Política

Conselheiro questiona mudanças na Petrobras em meio a eleições

Nomeação de diretor ligado a Bolsonaro teve três votos contrários e críticas de minoritários


Folha de S. Paulo - 05 out 2022 - 07:55

Primeira mudança na diretoria da Petrobras durante a gestão Caio Paes de Andrade, a nomeação do novo diretor de transformação digital e inovação da companhia, Paulo Palaia, foi rejeitada por três conselheiros independentes da estatal.

O representante dos minoritários Francisco Petros e a representante dos trabalhadores, Rosângela Buzanelli, questionaram a falta de experiência de Palaia para o cargo, que é responsável pela gestão do centro de pesquisa e desenvolvimento tecnológico da estatal, o Cenpes.

Petros questionou ainda a conveniência da mudança em meio ao período eleitoral, já que a governança da companhia pode sofrer “alterações substantivas” dependendo do resultado das urnas. “Em termos de conveniência e oportunidade, não me parece haver justificativa para tal mudança”, afirma.

O conselheiro Marcelo Mesquita, que também representa minoritários, foi o terceiro voto contra a nomeação, mas sua justificativa não foi publicada na ata da reunião, divulgada pela Petrobras nesta segunda-feira, 3. Os outros oito conselheiros, mais alinhados ao governo, votaram a favor.

Palaia é próximo da família Bolsonaro e foi nomeado para substituir Juliano Dantas, funcionário de carreira da estatal que assumiu a diretoria em dezembro, durante a gestão Joaquim Silva e Luna. Ele tem experiência na área de tecnologia da informação e trabalhou nas companhias aéreas Gol e Webjet.

“Apesar da vasta experiência, o profissional não atuou em uma organização com tamanha complexidade e capacidade de desenvolver novas tecnologias como a Petrobras”, afirmou Buzanelli, em seu voto em reunião do conselho do dia 21 de setembro.

Paes de Andrade assumiu a presidência da Petrobras no fim de junho, com a missão de dar “nova dinâmica aos preços dos combustíveis”, segundo o presidente Jair Bolsonaro (PL). Desde então, vem acomodando aliados do governo e do exército em cargos na estatal.

Além de Palaia, nomeou como assessores da presidência o coronel Luiz Otávio Franco Duarte, que atuou sob o comando do general Eduardo Pazuello no Ministério da Saúde, e o militar da reserva Mario Pedroza da Silveira Pinheiro.

As nomeações se seguem a uma grande mudança no conselho de administração da companhia, que passou a ser formado majoritariamente por ocupantes de cargos públicos alinhados ao governo, como o número dois de Ciro Nogueira na Casa Civil, Jônathas Assunção.

Para derrubar resistências a novos indicados, o novo conselho mexeu na estrutura do comitê responsável pela avaliação dos currículos, retirando do grupo representantes dos acionistas minoritários, como Petros, que vinha votando contra o governo.

“Juliano Dantas vem apresentando um excepcional desempenho nesta diretoria, tendo trazido a esta área ares de modernidade e inovação”, afirmou Petros, em seu voto contra Palaia. “Muito provavelmente este profissional irá sair da companhia. Lamento, pela companhia e pela pessoa”.

“Estamos em um período em que pode haver alterações substantivas na governança da companhia, fruto da possibilidade de alteração do controlador em função do período eleitoral. Creio que se trata de fator relevante para alterações desta ordem”, completou.

Buzanelli demonstrou preocupação com a gestão do Cenpes, de onde saíram, por exemplo, tecnologias que levaram a Petrobras à liderança global na exploração e produção de petróleo em águas ultraprofundas.

“É causa de grande preocupação não só a esta conselheira, como a maior parte do corpo técnico da Petrobras, os rumos dados ao Cenpes, em especial à condução dos projetos de pesquisa e desenvolvimento”, afirmou.

Desde a conturbada troca de comando que levou Paes de Andrade ao comando da companhia, representantes dos minoritários acusam a gestão da empresa de enfraquecer a governança e atuar na campanha pela reeleição de Bolsonaro, ao anunciar cortes de preços quase semanalmente.

Em sua primeira aparição em evento público, na semana passada, o presidente da estatal fez um discurso político, elogiando o governo e afirmando que a Petrobras “não quer retrocesso”. “Assim como o Brasil, a Petrobras se reergueu, a Petrobras quer seguir adiante”, afirmou.

Nicola Pamplona


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