O alto endividamento das usinas sucroenergéticas é uma realidade e tem consequências. Apenas em 2019, três grupos – que somam 20 unidades – entraram na justiça com pedidos de recuperação judicial

novaCana.com 21 ago 2019 - 09:33

O panorama de dificuldades financeiras não é uma novidade para o setor de açúcar e etanol. De acordo com um levantamento da RPA Consultoria, ainda na safra 2019/20, dez grupos podem se juntar à Santa Terezinha, Usina Itajobi Açúcar e Álcool e Atvos, antiga Odebrecht Agroindustrial, e entrar na justiça com uma proteção contra os credores.

Conforme números da RPA apresentados em abril – ou seja, que ainda não consideravam os pedidos mais recentes –, das 444 usinas brasileiras, 79 estavam em recuperação judicial e 27 estavam falidas.

Segundo o diretor técnico da União da Indústria de Cana-de-Açúcar (Unica), Antonio de Padua Rodrigues, a situação atual de endividamento das usinas é o resultado de uma soma de fatores. Um dos principais seria a política de congelamento de preços da gasolina, praticada de 2008 a 2014. Durante estes anos, o preço do etanol hidratado ficou quase sem alterações nas bombas, mas o setor teve aumentos nos custos de produção.

O período ainda envolveu um ciclo de grandes investimentos que não geraram o retorno esperado. Os juros elevados ampliaram o endividamento de muitos grupos, que acabaram perdendo eficiência e competitividade em um cenário no qual os preços do açúcar e do etanol estavam próximos aos custos de produção.

Dado este quadro, as sucroenergéticas viram a necessidade de reestruturar suas dívidas e diversos grupos precisaram entrar judicialmente com pedidos de recuperação. Para isso, as companhias contataram profissionais como o sócio fundador da EXM Partners, Angelo Guerra Netto, que, desde 2006, assessora empresas em processos de recuperação judicial.

Ao longo da carreira, Guerra Netto participou de mais de 60 projetos de reestruturação, incluindo a Infinity Bioenergy, a Companhia Brasileira de Açúcar e Álcool (CBAA) e a Energética Santa Helena. Ele também já prestou consultoria para sucroenergéticas como Adecoagro, São Martinho, Santa Elisa, Vale do Rosário, MB e Moema.

Na NovaCana Ethanol Conference 2019, que acontece em São Paulo nos dias 16 e 17 de setembro, Guerra Netto estará presente como moderador do painel Recuperação Judicial: Caminhos e Saídas. Para discutir o assunto, já estão confirmadas as presenças do diretor associado da Fitch Ratings, Cláudio Miori, e do sócio da Thomaz Bastos, Waisberg, Kurzweil Advogados, Gilberto Gornati.

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Usinas da Infinity Bio-Energy estão sem destino certo

Falido desde 2017 – após oito anos em recuperação judicial –, o grupo Infinity Bio-Energy controlava quatro usinas: duas em Minas Gerais e duas no Espírito Santo. Até o momento, entretanto, as unidades ainda não encontraram compradores, uma situação que se torna mais difícil à medida em que os ativos se deterioram.

Em julho do ano passado, um grupo de três empresas – Datagro Financial, Agriplanning Consultoria e S4A Avaliações Patrimoniais – realizou uma visita aos ativos da massa falida da Infinity Bio-Energy.

O que foi constatado pelas equipes foi um alto grau de deterioração das unidades, dada a gradativa parada até a suspensão de suas manutenções industriais. A unidade Cridasa, em Pedro Canário (ES), teve todos os equipamentos removidos, restando apenas as obras civis; já a unidade Disa, em Conceição da Barra (ES), teve os equipamentos extraviados.

Apenas as unidades Central Energética do Vale do Paraíso (Cepar), em São Sebastião do Paraíso (MG), e Alcana, em Nanuque (MG), mantiveram algum estado de preservação, mesmo com peças e equipamentos faltando. Conforme documento de novembro de 2018, somando as duas usinas, o valor de avaliação foi de R$ 94,6 milhões. Já os equipamentos, edificações e benfeitorias da usina e imóveis (terrenos) foram avaliados em R$ 31,91 milhões. As terras e os veículos valem R$ 18,80 milhões.

