Política

Parlamentar confirma que Chapman fez lobby por livre comércio de etanol para ajudar Trump

Embaixador no Brasil teria usado mesmo discurso para convencer membros do governo brasileiro; deputados dos EUA pedem explicações a diplomata


O Globo - 03 ago 2020 - 08:03

O presidente da Frente Parlamentar da Agropecuária, deputado federal Alceu Moreira (MDB-RS), confirmou que o embaixador americano no Brasil, Todd Chapman, está trabalhando pelo livre comércio na importação do etanol de milho americano com o argumento de que essa medida é “muito importante” eleitoralmente para o presidente Donald Trump.

Inclusive, o diplomata teria usado o mesmo discurso para convencer membros do governo brasileiro a aceitar o etanol americano.

A informação de que Chapman está fazendo lobby pela importação do produto para beneficiar Trump foi antecipada pelo colunista do jornal O Globo, Lauro Jardim, e levou dois deputados do Partido Democrata, que lideram comissões da Câmara dos EUA, a pedirem explicações ao embaixador americano no Brasil.

Por meio de carta, os deputados Eliot Engel, presidente da Comissão de Relações Exteriores da Câmara dos EUA, e Albio Sires, presidente da Subcomissão para o Hemisfério Ocidental, Segurança Civil e Comércio, consideram que as declarações violam a Lei Hatch de 1939, que veda a participação de funcionários do Poder Executivo em certos tipos de atividade política.

Segundo Alceu Moreira, em reunião, o diplomata repetiu várias vezes a proximidade com o calendário eleitoral americano e frisa a importância de o Brasil ser parceiro comercial dos Estados Unidos.

“Ele (Chapman) diz que eles têm um processo eleitoral. Ele não fala direto porque nós temos dito para ele o seguinte: ‘Assim como nós não temos ingerência em políticas americanas, vocês não têm o direito de fazer isso no Brasil’”, disse Moreiro ao Globo. “Mas ele deixa claro que o produtor de etanol americano foi induzido no governo Trump a vender etanol e agora não tem para quem vender e isso prejudica eleitoralmente o Trump. Então, ele sempre faz alusão que se nós não concordamos com a liberação do comércio de etanol, nós vamos ter uma série de consequências em relação a outros temas que o Brasil tem parceria com os Estados Unidos”.

Chapman tem usado o mesmo discurso para convencer integrantes do governo do presidente Jair Bolsonaro a ceder à importação de etanol de milho americano, segundo fontes ouvidas pelo Globo. Nas conversas com membros do governo, o embaixador também diz que esse processo é importante eleitoralmente para o presidente Trump.

Em conversas reservadas, os ministros da Economia, Paulo Guedes; da Agricultura, Tereza Cristina, e de Minas e Energia, Bento Albuquerque, têm demonstrado preocupação com as pressões pela liberação do etanol americano. Eles devem se reunir em breve com o ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, para tratar do assunto.

Preocupação com o Nordeste

Há uma preocupação com o aumento do desemprego no Brasil em meio à pandemia do novo coronavírus, principalmente no Nordeste, caso o governo brasileiro decida absorver o etanol americano. A liberação do comércio de etanol americano é considerada prejudicial para o Nordeste, que produz muito etanol de cana de açúcar.

“A economia no Brasil não tem como absorver isso. Nós estamos numa pandemia, com consumo de combustível reduzido, gastando menos que antes. Fazer isso significa quebrar uma cadeira produtiva importantíssima para o Nordeste”, frisou Alceu Moreira. “Se liberar, será a mesma coisa que dizer que nós gostamos mais do povo americano do que do nosso. A gente gosta dos americanos, mas muito mais do nosso povo. Não vamos desproteger os nossos irmãos do Nordeste só para ajudar os americanos”.

Na conversa com o presidente da Frente Parlamentar da Agropecuária, Chapman também falou do interesse dos Estados Unidos na rede 5G, cujo leilão está previsto para 2021, e disse que pode haver consequências para o Brasil caso o país permita que a gigante chinesa de tecnologia Huawei forneça equipamentos para a rede 5G.

“Ele (embaixador) diz que se nós permitirmos que a China ganhe o direito de 5G aqui no Brasil, nós acabaremos passando para China todas as informações estratégicas do Brasil e que isso seria um desastre”, afirmou Alceu Moreira. “Esse discurso é muito usado na linguagem diplomática. Trabalha-se muito a margem do risco para dizer que nós, para não corrermos o risco, deveríamos fazer o que querem. Mas não faremos. Vamos correr o risco de sofrer as sanções, mas não faremos”.

Moreira completa: “Na minha opinião, nós não compramos o etanol e não vamos sofrer retaliações porque eles não vão querer dar o Brasil de presente para a China. Isso estrategicamente seria um horror. Eles estão usando esse argumento para nos constranger e fazer com que nós suportemos um volume de etanol muito maior do que poderíamos, inclusive com prejuízos brasileiros, mas, se não fizermos e não devemos fazer, não vai haver retaliação”, frisou o parlamentar.

O embaixador americano também almoçou com o presidente da União da Indústria de Cana de Açúcar (Unica), o ex-deputado federal Evandro Gussi (PV-SP), para pedir pela abertura do livre comércio do derivado de milho. Gussi avalia que as conversas foram intensificadas porque vence em 31 de agosto o acordo firmado no ano passado, o qual permitiu que o Brasil importe 750 milhões de litros de etanol com isenção de tarifa. A cota anterior era de 600 milhões de litros.

Procurada, a embaixada dos EUA não se manifestou.

A Comissão de Relações Exteriores da Câmara dos EUA vai abrir uma investigação sobre o caso, de acordo com o New York Times. Segundo o jornal, em uma declaração enviada por e-mail, o Departamento de Estado, equivalente ao Ministério das Relações Exteriores, negou que o embaixador Chapman esteja fazendo campanha por Trump.

“Alegações de que o embaixador Chapman pediu aos brasileiros para apoiar um candidato americano específico são falsas”, diz a declaração. “Os Estados Unidos há muito tempo têm como foco a redução de barreiras tarifárias e vão continuar a fazê-lo”.

Naira Trindade


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