“Os produtores [de biocombustíveis] precisam entender que, agora, grande parte da responsabilidade passa a ser nossa. Nós temos que fazer com que o RenovaBio realmente ganhe tração”, Luiz Gustavo Junqueira (Alta Mogiana)

novaCana.com 14 ago 2019 - 09:43 - Última atualização em: 14 ago 2019 - 13:49

A partir de 2020, o mercado de créditos de descarbonização (CBios) passará a fazer parte do dia a dia das usinas de cana-de-açúcar brasileiras. As companhias que já estão de olho nas regras da nova política nacional de biocombustíveis (RenovaBio) e iniciaram seu processo de certificação poderão ser as primeiras a ingressar nesse mercado – e devem receber um adicional de receita por conta disso.

O diretor comercial da Usina Alta Mogiana, Luiz Gustavo Junqueira, resume o que os créditos significam. “O CBio equivale a uma tonelada de carbono que é evitada, que deixa de ir para a atmosfera”, descreve durante o evento F.O. Licht Sugar & Ethanol Brazil 2019, realizado em maio.

Esse título será comercializado com as distribuidoras de combustíveis, que possuem metas a cumprir. Elas, por sua vez, foram estabelecidas a partir da média nacional e respeitando a participação de cada empresa no mercado de combustíveis fósseis. “Chegamos às metas de redução por meio do Tratado de Paris. Elas são calculadas em toneladas de carbono. A moeda que foi criada, então, está em toneladas de carbono”, complementa Junqueira.

O diretor reforça que as usinas precisam passar por um processo de certificação para emitirem CBios. “Algumas usinas já começaram a certificar as suas unidades”, afirma e continua: “Essa certificação tem nuances muito individuais. Determinadas unidades são mais eficientes do ponto de vista energético do que outras”.

“O RenovaBio tem uma meta bem agressiva, mas que pode ser atendida pelos produtores de etanol e de biodiesel brasileiros”, Luiz Gustavo Junqueira (Alta Mogiana)

Atualmente, oito unidades produtoras de etanol já iniciaram a fase de consulta pública, uma das últimas antes da obtenção da certificação. Todas possuem notas distintas, que vão de 56 gCO2/MJ a 68,3 gCO2/MJ.

renovabio pioneiras notas 260719

Na NovaCana Ethanol Conference 2019, evento que acontece em São Paulo entre os dias 16 e 17 de setembro, Luiz Gustavo Junqueira deve moderar um painel totalmente dedicado ao processo de certificação das usinas.

Na ocasião, representantes de três firmas inspetoras autorizadas pela Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) devem falar sobre as principais dificuldades encontradas até o momento, o andamento das adesões ao programa, o investimento necessário e o tempo previsto para a certificação, o que é necessário saber sobre a calculadora do RenovaBio – a RenovaCalc – e, claro, as projeções para as notas e os rendimentos das usinas.

nec19 firmasinspetoras

A programação completa da NovaCana Ethanol Conference 2019 já está disponível. Clique aqui para se inscrever.

Perspectiva de preço dos CBios

Para Junqueira, a faixa de preço para comercialização dos CBios é “uma grande incógnita”. “O que a gente pode dizer hoje é que, como os preços dos CBios vão em direção a uma lógica de oferta e demanda, a gente não pode imaginar preços de CBios flutuando para cima ou para baixo sem as variáveis clássicas de oferta e demanda de uma commodity, como o caso do próprio açúcar”, explica.

Assim, entre os principais pontos de influência nos preços dos CBios, ele cita a produção de cana-de-açúcar brasileira e a quantidade de matéria-prima destinada à produção do biocombustível. A lógica é simples: quanto maior o volume de etanol no mercado, maior o volume de CBios disponíveis.

“Se os CBios tiverem preços baixos, isso significa que nós conseguimos atender ao aumento da oferta mesmo sem a necessidade de um CBio em patamares elevados. E, no final das contas, é isso o que a sociedade espera de nós”, Luiz Gustavo Junqueira (Alta Mogiana)

Outra questão seriam os mercados que podem afetar a oferta de etanol, como o de petróleo, que interfere no preço dos combustíveis fósseis, e o de açúcar, que “compete” com o etanol dentro das usinas. Segundo Junqueira, atualmente, em torno de 10 milhões de toneladas de açúcar equivalente por ano podem ser direcionadas tanto para o etanol quanto para o açúcar, dependendo da viabilidade financeira de cada produto.

