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Política

Etanol precisa reconquistar espaço perdido - Editorial O Globo


O Globo - 10 fev 2013 - 12:53

Após três anos seguidos de maus resultados, a safra de cana-de-açúcar a ser colhida este ano deverá apresentar um crescimento razoável, superior a 3% na região Centro-Sul, que responde pela maior parte da produção. É um crescimento ainda insuficiente para atender à demanda pelos derivados da cana, especialmente o etanol, mas talvez seja um primeiro sinal de recuperação do setor. A cana tem uma característica peculiar que não permite que se calcule com alguma antecedência, de maneira precisa, a produtividade da safra. Somente no período mais próximo ao corte é possível estimar os teores de açúcar nela contidos. É claro que são feitas estimativas como base na área plantada, nas condições meteorológicas nas épocas de plantio de novas mudas e no crescimento das já existentes.

O otimismo moderado em relação à possibilidade concreta de recuperação é que este ano já se consegue obter bons resultados da renovação de antigos canaviais, do uso de variedades mais produtivas, do aperfeiçoamento de técnicas de mecanização e da entrada em funcionamento de usinas modernas.

O setor sucroalcooleiro foi apanhado no contrapé ao meio de um processo de transformação. A crise de 2008/2009 foi dura com os grupos que se endividaram na tentativa de assegurar ganhos de escala. Se antes empresas com capacidade de moer três milhões de toneladas anuais de cana eram vistas como grandes, em determinado momento cifras inferiores a dez milhões de toneladas deixaram de ser reconhecidas como economicamente viáveis. O setor entrou, então, em uma fase de fusões e incorporações atrelado a endividamento audacioso. Em consequência da situação financeira desfavorável, investimentos não foram feitos adequadamente, e a queda da produtividade agravou esse quadro de descapitalização.

O golpe de morte foi dado pela política bisonha do governo em relação aos preços de alguns combustíveis. Ao segurar artificialmente a gasolina por várias safras consecutivas, o etanol perdeu competitividade. Além disso, o álcool não angariou a merecida desoneração tributária, enquanto a gasolina era favorecida.

O resultado é este desequilíbrio difícil de ser neutralizado no mercado de combustíveis para veículos leves. Com o recente aumento da gasolina, as autoridades esperam dar fôlego também aos produtores de etanol, e já acenam com o aumento de percentual de mistura, de 20% para 25% de álcool anidro, o que pode proporcionar, a partir de abril, uma pequena redução de preços pagos pelo consumidor na bomba. O álcool hidratado, que concorre diretamente com a gasolina, continuará com a oferta limitada.

O que aconteceu com o etanol merece uma reflexão mais profunda. Em termos de emprego, geração de empregos, recolhimento de impostos, e, principalmente, ganhos ambientais, o etanol tem mais impacto positivo na cadeia produtiva e na economia brasileira que a gasolina.