O clima e sua imprevisibilidade podem ser tanto ‘heróis’ quanto ‘vilões’ para os canaviais – as ‘usinas a céu aberto’. Coeficiente de Produtividade Climática é uma inovação tecnológica que permite antecipar estratégias para impedir prejuízos à colheita

novaCana.com 20 ago 2018 - 12:08 - Última atualização em: 21 ago 2018 - 08:08

Na virada de 2017 para 2018, com o setor sucroenergético já se preparando para uma nova safra, as previsões de mercado para a atual temporada de cana-de-açúcar não eram boas, especialmente devido ao baixo preço internacional do açúcar e à menor disponibilidade de matéria-prima.

Conforme os meses foram passando, a falta de chuvas foi surpreendendo os usineiros, permitindo uma moagem acelerada. Ao mesmo tempo, muitos já preveem um prejuízo ainda maior do que o esperado, graças à seca. Mas, o que se pode fazer a respeito? Como lidar com um fator tão imprevisível e fora de controle quanto a chuva, o sol, o frio e o calor?

É impossível controlar o tempo e o clima, mas o usineiro não precisa ficar completamente refém destas variáveis. De acordo com o professor associado do Departamento de Engenharia da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz, da Universidade de São Paulo (Esalq-USP), Fábio Ricardo Marin, as tecnologias voltadas a proporcionar maior controle do agricultor sobre o canavial – a ‘usina a céu aberto’ – seguem evoluindo com o objetivo de evitar perdas e melhorar o resultado final da safra.

Ele se refere ao TempoCampo, um sistema desenvolvido como parte do programa de extensão da universidade e que é coordenado pelo próprio professor Marin. O sistema completo será apresentado com todas as suas possibilidades no novaCana Ethanol Conference 2018. O evento acontece em São Paulo (SP), nos dias 3 e 4 de setembro. As inscrições para o evento se encerraram na última sexta-feira, mas, para dar oportunidade aos interessados, a organização estendeu por mais alguns dias o prazo final. A inscrição pode ser realizada aqui.

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Tecnologia a serviço dos canaviais

Conforme Marin, o TempoCampo se utiliza de indicadores para fazer um monitoramento e elaborar projeções de cenários agrometereológicos úteis para que o produtor se prepare para o plantio e colheita da cana-de-açúcar. O objetivo é proporcionar uma previsão mais confiável e completa do tempo.

“A cana-de-açúcar é uma cultura que permanece no campo por, pelo menos, um ano. O padrão de manejo vem avançando bastante na última década e o clima é o que ficou pra trás – é o único fator de produção ainda não totalmente dominado pelo setor agrícola brasileiro e mundial, no sentido de que o clima acontece e o produtor deixa acontecer”, aponta.

Em outras palavras: você não pode impedir que chova, mas pode consultar a previsão do tempo e levar um casaco e um guarda-chuva ao sair de casa. Por que não aplicar o mesmo raciocínio para a produção da cana-de-açúcar?

“Não há como mudar [o clima], mas é possível quantificar seu efeito e saber como os fatores climáticos vão afetar a produtividade”, Fábio Ricardo Marin (Esalq-USP)

A grande diferença é que o TempoCampo é muito mais sofisticado e avançado do que simplesmente abrir um guarda-chuva. O sistema envolve o acompanhamento e a elaboração de previsões envolvendo cinco fatores: biometria digital, cenários futuros, tabela de projeção, eficiência de maturadores e Coeficiente de Produtividade Climática (CPC).

A partir de dados meteorológicos obtidos em estações de previsão – as quais, muitas vezes, as próprias usinas já possuem instaladas em sua estrutura – o sistema TempoCampo elabora estimativas e faz uma análise da usina e de sua safra futura.

Na prática, isso significa extrair os dados e entender de que maneira eles vão impactar a produtividade de cada usina. “Tendo dados meteorológicos, o sistema quantifica o que isso representa”, afirma o professor, que exemplifica: “Se você sabe que, em determinado período, você terá uma temperatura de 30 graus e 20 mm de chuva, o TempoCampo consegue dizer o que isso significa em toneladas a mais ou a menos de cana-de-açúcar, tendo em vista também outras variáveis. Gera-se uma série de indicadores que, juntos, permitem chegar nos números finais da safra”.