“Os CBios vão aumentar a volatilidade do mercado de açúcar”, garante e justifica: “Em um ano normal, esquecendo os CBios, basta o açúcar remunerar um pouco melhor que o etanol para que as usinas brasileiras já tenham um grande incentivo para a produção de açúcar, diminuindo a produção de etanol”.

Porém, em alguns cenários, Junqueira acredita que isso poderia levar a um déficit de oferta de CBios. Com isso, o preço dos créditos subiria, estimulando novamente a produção de etanol. “Ou seja, caso o mix voltasse a ser mais açucareiro, os CBios subiriam de preço e o açúcar precisaria subir mais ainda para que, aí sim, as usinas mudassem o mix efetivamente para o açúcar”, conclui.

Outros mercados importantes nesse contexto, conforme Junqueira, são o de milho e o de biodiesel. Por também gerar CBios, o biocombustível pode afetar a oferta dos títulos e interferir nos preços. “Temos também uma produção de etanol de milho no Brasil crescendo em uma proporção muito forte”, completa.

“Nós vamos ter uma volatilidade no preço do CBio. Vai ter emoção”, Luiz Gustavo Junqueira (Alta Mogiana)

Além disso, o executivo também relata que o mercado dos créditos de descarbonização será afetado pela economia nacional e por possíveis mudanças em impostos. “Nós não prevemos uma grande mudança em impostos de combustíveis no Brasil ou em açúcar. Mas qualquer eventual alteração nesse cenário pode alterar também a composição de relatividade de um produto em relação ao outro e isso pode afetar o preço dos CBios”, complementa.

Oferta de CBios será apertada

O diretor da Alta Mogiana também acredita que as metas do RenovaBio contemplam um aumento “muito forte” da oferta de CBios.

Conforme a Resolução nº 15/2019 do Conselho Nacional de Política Energética (CNPE), as distribuidoras deverão adquirir 28,7 milhões de CBios em 2020 (acrescidos da meta residual de 2019, equivalente a oito dias) e 95,5 milhões de CBios em 2029. O crescimento de 232,8% será aplicado de forma gradual ao longo de nove anos. Entre 2020 e 2021, especificamente, o aumento na meta é de 42,9%.

De acordo com Junqueira, se 50% da capacidade brasileira de produção de biocombustíveis aderir ao programa, isso resultaria em 23,8 milhões de CBios em 2020 – ou seja, um montante 900 mil abaixo da meta. Em 2021, com 70% de participação, o setor de biocombustíveis geraria 33,3 milhões de CBios e não atenderia a meta por uma diferença de 7,7 milhões de CBios. No ano seguinte, considerando adoção de 90% da capacidade atual, o déficit é de 7 milhões de créditos.

cbios projecao 130819

“Isso é para mostrar que, com 50% de aderência, nós não conseguimos atender à demanda de CBios. Precisamos de uma aderência maior, tanto de biodiesel quanto de etanol”, afirma. “O fato do mercado [de CBios] ser crescente, ter uma taxa de crescimento muito elevada, vai manter a pressão sobre a oferta muito intensa”.

Dessa forma, o diretor acredita que os preços dos CBios não tendem para baixo. “Pelo contrário. Pelo cenário que eu mostrei aqui, estou vendo mais chance do valor do CBio estar mais próximo do teto que do piso”, avalia.

Cada usina por si

Junqueira ainda enfatiza que as usinas terão notas diferentes dentro do programa devido a características como produtividade agrícola, capacidade de cogeração, políticas de Corte, Transbordo e Transporte (CTT) e outras. “Existem ainda outros fatores. Algumas unidades têm muita cana de terceiros e entendo que há uma dificuldade maior em se fazer o processo de certificação de cana de fornecedores em relação à cana própria”, complementa.

Além disso, ele comenta a possibilidade das unidades utilizaram dados padrão para suas informações agrícolas. Esses números, determinados pela própria RenovaCalc – ferramenta de cálculo do RenovaBio –, são maiores que a média do setor, resultando em uma espécie de penalidade para quem os utilizar. Com isso, a nota da usina é prejudicada, mas ela ainda pode participar do programa.

