Etanol: Mercado: Gasolina

Produtores de etanol estão no aguardo da alta da gasolina


Estado de Minas - 14 jan 2013 - 09:20 - Última atualização em: 29 nov -1 - 20:53

A indústria nacional de álcool combustível espera ansiosamente pelo anúncio neste trimestre de duas medidas do governo consideradas essenciais para a recuperação da sua competitividade doméstica. A primeira é o retorno do percentual de 25% na mistura do etanol à gasolina, reduzido para 20% desde outubro de 2011. A segunda, mais importante e complexa, é o reajuste das tabelas da Petrobras, pondo fim a quase quatro anos de "congelamento" dos preços da gasolina.

Nos últimos meses, empresários e líderes do setor, que passou a ser regulado pela Agência Nacional de Petróleo (ANP), vêm apresentando à presidente Dilma Rousseff os seus argumentos favoráveis aos dois movimentos. Mais recentemente, eles somaram ao pleito a informação sobre a franca melhora da atual safra de cana-de-açúcar em relação às duas últimas, prejudicadas por estiagens, com alta de até 10% nos volumes colhidos. O conjunto de dificuldades contrasta com o histórico do bem-sucedido programa brasileiro de substituição em larga escala dos derivados de petróleo.

"A presidente tem todos os dados técnicos para tomar uma decisão prometida há meses. Queremos ver o aumento da mistura publicado no Diário Oficial da União (DOU) até abril para espantar a insegurança no mercado interno", diz Antonio de Pádua Rodrigues, diretor técnico da União da Indústria de Cana-de-Açúcar (Unica). Mesmo animados com a reação do campo, usineiros avisam que a falta de rentabilidade ainda impede retomar projetos na gaveta desde 2008 e evitar fechamentos já programado de usinas. "A decisão de investir em unidades orçadas em R$ 1 bilhão requer visão de longo alcance, de 20 anos. Em um ambiente de reviravoltas e pouca comunicação fica muito difícil", explica Rodrigues.

Cerca de 40 usinas encerraram suas atividades nos últimos anos e pelo menos 10 deverão engrossar a lista até dezembro. O remédio contra os apertos conjunturais, gerados pela política macroeconômica do governo e eventuais problemas climáticos, está na estabilidade de regras e mais planejamento. Por isso, os fabricantes de etanol querem aproveitar a sinalização de abertura do Planalto para cobrar política de longo prazo para o setor sucroalcooleiro, alcançando os governos estaduais.

As decisões em favor do álcool combustível se completam, à medida que diminui o apetite pelas crescentes importações de gasolina, puxadas pelo aumento da frota nacional e pela saturação da capacidade de refino da estatal. Além dos prejuízos nos balanços da Petrobras, pesa o fato de que as novas refinarias em construção no Nordeste e no Rio de Janeiro só entrarão em cena por volta de 2016. Nesse contexto, o consumo de gasolina subiu 12% em 2013 e o de etanol recuou 10%. Abastecer o carro com etanol só é vantajoso quando o preço do combustível equivale a 70% ou menos do preço da gasolina.

ESTÍMULO
Dados da ANP revelam que em 2007, quando o produto da cana era mais competitivo, o Brasil exportou 3,7 bilhões de litros de gasolina. O quadro se inverteu, e em 2011, o país importou 1,9 bilhões de litros do combustível fóssil, subindo no ano passado para cerca de 3 bilhões de litros, volume só atingido nos anos 1970. Com isso, mais de um décimo da gasolina nas bombas dos postos é importada. O governo, por sua vez, reconhece o significativo aumento dos custos de produção do etanol nos últimos quatro anos, de quase 100%, ante uma inflação oficial acumulada de 29%. "Uma proporção de equilíbrio e um estímulo ao consumo de etanol é primordial", acrescenta Rodrigues.

Leonardo Gadotti, vice-presidente da fabricante Raízen, torce pelo retorno aos 25% da mistura, no máximo, até junho. "Basta o governo medir os estoques para decidir e afastar a insegurança dos investidores", avisa. Ele torce também para que o debate a cerca da unificação das alíquotas do imposto estadual (ICMS) sobre o etanol, que vão de 12% (SP) a 24% (RJ), prospere.

"Todos ganhariam com uma redução, convergindo para um único percentual e seguindo o exemplo do governo paulista. Os resultados são positivos para a cadeia produtiva e torna a distribuição mais racional", observa. O executivo ressalta ainda que a carga tributária, como política pública, deve também se orientar pelos ganhos sociais e ambientais de garantir competitividade ao etanol. "Essa conta final não é pequena", garante.

Ajuda dos Estados Unidos

Enquanto o setor sucroalcooleiro requer ajustes, a crescente demanda norte-americana pelo etanol à base de cana-de-açúcar já pressiona os preços, que estavam nos menores níveis dos últimos dois anos. As importações do etanol brasileiro pelos EUA deram um salto de quase nove vezes em 2012, até outubro, na comparação com igual período do ano anterior, refletindo também o fim, há um ano, da barreira tarifária que existia por três décadas.
As vendas do Brasil para os EUA somaram 1,27 bilhão de litros nos primeiros 10 meses de 2012. A tendência é de esse avanço continuar em 2013. Segundo analistas, a abertura do mercado e a expectativa de uma maior procura doméstica terão importante papel na recuperação da rentabilidade dos produtores nacionais. A favor disso está o fato de a legislação norte-americana em favor de uma maior participação do biocombustível de cana nos automóveis, ajudando no declínio da produção local de etanol a base de milho.

ELETRICIDADE
A crescente demanda de eletricidade para o Brasil poderia ser suprida por um proporcional aumento da participação do bagaço da cana na matriz energética. A capacidade média de produção atual apenas das usinas do estado de São Paulo gira em torno de 1,3 mil megawatts (MW). Segundo o representante da União da Indústria de Cana-de-Açúcar (Unica) em Ribeirão Preto (SP), Sérgio Prado, esse volume poderia subir para 15,3 mil MW em uma década. "É o equivalente a pouco mais de uma Usina de Itaipu", comentou, citando a maior hidrelétrica em operação no país. "As empresas têm interesse em investir, mas o custo é alto e elas ainda precisam de garantias do governo de que haverá estabilidade de regras tanto no etanol quando nos preços da eletricidade", afirmou. (SR)

Efeito flex
Relatórios oficiais mostram que a tecnologia flex tirou eficiência energética do etanol nas bombas de combustíveis. Enquanto nos anos 1990 o chamado preço relativo de indiferença entre o álcool hidratado de cana-de-açúcar e gasolina era, na média, de 80,67% na frota movida apenas a etanol, o motor bicombustível que hoje domina as vendas de carros novos é, na prática, favorável ao refino de petróleo, abaixo de 70%.

Sílvio Ribas

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