fora do cartel tivessem chegado a um acordo na semana anterior para reduzir em cerca de 12% a 15% a produção, continua chegando petróleo às refinarias. Isso acontece apenas em parte porque não é possível fechar as torneiras dos poços no mesmo ritmo em que despencou o consumo. Ao menos momentaneamente, o ajuste passou a ser feito não por remanejamento do volume, mas pelo preço.

Mas há outras considerações a levar em conta. Não é seguro que o consumo seja restabelecido tão logo a pandemia vá embora, porque ela pode voltar e poderá ser necessário tanto voltar a parar a atividade econômica como a confinar as pessoas em suas casas. Ainda é preciso ver o que vai de fato ser diferente na economia pós-crise.

Mesmo que os motores da produção e do transporte voltem a rodar, parece improvável que o consumo de petróleo seja restabelecido aos níveis anteriores aos do início da depressão.

Isso significa que muitos produtores, especialmente os que operam a custos mais altos do que os preços vigentes do petróleo, ficarão por algum tempo alijados do mercado ou, mesmo, acabarão quebrando.

Em compensação, o petróleo e o gás ficaram tão baratos que provavelmente voltarão a ser usados como insumo nas usinas térmicas para produção de energia elétrica. E isso pode adiar projetos de expansão de energia renovável, especialmente as de fontes eólica e solar. Aqui no Brasil, outra vítima será a produção de etanol, que já não consegue competir com a gasolina. A safra de cana-de-açúcar, que está no início no Centro-Sul, terá de enfrentar essa hora ingrata, que uma eventual alta de impostos sobre o etanol (por meio da Cide) não conseguirá compensar.

A derrubada dos preços dos combustíveis terá no Brasil graves impactos na área fiscal. Estados e municípios são altamente dependentes das receitas do ICMS sobre combustíveis, que caíram (na refinaria) mais de 50%. Também será superior a 30% a queda de receitas com royalties e participações especiais cobradas dos produtores de petróleo.

E há os fretes. Os caminhoneiros que paralisaram o País em maio de 2018 para tentar fortes reajustes no frete agora estão amargando baixa acentuada de preços, que tabelamento nenhum conseguirá segurar.

Como tudo em economia, essa nova ordem na área da energia produzirá ganhadores e perdedores. De longe, o maior ganhador deverá ser a China, que poderá retomar sua atividade econômica aproveitando os preços bem mais baixos da energia.

Como já foi examinado nesta Coluna em outras oportunidades, a forte queda dos preços dos combustíveis tende a produzir inflação negativa (por alguns também chamada deflação), porque a baixa não será compensada pela alta de outros itens da cesta de consumo, tanto das famílias como das empresas. É situação que pressiona ainda mais o Banco Central para nova redução dos juros básicos, hipótese que já começa a ser admitida pelo seu presidente, Roberto Campos Neto.

* Celso Ming é colunista de economia do jornal O Estado de S. Paulo


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