“É por isso que a gente pode ter unidades onde, para gerar um CBio, a usina vai precisar produzir 900 litros de etanol. Isso em um extremo. Ao passo que as usinas mais eficientes e mais organizadas vão precisar de apenas 700 litros de etanol produzidos para gerar um CBio”, relata em estimativa dada em maio.

Atualmente, das 13 certificações em fase de consulta pública, três precisam de menos que 700 litros para a emissão de um CBio. Por sua vez, o maior valor até o momento são os 1.288,66 litros de etanol hidratado necessários para a Usina Iracema produzir um único crédito.

renovabio pioneiras litros cbio 260719

A princípio, as usinas com melhor desempenho são aquelas que obtiveram uma nota melhor em sua fase agrícola, além de uma participação superior de matéria-prima elegível para o programa. Ainda assim, Junqueira aponta que ainda não foi determinado como o aumento de receita das usinas, trazido pela comercialização de CBios, vai ser repassado para os produtores e fornecedores de cana.

“Eu imagino que esse é um assunto que vai ser discutido com muita intensidade nos próximos meses entre os representantes dos fornecedores de cana e os produtores”, comenta.

Oferta de cana é o principal desafio

Além disso, para o etanol de cana-de-açúcar, Junqueira já percebe uma dificuldade no horizonte: a disponibilidade de matéria-prima. “A oferta de cana no Brasil tem mostrado sinais de crescimento anêmico e, em alguns anos, houve decréscimo. No geral, há uma grande estabilidade”, aponta.

De acordo com o executivo, diversos fatores internos e externos geraram essa situação que, agora, depende da aplicação de recursos para ser solucionada. “O RenovaBio pode trazer um alento; ele pode trazer uma perspectiva de demanda firme e consistente para o etanol, que justifique o retorno dos investimentos”, afirma.

Isso acontece, conforme Junqueira, porque as metas já foram definidas para um horizonte de 10 anos, trazendo previsibilidade para o mercado. Assim, a partir da expectativa de crescimento da demanda, as usinas podem planejar seus investimentos.

“Mas eu preciso deixar claro aqui que, para que isso aconteça de fato, só o RenovaBio são é suficiente”, alerta o diretor, que explica: “Nós precisamos de uma economia saudável e, também, que os preços da gasolina continuem seguindo a paridade internacional para que os produtores continuem tendo confiança de que os mercados não vão ter interferência governamental na formação de preços”.

No caso da Alta Mogiana, Junqueira explica que a usina já realizou um investimento para aumentar a capacidade de fermentação das domas. De acordo com ele, essa é uma medida que traz um aumento na produção de etanol – nesta safra, a empresa vem registrando um aumento de 20% da produção diária de etanol, indo de 1,2 milhões para 1,4 milhões de litros de etanol por dia.

“Isso mostra como a produção de etanol brasileira pode ser incrementada com baixos níveis de investimento”, garante e completa: “Mas isso não vai ser suficiente. É necessário que a oferta de cana também aumente. Nesse aspecto, nós estamos aumentando a renovação do canavial para que, nos anos seguintes, a gente possa contribuir com o aumento da oferta de cana”.

O executivo ainda relata que, nesta safra e na anterior, a produção de etanol está aquecida por conta dos baixos preços do açúcar no mercado internacional. Isso faz com que o biocombustível seja um produto mais atrativo economicamente para as usinas – um fator que é ajudado pelo atual patamar dos preços do petróleo.

“Até pouco tempo atrás, o Brasil convivia com preços de gasolina controlados pelo governo. Há menos de dois anos, nós finalmente começamos a ter os preços de derivados de petróleo no Brasil efetivamente refletindo os preços internacionais”, lembra o executivo, que afirma: “Essa é uma condição essencial para que nós tenhamos a tranquilidade, o conforto e a previsibilidade de investirmos no aumento da oferta dos nossos produtos”.

Etanol de milho

Outra questão levantada por Junqueira é o aumento da produção de etanol de milho no Brasil e a concorrência com o produto importado dos Estados Unidos. Pelas regras do RenovaBio, as usinas de fora do país que importam para o Brasil também podem passar pela certificação.

“Não podemos esquecer também do mercado de milho, afinal de contas, eles têm uma produção de etanol relevante nos Estados Unidos e esse etanol é regularmente importado para a região Norte e Nordeste brasileira”, afirma e completa: “Já a produção de etanol de milho no Brasil, que era irrisória até poucos anos atrás, deve atingir mais de um milhão de litros esse ano – e com tendências claras de expansão”.