“Se você sabe que, em determinado período, terá uma temperatura de 30 graus e 20 mm de chuva, o TempoCampo consegue dizer o que isso significa em toneladas a mais ou a menos de cana-de-açúcar, tendo em vista também outras variáveis”, Fábio Ricardo Marin (Esalq-USP)

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Clima é a maior variável para o produtor

Esses dados podem representar uma ajuda e tanto para os produtores, tendo em vista que, de acordo com uma pesquisa conduzida pela Pecege, 43% da variabilidade da eficiência de produção da cana vêm de fatores climáticos, como a radiação solar, a deficiência hídrica, a temperatura e a precipitação. Apenas 15% são resultado do tipo de solo e outros 42% derivam do manejo, o que inclui questões econômicas, fatores bióticos e a manipulação da usina.

De acordo com Haroldo Torres, economista e gestor de projetos do Pecege e um dos responsáveis pela pesquisa, dado o significativo percentual da atuação climática sobre o processo, é extremamente importante ter em vista esses fatores durante o manejo do canavial.

“Consegue-se aumentar a produtividade em 25% somente olhando para melhores práticas e melhorias da eficiência, uso dos insumos e da estrutura tecnológica”, Haroldo Torres (Pecege)

Além disso, segundo ele, a safra deste ano é um exemplo de como as usinas podem ser prejudicadas caso não estejam preparadas ou não invistam em inovação e bom manejo das plantações. “Neste ano, embora já houvesse uma quebra [de safra] prevista, ela quase dobrou por conta do clima, já que temos uma porcentagem tão grande de influência. Com uma boa gestão da usina, é possível reduzir em parte a dependência destes fatores”, explica.

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Tendo em mãos mais informações sobre o cenário climático e as demais previsões que envolvem o plantio e a colheita da cana de açúcar, o agricultor pode pensar em alternativas.

“O desempenho e a produtividade da cana de açúcar são resultado da junção de dois fatores: o uso eficiente de insumos e a adoção de uma estrutura tecnológica capaz de aprimorar o gerenciamento do produto", explica Torres.

As fórmulas do processo

Com pesquisas iniciadas em 2011 e em funcionamento desde 2016, o sistema TempoCampo já é utilizado com sucesso por 16 usinas de cana de açúcar e é aplicável também no cultivo de milho e soja. Esse serviço de extensão universitária tem como foco o aconselhamento para empresas agrícolas, com atuação operacional que atende demandas dos produtores de maneira profissional. Nas palavras de Fábio Marin, “não se trata de fazer pesquisa pela pesquisa, mas de fornecer recomendação para que o tomador de decisão da usina consiga trabalhar”.

Ele explica, ainda, que o foco do trabalho do sistema TempoCampo não está na medição das variedades meteorológicas, mas na interpretação. “Nós utilizamos os dados climáticos das usinas com estações meteorológicas para estimar a safra diretamente, com até 13 meses de antecipação. Os números são atualizados mês a mês e semana a semana via relatório, conforme as mudanças nas previsões climáticas”.

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Ele conta que, toda quinta-feira, o sistema emite um novo boletim com os dados da previsão atualizados, que mostram se o que foi previsto meses antes está se confirmando e como isso vai mudar os próximos.

“Passamos meses de seca e, em agosto, choveu. Será que essa chuva é suficiente para recuperar um pouco da queda que a estiagem vai provocar? Só é possível saber tendo as outras variáveis em conta”, Fábio Ricardo Marin (Esalq-USP)

Olhando para a frente, com a tabela de dados e os cenários futuros, o usineiro consegue se antecipar em termos de comercialização. Passa a ser possível saber quando vender, quanto esperar, quanto estocar, entre outros comportamentos.

“Com um sistema de previsões, o financeiro trabalha com números de menor incerteza. Pela nossa experiência, sabemos que a conversa se torna mais estreita entre o setor agrícola e o comercial”, sugere o especialista.

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Além disso, a equipe que acompanha a produtividade da usina também pode repensar decisões: “[O produtor pode] analisar as tecnologias que usou e ver se estão resultando em incremento de produção, avaliar o que está vindo do clima e o que está vindo do manejo do campo”.

Os detalhes e benefícios do sistema TempoCampo serão apresentados em menos de duas semanas, na conferência do novaCana em São Paulo. A programação completa do evento está disponível aqui e o cadastro para participar do evento pode ser feito aqui.

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