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Política

Unica recebe R$ 5,2 milhões do governo para promover açúcar e etanol


novaCana.com - 23 ago 2016 - 11:30

A Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (Apex-Brasil) e a União da Indústria de Cana-de-açúcar (Unica) oficializaram um novo convênio para o investimento de R$ 9,358 milhões para promoção do etanol e açúcar brasileiro no exterior. Esse é o quarto contrato entre as entidades, e o pimeiro a incluir o açúcar no escopo.

Do valor total do projeto, a Apex vai entrar com R$ 5,196 milhões, cerca de 55%. O restante, R$ 4,161 milhões (44%) será aplicado pelos associados da Unica.

Desde que os convênios entre Apex e Unica começaram, a participação percentual do governo nunca foi tão grande. No contrato anterior, encerrado em março desse ano, o governo foi responsável por 50% dos R$ 8,409 milhões contratados.

O contrato começou a valer em maio deste ano e a assinatura foi realizada em junho, sem cerimônia. A fraca publicidade para o acordo deste ano, contrasta com o convênio assinado em 2008, quando os principais envolvidos discursaram sobre a importância do projeto.

Na época, o momento era outro e a expectativa era transformar o etanol em uma commodity global. De lá para cá esta esperança não se concretizou e o mundo agora lança olhares — e investimentos —para o carro elétrico em detrimento aos combustíveis líquidos.

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Mas, para a Apex, o cenário ainda é positivo e promissor. “No contexto de sustentabilidade mundial, o etanol brasileiro tem condições de ser protagonista”, aposta o coordenador de Projetos Setoriais da Apex-Brasil, Igor Brandão. Ele destacou que, tendo em vista o volume financeiro empreendido, a associação com a Unica representa um dos principais convênios no setor de agronegócio da Apex no momento

Com duração até maio de 2018, o maior diferencial do projeto corrente é a ampliação do total de países alvo para exaltar o etanol brasileiro e o aumento do número de ações de promoção comercial.

Por enquanto, é baixo o total de sucroalcooleiras que demonstraram interesse na participação nas missões e rodadas de negócios do projeto.

No entanto, os atores envolvidos no convênio apostam que os benefícios se estenderão para todo o setor quando consideradas as particularidades dessa parceria Apex-Unica. Sendo a principal, o foco em influenciar o ambiente regulatório nos países-alvo das exportações brasileiras, junto com o trabalho de imagem e percepção internacional do etanol de cana.

A contribuição é aprovada em assembleia e acordada entre todas as suas 120 indústrias associadas. "Essas ações acabam atingindo quem tem maior vocação para as exportações, mas não são excludentes. O fortalecimento e a preservação da imagem dos produtos brasileiros acabam beneficiando todo o setor", afirma Elizabeth Farina.

Segundo a Unica, o convênio deste ano com a Apex representa 10% do orçamento da entidade. Isto coloca o orçamento anual atual da Unica girando em torno de R$ 20 milhões.

A adesão ao projeto é livre e de iniciativa das empresas, sendo permitida a entrada de todas as empresas nacionais do setor, associadas à Unica ou não.

A usina deve arcar com os custos de participação – passagens, diárias e traslados e de envio de amostras de produtos. “Mas, em contrapartida, [as empresas] têm direito a uma série de benefícios, como acesso a compradores internacionais, autoridades de governos estrangeiros e organizações industriais de outros países, além de receberem apoio da inteligência de mercado da Apex e terem a oportunidade de participação em missões oficiais do Governo Brasileiro”, ressalta Brandão.

Apesar disso, o número de empresas interessadas neste novo convênio caiu para 35, o menor desde 2013. Mas a adesão ainda pode ser feita para os eventos que ainda não tiveram a programação finalizada. “A participação no projeto está sempre aberta. O que queremos mesmo que é nos procurem”, destacou a Apex.

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Plano de ação

Apesar das perspectivas para o petróleo nos próximos anos ser de preço baixo, o que prejudica ainda mais a racionalidade econômica das alternativas renováveis, o convênio faz uma aposta no longo prazo e espera encontrar brechas para promover o etanol.

Dessa maneira, o conjunto de ações previsto pelo projeto se divide em quatro grupos de atividades.

O primeiro é a fase estruturante, relacionada com a geração de materiais de comunicação, relações públicas e o planejamento estratégico setorial.

Outra família de ações, uma fundamental dentro das particularidades do convênio, é a de estudos e inteligência de mercado. No caso específico do etanol, a etapa engloba o conhecimento das ações regulatórias e legislações dos países e, também, de como são tratadas as questões relacionadas às fontes de energia renovável. “Cada país adota um padrão e, para o setor, é fundamental monitorar e estar preparado para reagir quando necessário. Isso é feito por meio de contratação de estudos, missões prospectivas in loco e outras açõespara compreensão do funcionamento desses mercados”, diz Brandão.