Com base nisso, a equipe que verificou os ativos recomendou a comercialização das unidades Alcana e Cepar como empreendimentos industriais, e os equipamentos segmentados da Disa. Além disso, foram postos em leilão lotes pertencentes à Cridasa. Entretanto, nenhum lote foi vendido.

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Por sua vez, a Cepar ficou em leilão até 14 de agosto. A princípio, o lance inicial era de R$ 30,1 milhões, conforme avaliação realizada pela Datagro. Porém, como a unidade não foi arrematada, foi oferecido um desconto de 30% – com isso, o valor passou a ser R$ 21,7 milhões. Ainda assim, não houveram interessados.

Segundo o leiloeiro Renato Schlobach Moyses, do Canal Judicial, empresa responsável pelo leilão, há a possibilidade de a unidade receber descontos ainda maiores. “A gente pode fazer um segundo leilão com um valor mais reduzido”, afirmou em entrevista concedida ao novaCana em julho, antes mesmo do encerramento do leilão.

Assim, Moyses acreditava que a expectativa de venda da Cepar não é muito alta. “Nós vamos avaliar o que o mercado fala, se aparecerem interessados, o que eles questionam, se acham caro ou barato, qual a problemática que vai surgir. A partir daí, faremos um ajuste de estratégia de venda”, explicou.

A Cepar supostamente tem capacidade de moer 700 mil toneladas de cana-de-açúcar por safra. Entretanto, o laudo feito pela Datagro demonstrou que a maior moagem registrada foi em 2009/10, com 553,72 mil toneladas. A produção de etanol hidratado estimada é de 56 milhões de litros por temporada, com capacidade diária de 400 mil litros. A usina não produz anidro e nem açúcar.

Em reportagem publicada pelo Valor Econômico logo após a justiça ter decretado a falência da Infinity Bio-Energy, o juiz Marcelo Barbosa Sacramone, da 2ª Vara de Falências e Recuperações Judiciais do Tribunal de Justiça de São Paulo, explicava que as quatro unidades do grupo já deveriam ter sido vendidas.

A empresa, entretanto, não havia feito os procedimentos necessários para as negociações. Naquele momento, a expectativa era que, com a falência, a venda fosse facilitada.

Conforme o plano de recuperação que não foi respeitado, a primeira usina a ser alienada seria a Disa, em Conceição da Barra (ES). O valor da venda seria utilizado para pagar cerca de R$ 30 milhões aos credores trabalhistas, seguidos das demais. Na sequência, os recursos levantados com leilões seriam destinados aos credores extraconcursais e concursais.

Porém, de acordo com o Valor, a Infinity Bio-Energy perdeu o prazo limite para a formação de uma unidade produtiva isolada (UPI) para os ativos da Disa. A usina, inclusive, estaria parada desde meados da safra 2015/16.

Além disso, conforme o plano, a Infinity manteria a usina Cepar e os canaviais da Cridasa, de modo a permanecem em atividade econômica. Contudo, Cepar, Cridasa e Alcana não operam desde a safra 2013/14.

Em 23 de julho de 2018 – após a sentença de falência ter sido contestada –, uma decisão judicial reforçava que “a sentença de falência subsiste com todos os seus regulares efeitos”. Dessa forma, a análise de possíveis pendências passava a ser responsabilidade da administradora judicial da massa falida – a consultoria Deloitte –, que também deveria “praticar os atos necessários à arrecadação e alienação dos ativos”.

Entretanto, nenhuma unidade foi colocada em leilão em um primeiro momento e nenhum acordo de venda foi anunciado. Procurada pela reportagem na ocasião, a Deloitte afirmou que não comentaria sobre a possibilidade de venda das usinas “por se tratar de um caso isolado de uma empresa”.


Estas e outras discussões sobre reestruturação de dívidas, recuperação judicial e avaliação e venda de ativos acontecerão durante a NovaCana Ethanol Conference 2019. A programação completa do evento está disponível aqui.

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