Etanol: Preços

As influências no preço do etanol do indicador Cepea/Esalq


NovaCana - 26 fev 2013 - 08:42

São centenas de ligações e troca de e-mails até que o setor sucroalcooleiro descubra quanto está valendo o litro do combustível derivado da cana-de-açúcar. Um trabalho diário que conquistou o respeito do setor graças a dedicação da equipe do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea) da Escola Superior de Agricultura "Luiz de Queiroz", da Universidade de São Paulo, (Esalq/USP).

Desde 1998 quando foi criado o primeiro indicador de preços para o álcool anidro, o trabalho do Cepea/Esalq é o principal balizador para comercialização do biocombustível no país. Para garantir mais segurança, a instituição adota uma pesquisa dinâmica de preços e não se limita a uma estrutura fixa de colaboradores.

O indicador acompanha os preços do álcool anidro, hidratado para uso como combustível e para outros fins. As cotação podem ser diárias, semanais ou mensais, dependendo da região de referência. Os estados de Alagoas e Pernambuco têm indicadores mensais, já Goiás e Mato Grosso possuem números semanais. As duas periodicidades são aplicadas no estado de São Paulo. Já Paulínia, município sede da principal microrregião produtiva no país, conta com indicadores diários.

Para entender melhor o impacto das recentes mudanças regulatórias na formação do indicador, a equipe do site novaCana.com contou com a ajuda da pesquisadora responsável pela área de etanol do Cepea, a professora da Esalq/USP Mirian Rumenos Piedade Bacchi. Em relação a amostra, a metodologia do trabalho consiste em consultar diariamente os agentes operadores de mercado para verificar os preços praticados na compra e venda do etanol. "Os nossos colaboradores incluem unidades produtoras e distribuidoras, além de empresas comercializadoras e corretores. A nossa amostra é maior do que a necessária para que um indicador representativo possa ser elaborado", comenta.

Mercado spot: mudanças

Os colaboradores da pesquisa representam 90% do mercado sucroalcooleiro, mas o número de informações a partir do mercado spot diminuiu. O assessor técnico da Orplana, Geraldo Majela de Andrade Silva explica que essa queda está associada a resolução nº 69/2011 da Agência Nacional de Petróleo (ANP). Até algum tempo atrás, "o preço do etanol anidro e hidratado, embora com comportamentos distintos, não estavam diretamente correlacionados". Porém, com a resolução da ANP, as distribuidoras tiveram que garantir estoques e escolher as modalidades de compra para o etanol anidro, ampliando a correlação com o preço do hidratado.

Bacchi explica esse fenômeno. Entre o contrato de fornecimento, onde as distribuidoras tinham que firmar contrato de 90% do que iriam vender no ano, ou a compra direta, as grandes distribuidoras escolheram a primeira modalidade. Os indexadores desses contratos têm sido os indicadores de preços do etanol hidratado (diário ou semanal) elaborados pelo Cepea, ao qual se soma um valor (prêmio) pelo diferencial de qualidade, que gira em torno de 13%. "O fato de o preço do anidro estar, através desses contratos, atrelado ao do hidratado faz com que o preço da gasolina (teto para o preço de hidratado, ajustando-se para o diferencial de rendimento energético) também influencie o preço do anidro. Assim, a rentabilidade do setor passa a ser muito dependente da política de preços da gasolina, que nos últimos anos tem gerado perdas para o mercado de etanol", detalha a pesquisadora.

Em consequência desta nova regra da ANP, a amostra das informações de agentes que operam no mercado spot ficou reduzida para a composição do indicador semanal do etanol anidro. "No entanto, em nenhuma semana o indicador deixou de ser divulgado uma vez que o número de informações foi suficiente para que pudéssemos aplicar critérios estatísticos. Cumpre lembrar que a produção de etanol anidro comercializado no mercado spot no ano safra 2012/13 foi maior do que a prevista inicialmente. Entre 10 e 20% dos negócios mensais feitos com etanol anidro referem-se ao mercado spot", disse Bacchi.

A influência dos estoques na volatilidade

Embora a regulação da ANP já tenha sido positiva para trazer mais segurança ao mercado do etanol, Mirian Bacchi também defende uma política efetiva de financiamento para a realização de estoque. "Certamente poderia reduzir a volatilidade intra-ano (safra e entressafra)", analisa. Aliada a outras políticas de financiamento em prol da renovação de canaviais e a utilização de insumos (tratos culturais) adequados, poderia contribuir para diminuir a variação de preços entre anos consecutivos. "Isso seria especialmente importante em épocas de baixa rentabilidade do setor".

A pesquisadora também lembra que quase 50% da cana produzida no Brasil é destinada à fabricação de açúcar, cujo preço no mercado interno é dependente dos preços internacionais. Como o Brasil exporta praticamente dois terços da sua produção, os valores internacionais para esta commodity, bastante voláteis, interferem muito na rentabilidade do setor alcooleiro.

A professora da Esalq/USP também destaca outra contribuição importante do indicador. Os valores referentes aos contratos fazem parte do Indicador mensal que é utilizado pelo sistema Consecana para definir o valor de  Açúcares Totais Recuperáveis  (ATR) e, consequentemente, o valor da tonelada de cana pago aos fornecedores da matéria-prima utilizada tanto na produção de etanol quanto na de açúcar.

Influência da ANP e o argumento das pequenas

Tendo que optar entra as duas modalidades para aquisição do etanol anidro, algumas distribuidoras regionais se viram numa situação difícil. Elas alegam ter dificuldades para contratar o produto junto a usinas ao mesmo tempo em que também não possuem tancagem suficiente para o armazenamento necessário. A partir desta situação, distribuidoras de pequeno porte, com menos 1% do mercado nacional, tentaram  escapar da resolução. Um dos argumentos utilizados por estas empresas é que, ao ficarem livres das regras, criariam massa palpável de negociações entre distribuidoras e usinas, colaborando para alimentar com mais exatidão o indicador Cepea.

Bacchi não entra no mérito do argumento sobre a influência no indicador, mas crê em uma saída equilibrada entre as pequenas do setor e a ANP. "Acreditamos que essa definição não vá ser arbitrária e que a agência vá se nortear em análise do mercado dessas pequenas distribuidoras para tomar a decisão sobre a obrigatoriedade ou não de realizarem o contrato".

A ANP parece ter se decidido, pelo menos temporariamente. Em janeiro a autarquia publicou uma série de correções na resolução (clique aqui e confira as mudanças) e concedeu um prazo extra para as distribuidoras que escolheram a compra direta garantirem os estoques sem que fossem punidas.

Amanda SchArr – novaCana.com

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