Política

Querem “melar” acordos que o Brasil tem feito, critica Ometto, da Cosan

Empresário diz que agricultores estrangeiros fazem campanha para tirar mercado dos brasileiros


Folha de S. Paulo - 13 jul 2020 - 07:34

Um grupo de 38 empresas de grande porte e de diferentes setores se articulou para manifestar sua preocupação com a deterioração da imagem do Brasil no exterior em relação à questão ambiental, em uma ação de concertação rara do setor privado.

De acordo com eles, há relatos de queda nos investimentos recebidos neste ano e vários casos questionamentos em relação à postura ambiental do país. Estas informações foram levadas por empresários ao vice-presidente Hamilton Mourão em uma reunião nesta sexta (10).

O empresário Rubens Ometto, acionista da Cosan e da Rumo, afirma que os ataques à imagem do Brasil visam atrapalhar os acordos que o país tem feito para taxar produtos brasileiros.

Por que aumentou a pressão ambiental sobre o Brasil? 
O Brasil não pode cair em provocações deliberadas contra nós, atacando a Amazônia. Vejo isso com o objetivo de diminuir a competitividade brasileira sobretudo no agronegócio e na parte de mineração. Com a eficiência e os investimentos que têm sido feitos, não tenho dúvidas de que vamos dominar o mundo. Querem arrumar uma maneira de melar os acordos que o Brasil está fazendo, como o Mercosul-União Europeia. Precisam arrumar uma maneira de taxar nosso produto. Claro que a Amazônia tem que ser bem tratada. Precisa impedir queimadas ilegais, organizar a mineração. Mas temos que mudar o enfoque disso. Não cair em armadilha.

Que armadilha? 
No fundo caímos em uma provocação. Temos que montar uma campanha institucional mostrando para o mundo tudo de bom que temos e o que podemos fazer, no aspecto da cultura, da sustentabilidade. Tem o saneamento básico, por exemplo, mas não pode ter um discurso falando nisso e ir abandonando a Amazônia. É isso que eles querem. Eles precisam se pegar em alguma coisa para nos penalizar, para diminuir a nossa competitividade.

Quem são eles? 
Agricultores do mundo inteiro, países que protegem seus fazendeiros. Tem que montar uma campanha para mudar a imagem que pintam do Brasil hoje.

O senhor falou com o presidente sobre essa campanha? 
Falo sempre, e eles vão chegar lá. Temos uma lei florestal muito bem feita. O Brasil é um dos únicos países que têm mata ciliar protegida. Com pequenos ajustes e determinação, vamos nos tornar os queridinhos no mundo. Tem que acabar com queimada ilegal na Amazônia. Precisa arrumar emprego, ocupação e fonte de renda para quem mora lá. Tem terra suficiente para abastecer o mundo sem tirar uma planta da Amazônia.

O presidente está preocupado com essa questão? 
Claro.

Qual a sua opinião sobre as políticas públicas ambientais do governo? 
Cometeram erros, principalmente por essas armadilhas plantadas, artigos da imprensa e de ONGs. Tudo isso vai criando uma imagem de complô contra, e provoca reação. Não tem que contra-atacar. Tem que mostrar o que fazemos de bom e nos comprometer com o mundo de que vamos melhorar o que está sendo feito de ruim.

O senhor enxerga mudança por parte do governo? 
Percebo uma preocupação de melhorar a imagem e fazer as coisas bem racionais com os ministros com quem converso. Não vou nominá-los para evitar fofoca. Mas percebo do próprio presidente uma preocupação de mudar isso. Não estamos mudando porque estamos fracos. Temos que mudar porque estamos vendo o que temos que fazer.

O MPF pediu o afastamento do ministro Salles. O senhor concorda? 
Não analisei o pedido. Conheço o Ricardo Salles, é correto e bem intencionado. Começou com um discurso motivado e caindo na provocação. Tem que mudar isso.

Já sentiu algum tipo de represália por ser uma empresa brasileira? 
Diretamente não, mas sinto indiretamente, quando fundos de investimento não querem aplicar em países que não têm uma política ambiental saudável. A Amazônia é o grande alvo deles. Os estrangeiros misturam boa intenção com o objetivo de denegrir nossos produtos.

É uma falha de comunicação, então? 
É isso. Temos que ter um trabalho interno bem organizado. É discurso e trabalho racional, cuidando bem dos índios e das reservas. Arrumando emprego e ocupação. Não é difícil fazer isso. Não tenho ambição política, mas, se eu fosse ministro, saberia o que fazer. O Brasil precisa divulgar as coisas fantásticas que faz. Como as energias limpas eólica, solar e etanol. Temos o etanol de segunda geração, feito com bagaço, termelétrica do bagaço e gás da vinhaça [resíduo do caldo de cana-de-açúcar].

Bruna Narcizo
Com reportagem adicional de Fernanda Perrin

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