O segundo grupo de ações está relacionado ao que é feito com essas informações. Após a coleta de dados, parte-se para o trabalho de campo para aproveitamento de oportunidade e mitigação de eventuais riscos mapeados. “Apoiamos, a participação em grandes fóruns internacionais e em reuniões com grandes players do mercado. É importante o Brasil estar presente e manter sua imagem de líder em relação às energias renováveis no mundo”, acrescenta o coordenador.

Nesta edição do convênio já está programada a participação em pelo menos 57 eventos desse caráter: seis ainda neste ano; 27 em 2017; e 24 em 2018.

Outro ponto, dentro desse grupo de ações, é a interferência direta junto aos governos dos países-alvo do projeto. Segundo Eduardo Leão, da Unica, o trabalho serve para garantir que esses países tenham um ambiente regulatório favorável e positivo e que diferencie o etanol de cana-de-açúcar em relação aos outros tipos de etanol é intenso.

E é justamente nesse tipo de ação que o projeto tem sido mais bem sucedido: em diferenciar o etanol de cana-de-açúcar e suas qualidades ambientais. Leão destaca a classificação, em 2011, do etanol de cana-de-açúcar como combustível avançado pela Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos (EPA). “Esses estudos têm sido fundamentais para argumentarmos com os formuladores de políticas nos Estados Unidos e na União Europeia. Com isso, nós temos conseguido avanços importantes na regulação deles, o que se traduz em aumento de mercado para nós”, diz.

Sobre o ponto, Elizabeth Farina destaca que a preocupação na hora de atuar nos projetos nunca foi o curto prazo. “Estamos sempre olhando para o médio e o longo prazo. É um projeto de acompanhamento da evolução e das regras básicas que geram o ambiente onde essas empresas vão competir", assinala.

Mais açúcar para o mundo

Mas nem só de energia limpa e renovável vivem as usinas brasileiras. Vender mais açúcar para a população mundial também é uma preocupação da Unica.

Para a atual edição do projeto, já está previsto um estudo sobre o comércio do açúcar na Europa e no Sudeste Asiático. O estudo evidencia a ampliação dos mercados estratégicos do projeto para além das fronteiras dos Estados Unidos e da União Europeia, com especial atenção para países do Sudeste Asiático, tendo a China como elemento central das ações, segundo Farina.

O material ainda deve abordar em que medida a transgenia pode ser um obstáculo para comercialização do etanol e do adoçante brasileiros nesses mercados.

O balanço das entidades sobre os últimos quatro convênios é que o processo dos mercados americanos e europeus já vêm sendo trabalhados de maneira intensa para influenciar políticas e com resultados interessantes. “No último projeto [encerrado em maio], nós identificamos a necessidade de olhar para outros alvos. A Ásia, claramente, é um mercado com todas as características para absorver cada vez mais combustíveis renováveis em sua matriz”, destaca Farina.

Além da inclusão do açúcar, que não estava dentro dos projetos anteriores. A expectativa é de possíveis mudanças no ambiente regulatório internacional do açúcar, especialmente na União Europa.

Ações comerciais

Além de vislumbrar o terreno que as empresas brasileiras exportadoras encontrarão pela frente, o último grupo de ações – e com resultados mais imediatos, segundo a Apex – são as ações de promoção de negócios.

“Temos que encontrar as pessoas que influenciam a compra. A ideia é mapear essas cadeias de distribuição para colocar as usinas brasileiras em contato. Isso pode tanto acontecer em eventos internacionais, como podemos trazer esses players para cá”, pontua Brandão.

De acordo com a Apex, a expectativa é que nesta edição se intensifiquem as ações de promoção comercial, mapeando potenciais parceiros e clientes.

Duração do convênio

Via de regra, os convênios da Apex têm duração de até 24 meses, podendo ser abreviados ou estendidos por período não superior a 36 meses. Isso acontece por iniciativa da Unica, com anuência da Apex-Brasil.

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Quem manda na Apex

Há cerca de dois meses, o presidente interino Michel Temer mudou o comando da Apex, passando para as mãos de José Serra, através do Ministério das Relações Exteriores. Desde que foi criada, em 2003, as verbas e decisões da agência de promoção das exportações eram definidas pela pasta do Comércio Exterior (MDIC). O convênio com a Unica foi assinado antes desta mudança.

Marina Gallucci - novaCana.com