Política

Índia pede que Brasil deixe de questionar subsídio para açúcar na OMC

Pequenos produtores indianos afirmam que investigação ameaça seu sustento


Folha de S. Paulo - 27 jan 2020 - 07:12
Jair Bolsonaro disse que vai estudar com Ernesto Araújo a revisão do questionamento sobre o subsídio do açúcar indiano

O presidente Jair Bolsonaro afirmou neste sábado (25) que o primeiro-ministro da Índia, Narendra Modi, pediu que o Brasil reveja o contencioso da Organização Mundial de Comércio (OMC) questionando os subsídios indianos ao açúcar.

De acordo com o presidente, o pedido foi feito em reunião bilateral com o indiano, e Bolsonaro afirmou que iria pedir ao chanceler Ernesto Araújo que estude a possibilidade de retirar o questionamento na OMC.

“Ele [Modi] me disse que o açúcar comerciado para fora é só 2% do total, isso é pequeno. Então, pedi para o Ernesto analisar a possibilidade de revermos a posição do Brasil”.

O Brasil, ao lado da Austrália e da Guatemala, pediu à OMC a abertura de um painel (investigação) sobre os subsídios concedidos pelo governo indiano aos produtores de açúcar. O argumento é que os subsídios estão levando a uma superprodução de açúcar, que deprime o preço mundial da commodity.

Para a Índia, o assunto é muito sensível, porque atinge os pequenos agricultores do país, que são grande parcela da população e enfrentam situação econômica difícil.

Produtores de açúcar, inclusive, criticaram a escolha do presidente Bolsonaro para ser convidado de honra do Dia da República da Índia, pois o Brasil estaria “ameaçando o sustento” dos agricultores ao questionar na OMC o apoio governamental.

No entanto, a Folha apurou que dificilmente o Brasil irá rever esse posicionamento na OMC.

Modi também discutiu durante a reunião com Bolsonaro a produção de carros flex na Índia. O Brasil assinou um acordo de cooperação com a Índia em produção de etanol. O objetivo é que mais países passem a produzir etanol, para que o produto se torne uma commodity, ampliando o mercado.

Além disso, produzir etanol seria uma maneira de reduzir a grande produção de açúcar na Índia. Para a Índia, que importa 84% do petróleo que consome e comprava muito do Irã e da Venezuela, atualmente sob sanções, seria uma forma de reduzir dependência de combustíveis fósseis.

“O momento é perfeito para voltarmos a promover a globalização do etanol, principalmente na Ásia, onde países como a Índia enfrentam enormes níveis de poluição”, diz Eduardo Leão de Sousa, diretor-executivo da Unica (associação da indústria canavieira). O governo indiano passará a exigir uma mistura de 10% de etanol nos combustíveis a partir de 2022 e 20% a partir de 2030.

Bolsonaro está em visita oficial de três duas à Índia. Neste sábado (25), reuniu-se com Modi e assinou 15 acordos com a Índia. No domingo, será convidado de honra do desfile do Dia da República da Índia.

Patrícia Campos Mello