Política

Após demissões na Petrobras, preço do diesel no país subiu mais do que barril de petróleo

Preço médio do diesel nos postos cresceu 74% desde a demissão de Roberto Castello Branco, em fevereiro de 2021; petróleo Brent, em reais, saltou 59% no mesmo período


G1 - 23 jun 2022 - 12:07 - Última atualização em: 23 jun 2022 - 20:16

O preço médio do diesel nos postos de combustíveis do país cresceu 74% (de R$ 3,95 para R$ 6,89) desde fevereiro de 2021, quando o presidente da República, Jair Bolsonaro (PL), anunciou a demissão de Roberto Castello Branco, do comando da Petrobras. Ele foi o primeiro presidente da estatal indicado pelo atual governo. No mesmo período, o preço do barril de petróleo subiu 59% (de R$ 368,97 para R$ 587,24), isto é, em um ritmo menor.

É o que aponta um levantamento feito pela GloboNews com base em dados da Agência Nacional de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) e em números da Necton Investimentos, que forneceu à reportagem os preços do petróleo Brent, mês a mês, cotados no mercado internacional.

A reportagem levou em conta os dados mensais do chamado Sistema de Levantamento de Preços (SLP), uma média calculada pela ANP com base nos valores do diesel cobrados dos consumidores em mais de 6 mil postos de combustíveis de todo o país.

O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), considerado a inflação oficial do país, cresceu 14,08% desde fevereiro de 2021, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

O aumento do preço dos combustíveis, em especial o do diesel, é alvo de críticas frequentes do presidente Bolsonaro e provocou trocas sucessivas na presidência da Petrobras. O executivo Caio Paes de Andrade, que ocupou importantes cargos de assessoria do ministro da Economia Paulo Guedes, como o de secretário de desburocratização, foi indicado em maio pelo governo para comandar a estatal. Seu nome ainda precisa ser aprovado pelo conselho da empresa.

'Margem de refino' nas alturas

De acordo com Décio Oddone, que foi diretor-geral da ANP entre 2016 e 2020, a disparada do preço do diesel decorre de diferentes fatores combinados, como a alta do valor do refino, puxada pelas incertezas decorrentes da invasão da Ucrânia pela Rússia, e também a instabilidade política no Brasil.

"O consumidor não compra petróleo, o consumidor adquire derivados [de petróleo], gasolina, diesel, gás de cozinha. O preço aparente do petróleo para o consumidor considera o preço do derivado, que varia com a cotação do produto no mercado internacional, que, no Brasil, também sofre o efeito da variação do câmbio, mas tem que considerar também a margem de refino, que é quanto as refinarias cobram para transformar petróleo em derivado", explica Oddone.

De acordo com ele, desde fevereiro, com a invasão da Ucrânia pela Rússia, o preço da chamada margem de refino não para de subir.

"Essa é a grande novidade que a gente está vendo nessa situação de invasão da Ucrânia pela Rússia. A Rússia é um grande produtor de diesel e as margens de refino subiram muito. Historicamente, eram da ordem de 10, 20 dólares por barril, agora estão 60 [dólares]. Agora, com o [barril] petróleo a 120 dólares, com as margens de refino a 60 dólares por barril, que é um recorde histórico, o que a gente está vendo é um preço aparente para o consumidor de diesel, no mundo inteiro, de 180 dólares por barril. Que, no Brasil, se reflete, num valor, em reais, maior ainda, porque o dólar está numa cotação elevada", afirma.

Ainda de acordo com o ex-diretor-geral da ANP, "a ameaça de intervenções no ambiente econômico não é positiva. Isso afeta a economia, afeta a formação de preços, e acaba também se refletindo numa maior taxa de câmbio, que acelera o processo inflacionário ainda mais."

Inflação maior no Nordeste

O preço do diesel subiu mais no Nordeste do que nas outras regiões do país desde fevereiro de 2021, segundo dados da ANP. Lá, a variação no valor médio cobrado do consumidor foi de 81% (de R$ 3,99 para R$ 7,23).

Nas outras regiões, no mesmo período, o preço médio do diesel evoluiu da seguinte forma: de R$ 4,20 para R$ 7,10 (69%) no Norte; de R$ 4,03 para R$ 6,95 (72%) no Centro-Oeste; de R$ 3,93 para R$ 6,80 no Sudeste (73%) e de R$ 3,81 para R$ 6,74 (77%).

Segundo a mais recente pesquisa Datafolha, publicada em maio, o Nordeste é a região do país onde a diferença entre os percentuais de intenção de voto dos pré-candidatos Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Bolsonaro é maior: o petista tem 62% e o atual presidente, 17%. Levando-se em conta todas as entrevistas feitas pelo instituto, em todo o país, Lula tem 48% contra 27% de Bolsonaro.

Léo Arcoverde

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