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Política

Bolsonaro diz fazer o possível, mas que Petrobras “não é aquilo que eu gostaria”

Presidente tem reforçado críticas à estatal desde a divulgação de aumento de preços


Folha de S. Paulo - 17 mar 2022 - 08:50

O presidente Jair Bolsonaro (PL) voltou a criticar a Petrobras nesta quarta-feira, 16, e disse que a estatal não atua da forma que ele gostaria. “Tenho minhas críticas à Petrobras também. Não é aquilo que eu gostaria, não”, disse o presidente a apoiadores em frente ao Palácio da Alvorada.

“O que eu puder fazer, não mando na Petrobras, não tenho ingerência sobre ela, o que a gente puder fazer, a gente faz”, afirmou. A fala foi divulgada por uma página bolsonarista no YouTube.

A declaração aos apoiadores foi feita após o presidente relacionar o preço do combustível ao trabalho de gestões petistas na companhia. “Combustível está alto no mundo todo. Poderia estar um pouquinho mais barato aqui, mas está no mundo todo essa conta de energia”, afirmou.

Desde o final de semana, o presidente intensificou suas críticas à estatal. Chegou a dizer que ela não tem sensibilidade com a população, após anunciar o aumento no preço dos combustíveis, devido ao conflito na Europa.

Na terça-feira, o presidente disse à TV Ponta Negra, do Rio Grande do Norte, que a Petrobras “não colabora com nada”. “É impagável o preço dos combustíveis no Brasil e lamentavelmente a Petrobras não colabora com nada”, afirmou Bolsonaro.

Um trecho mais longo da entrevista do presidente ao canal do RN foi divulgado nesta quarta-feira, 16. Bolsonaro disse que a Petrobras poderia ser privatizada. “Eu ficaria livre deste problema”, afirmou.

Também repetiu que “existe essa possibilidade” ao ser questionado se o presidente da companhia, o general Luna e Silva, pode ser demitido. “Não quer dizer que vai ser trocado ou não. Só não posso trocar o vice-presidente [Mourão]”, declarou.

O presidente ainda reafirmou a que a empresa virou a “Petrobras futebol clube”, onde “o clubinho lá dentro só pensa neles”.

Bolsonaro queria que a estatal esperasse a votação do projeto no Congresso que zerava o imposto federal sobre o PIS/Cofins do diesel e do gás de cozinha. O texto foi sancionado na noite de sexta-feira.

À TV Ponta Negra, ele declarou ainda que pediu para a companhia atrasar o reajuste dos combustíveis, pois o governo e o Congresso estavam discutindo medidas para cortar o preço final do produto ao consumidor, mas não foi atendido. “Isso não é interferir na Petrobras, a ação governamental. É apenas bom senso. Poderiam esperar”, afirmou Bolsonaro.

“Histeria”

Por sua vez, o vice-presidente, Hamilton Mourão, disse nesta quarta que há “muita histeria” sobre o preço do combustível e que dificilmente o consumidor voltará a pagar menos de R$ 4 por litro da gasolina.

“O preço do combustível, fruto até da transição energética que temos de viver, não vai voltar aos patamares que a gente gostaria. Não vamos mais, na minha visão, pagar R$ 4 por litro da economia”, disse ele à imprensa.

Mourão estimou que o preço deve voltar a cerca de R$ 6. “Há muita histeria. Hoje há uma variação violenta do preço do petróleo, fruto, primeiro, da pandemia, posteriormente deste conflito absurdo da Rússia e da Ucrânia. Óbvio que o mercado começa a se reequilibrar”, declarou ainda o vice-presidente.

Anteriormente, ele e uma série de militares das mais altas patentes se juntaram para conter as articulações políticas pela retirada do general Joaquim Silva e Luna da presidência da Petrobras.

Congresso

Também nesta quarta, o presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), criticou a Petrobras. Ao defender a aprovação de projeto que muda o cálculo do ICMS, o deputado afirmou que o congelamento do imposto estadual “freia um pouco” o aumento de preço de combustíveis.

“Só que nós estamos com o petróleo baixando e o dólar baixo, e a cobrança é: a Petrobras agora vai baixar o combustível? O óleo diesel é mais barato fora do que aqui. Nós vamos ter redução de preço, ou é só como uma invasão, que vai avançando, avançando, e não recua?”, criticou.

Questionado sobre se o presidente da Petrobras, Joaquim Silva e Luna, estava fazendo uma boa gestão, Lira não quis comentar. “Não tenho a visão interna da Petrobras, não tenho o relacionamento interno da Petrobras. A única crítica que eu fiz foi que a Petrobras realmente não precisaria ter dado um aumento do tamanho que deu de uma vez só”, disse.

“O barril sobe, a gente aumenta, o barril baixa, a gente não baixa? É importante que a Petrobras recue o preço e do aumento que deu, porque o dólar está caindo e o barril está caindo”, complementou. “São os dois componentes que fazem a política de preço da Petrobras”.

Segundo ele, o projeto que cria um fundo de compensação e que foi aprovado no Senado “está totalmente fora do radar”. “Não tem essa necessidade ávida. Ele não vai resolver, é uma conta de compensação que pode ser melhor estudada, tem prós e tem contras. Tudo no seu tempo”.

O presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (PSD-MG), lamentou esta última declaração. “Isso quebra expectativa, mas não quebra acordo. Não foi feito acordo de aprovação desse projeto, embora eu o entenda como excelente e que foi aprovado amplamente pelo Senado”.

Expectativa de redução e outras saídas

Na terça-feira, 15, Jair Bolsonaro disse que “com toda a certeza” a Petrobras vai reduzir estes valores, ao cobrar da empresa um ajuste diante da queda da cotação do petróleo nos mercados globais.

Assim como ele, ministros da ala política também avaliam que a companhia deveria rever o reajuste, dado o novo cenário do petróleo no mercado internacional.

Mas discussões no Ministério da Economia e no de Minas e Energia seguem considerando a criação de um fundo de estabilização, cujo projeto de lei tramita no Senado. Se tudo der errado, existe ainda a ideia de se criar um imposto que seja cobrado sempre que houver grande volatilidade no preço do petróleo.

Essa ideia, no entanto, só seria levada adiante com aval do Planalto e após as discussões que ocorrem no Congresso em torno das mudanças tributárias sobre os combustíveis.

Mateus Vargas e Danielle Brant


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