BASF
Política

Blairo Maggi X Usinas: a responsabilidade pela ineficiência do setor sucroenergético

O portal novaCana ouviu os especialistas da FG/A, Job, Agroconsult e Bioagência para comentar as declarações do ministro Blairo Maggi. As opiniões mostram que os problemas vão muito além do que o ministro imaginava


novaCana.com - 06 set 2016 - 10:31 - Última atualização em: 13 set 2016 - 09:25

Com a oficialização do novo Governo Federal, a grande dúvida do setor sucroalcooleiro é se as novas pessoas que comandam o país ajudarão a promover ou inibir a retomada do setor sucroenergético brasileiro. A questão ganha força agora que as declarações públicas evidenciaram que a articulação com Brasília vai ser difícil.

Recentemente, o ministro da Agricultura, Blairo Maggi, gerou grande alvoroço após falar abertamente que os subsídios à cadeia sucroenergética atraíram ineficiência. O ministro chegou a taxar o setor de incompetente. O ministro estava ao lado do presidente Michel Temer.

Para profissionais ligados ao mercado sucroenergético, ficou a impressão de que falta ao ministro conhecimento sobre o setor. Além disso, ao polarizar a discussão, o dirigente perdeu a oportunidade de promover o debate de uma questão que está longe de ser tão redutível: a política de combustíveis do país.  

“No mundo financeiro costumamos dizer que o mercado é soberano e, se não tem preço, não terá produção” – Luis Gustavo Corrêa, FG/A

O sócio-diretor da Job Economia, Julio Borges, pondera que o ministro pode até ter chamado atenção para o que hoje realmente é um desafio de longo prazo. Segundo ele, o setor realmente tem de buscar competitividade em relação a outras matérias-primas agrícolas que produzem etanol e açúcar.

Por outro lado, equilibra Borges, a afirmação genérica de que o setor é ineficiente é um exagero. “A generalização é um pouco grosseira e não está relacionada com a realidade”.

De acordo com o profissional, o rendimento agrícola, desde o início da década passada, realmente não melhorou. “Isso é um problema, sim. Mas há empresas competentes e, que, gradativamente vão absorvendo parcelas maiores do mercado”, considera.

O sócio-fundador da FG/A (novo nome da FG/Agro) , Luis Gustavo Corrêa, segue a mesma linha. Para ele, o fato de o ministro citar o setor como exemplo de incompetência deixa “a impressão de que houve uma generalização que pode ser retificada”.

Corrêa afirma que é possível identificar uma gama de empresas dentro do setor que soube enfrentar dificuldades setoriais, muitas delas causadas pelo próprio governo.

“Nos parece que o ministro não conhece este universo de empresas [competitivas] e, se há uma visão distorcida, fica uma sugestão para que o próprio setor se apresente de forma diferente” – Luis Gustavo Corrêa, FG/A

O diretor da Biogência, Tarcilo Rodrigues, acredita que o governo, por meio da ANP, EPE, MME e Ministério da Fazenda, possui corpo técnico suficiente para entender o funcionamento do setor e da formação de preço. O ministro é que não estaria acostumado a acessar o conhecimento gerado por estas instituições.

Não sabe discutir os problemas

O ministro colocou assuntos importantes na mesa para discussão. Porém, de forma atrapalhada, acabou polarizando o debate e prejudicou o desenvolvimento saudável das discussões.

Ainda assim, dois pontos se destacaram na fala de Blairo Maggi. Um, que existe um problema grave de falta de produtividade nos canaviais, dois, que isto é reflexo dos subsídios e estes deixaram os usineiros ineficientes.

Como o gráfico abaixo evidencia, o ministro acertou um ponto crítico da cana-de-açúcar.

Produtividade cana X outras plantas

Mas quem discutiu o assunto com desenvoltura foi o BNDES, em 2013. O banco conduziu dezenas de entrevistas com especialistas e, depois de revisar a literatura, detalhou este problema que afeta as usinas.

A instituição concluiu que existe um problema estrutural nos canaviais, mas não em função dos subsídios e, sim, pela falta de investimentos em desenvolvimento tecnológico.

Dois fatores principais explicam esse déficit de investimentos: primeiro, que a cana-de-açúcar é complexa, pesada e volumosa quando comparada com as demais culturas. Assim, gasta-se muito mais dinheiro para desenvolver a planta. Segundo, porque existe pouca cana plantada no mundo e isso aumenta o risco de investimentos significativos.

Quem teria a responsabilidade por resolver este problema? Na visão do BNDES, a solução passa pelo setor privado em conjunto com mecanismos públicos. Em outras palavras, o banco de fomento ressaltou a necessidade de uma atuação direcionada do governo federal. Isto se justificaria porque estimular a competitividade das usinas está alinhado com o interesse nacional de garantir o abastecimento energético e ampliar a geração de divisas.

Bateu, levou

Os três especialistas ouvidos pelo novaCana, da FG/A, Bioagência e Job colocaram mais responsabilidade na conta do governo para explicar a falta de produtividade. No passado recente a intervenção nos preços da gasolina se refletiu nas margens do etanol e limitou os investimentos.