Ele, entretanto, acredita que as unidades brasileiras terão dificuldades em participar do RenovaBio, a exemplo do que já acontece com o biodiesel de soja. “No caso de uma usina de cana, nós sabemos quem são os nossos fornecedores de matéria-prima, nossos parceiros agrícolas. Mas as unidades que têm que adquirir milho no mercado vão ter mais dificuldade de rastrear [a origem do milho]”, justifica.

Até o momento, nenhuma unidade de etanol de milho entrou em consulta pública, seja ela flex (também com processamento de cana) ou full (totalmente dedicada ao grão).

Indefinições no mercado de CBios

O diretor da Alta Mogiana também comenta o fato de que o mercado de CBios ainda não está totalmente regulamentado. Inclusive, foi apenas na última sexta-feira (9), que a ANP recebeu autorização – por meio de um decreto presidencial – para contratar um fornecedor que irá elaborar e gerir um sistema informatizado para o registro e o controle das operações de venda de biocombustíveis que possam servir de lastro aos CBios.

“A questão dos contratos dos CBios é algo que me preocupa. Nós ainda não temos, pela B3, um modelo de contrato”, revela. De acordo com Junqueira, um dos principais motivos dessa demora seria a indefinição em relação a como os créditos serão categorizados no mercado financeiro – valores imobiliários, títulos financeiros ou commodities.

Com isso, o modelo de comercialização também não está certo. Entre as possibilidades levantadas pelo diretor estão a realização de leilões periódicos e a criação de um mercado futuro de CBios, permitindo que os produtores façam hedge dos títulos, a exemplo do que já acontece no mercado de açúcar.

Além disso, Junqueira afirma que ainda não está claro quem poderá comprar CBios. Por mais que representantes do Ministério de Minas e Energia (MME) já tenham declarado que o mercado será amplo e aberto para uma variedade de investidores, a carência de uma regulação própria ainda mantém espaço para incertezas.

“É uma definição importante. Eu parto do princípio de que, quanto maior o número de agentes e atores em qualquer mercado mais positivo e mais transparente é este mercado”, afirma Junqueira, que pondera: “Por outro lado, a gente também não pode se esquecer de que pode haver alguma distorção de preços se algum comprador resolver adquirir uma quantidade grande de CBios e, assim, gerar uma escassez de mercado momentânea”.

O lado das distribuidoras

Luiz Gustavo Junqueira também explica uma das principais regras do programa em relação às distribuidoras: elas não precisam cumprir a totalidade das metas todos os anos. “[A distribuidora] vai poder atingir 85% dessa meta – desde que, no ano seguinte, ela atinja 115% da meta”, afirma e completa: “Isso dá certo conforto para compradores e vendedores, para poderem fazer alguma adequação de curto prazo entre um ano e outro”.

Outro “conforto” citado por ele é a possibilidade de as metas serem alteradas pelo governo brasileiro. Essa alternativa, contudo, está vinculada ao que o executivo chama de “casos extremos”. “Evidentemente, não é o nosso desejo. Nós, como produtores, vamos fazer o possível para que as metas sejam atendidas”, garante.

Além disso, ele observa que as empresas que não atingirem os limites estabelecidos para o cumprimento de suas metas individuais – 85% da meta, caso não haja pendências; ou 100% da meta, somada à pendência do ano anterior –, devem receber uma multa que hoje pode chegar a R$ 50 milhões.

“É do meu entendimento que os compradores vão preferir adquirir os CBios em vez de chegar em um caso extremado de ter que pagar uma multa, que eu considero bem elevada”, observa.

Ainda de acordo com Junqueira, a possibilidade de investidores também comprarem os créditos pode gerar momentos de falta de CBio no mercado. “Esse é mais um motivo que o comprador evite deixar a aquisição dos CBios para a última hora. Eu, por exemplo, procuraria comprar com uma certa antecedência para não correr o risco de uma concentração de oferta dos CBios na mão de alguns agentes”.

Estas e outras discussões sobre o RenovaBio, as certificações das usinas e o mercado de CBios acontecerão durante a NovaCana Ethanol Conference 2019. A programação completa do evento está disponível aqui.

novaCana.com