O diretor da Bioagência oferece um explicação simples: não sobrou dinheiro para tratos culturais e renovação dos canaviais. “E por que não sobrou dinheiro? Porque o governo, de uma forma irresponsável, segurou o preço da gasolina para controlar a inflação e quem tinha que competir com gasolina não tinha mais margem. A margem era negativa. E quando a margem é negativa você precisa cortar de algum lugar e de onde você vai cortar? É preciso pagar a cana, os funcionários e impostos. Vai reduzir o custo de onde? Dos insumos. E o que acontece? A produtividade cai. É um ciclo”, detalha Rodrigues.

Solo e clima também são essenciais para os canaviais. Neste ponto Corrêa adota um tom didático para explicar um canavial ao ministro: “diferente da soja, a cana é uma cultura cujo plantio ocorre uma vez a cada 5 ou 6 anos e que, portanto, um problema climático em um determinado ano reduz a produtividade em todos os ciclos seguintes de colheita. Esta queda na produtividade pode ser observada mesmo nas empresas com elevada saúde financeira.”

Para a inconveniência do governo, isto prejudica mais o etanol do que o açúcar, pois o mix das usinas segue o dinheiro. “No mundo financeiro costumamos dizer que o mercado é soberano e, se não tem preço, não terá produção”, diz Corrêa.

“No caso do açúcar, a produção é elevada de uma forma drástica e isso tende a encurtar o ciclo de alta do preço do açúcar” – Fabio Meneghin, Agroconsult

A avaliação da FG/A é que  “o etanol não precisa acompanhar este ciclo de alta no preço do açúcar mas, na média dos ciclos de alta e baixa, os preços precisam se equilibrar com o do açúcar ou a produção de etanol irá diminuir.”

O desequilíbrio já vem desde o governo Dilma, quando o preço da gasolina era segurado artificialmente. Continuando a vantagem para o açúcar, o etanol pode virar um subproduto das usinas e, sem estrutura para importar gasolina em larga escala, o Brasil poderá ter problemas de abastecimento.

Aqui o interesse do setor por estímulos para o etanol está alinhado com o do governo, de garantir segurança energética. “O esforço de aumento da oferta para atender a demanda não pode ser etanol ou gasolina, precisará ser de ambos”, alerta Corrêa. O governo, no entanto, segue esperando uma solução sem agir.

O especialista em açúcar e etanol da Agroconsult, Fabio Meneghin, analisa que um desestímulo à produção de etanol pode ser mais problemático para as usinas, pois passa-se a ter um excesso de cana, que é automaticamente direcionada para a produção de açúcar e do etanol anidro. “No caso do açúcar, a produção é elevada de uma forma drástica e isso tende a encurtar o ciclo de alta do preço do açúcar. Você passa a ter consequências mais sérias em relação ao preço e estamos falando em um curto prazo”, explicou durante entrevista ao novaCana.  

PIS/Cofins: “12 centavos por litro parece pouco, mas nós podemos estar falando de uma diferença de 4 a 5 milhões de toneladas de açúcar a mais no ano safra do ano que vem” – Fabio Meneghin, Agroconsult

Subsídios

Sobre os subsídios, a opinião dos profissionais é que os problemas do setor estão longe de ter como causa os subsídios. “Ninguém simplesmente tem uma produtividade baixa porque alguém vai subsidiá-lo. Se você tiver uma produtividade que for abaixo da média do mercado você está fora do jogo”, argumenta Tarcilo Rodrigues.

O diretor da Bioagência vai ainda mais longe. Para ele “as políticas públicas não existem. Até então, governo nunca teve diálogo ou discutiu o problema dos combustíveis no país de uma forma objetiva”.

A FG/A opina que as políticas públicas não estão criando acomodação no setor e cita como exemplo os programas do BNDES. As linhas do banco “estão equiparadas a de outros setores industriais e as empresas que a acessam são as empresas com boa performance”. Ou seja, o banco valoriza as empresas que estão bem, em um claro estímulo à eficiência.

PIS/Cofins

Segundo Meneghin, a diferenciação tributária pode vir de duas formas: com a renovação da isenção do PIS/Cofins ou compensando a diferença elevando a Cide. “Se nenhuma das alternativas se concretizar, podemos ver as margens do setor, hoje em torno de R$ 30/tonelada de cana caindo pela metade”.

“Se o governo decidir não renovar a isenção do PIS/Cofins, para o setor será um sinal importante para o futuro do etanol combustível no Brasil” – Julio Borges, Job Economia

Para a Agroconsult, essa interferência do PIS/Cofins é muito sensível e pode fazer muita diferença na safra global. “12 centavos por litro parece pouco, mas nós podemos estar falando de uma diferença de 4 a 5 milhões de toneladas de açúcar a mais no ano safra do ano que vem”, completa.

Borges acrescenta que, nas três últimas safras, o setor passou por momentos difíceis sob a ótica econômica e financeira pela absoluta falta de receita, consequência dos preços sobre os quais as usinas não tem controle algum. “Agora, os preços estão se recuperando e o setor está voltando a ter condições de fazer um saneamento financeiro importante no negócio”.

A decisão do PIS/Cofins poderá inibir ou beneficiar esse processo de recuperação do setor.

“A viabilidade de um produto, e o ministro deve saber bem disso como empresário de sucesso, não depende só de custo baixo, mas de preço justo. Então, se o governo decidir não voltar com o PIS/Cofins, para o setor será um sinal importante para o futuro do etanol combustível no Brasil”, encerra Borges. 

Marina Gallucci – novaCana.com