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Novo presidente da Petrobras reduz reajustes, mas gasolina sobe 7% em três meses


UOL - 26 jul 2021 - 08:20

Nos três meses em que o general Joaquim Silva e Luna está na presidência da Petrobras, a companhia tornou menos frequentes os reajustes nos combustíveis. Mesmo assim, desde que o general tomou posse, houve alta de 9,3% no preço médio do diesel, 7,2% no da gasolina comum e 8,2% no do gás de cozinha, segundo dados da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP).

O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) trocou o comando da companhia justamente após pressões por causa do aumento do preço dos combustíveis. À época, investidores tinham o temor de que Bolsonaro estaria tentando intervir na Petrobras.

Depois do primeiro trimestre de Silva e Luna no comando, analistas dizem que o mercado financeiro se acalmou, vendo com bons olhos a gestão do general. Mas os caminhoneiros, base eleitoral do presidente, não se convencem. Influenciados pela alta no preço, os motoristas consideram que a nova gestão é apenas “mais do mesmo”.

Os reajustes e o preço

Desde 19 de abril, quando Silva e Luna assumiu, quatro reajustes foram feitos pela Petrobras. Um deles, no final de abril, reduziu o preço da gasolina e do diesel em 2%. Em junho, a gasolina caiu mais 2%. Outra alteração, em julho, aumentou os valores em 6,3% para a gasolina, 3,7% para o diesel e 5,9% para o gás de cozinha. O gás natural, que é reajustado trimestralmente, subiu 7%.

Mesmo assim, no caso do diesel, o valor cobrado nas bombas subiu de R$ 4,20 para R$ 4,59 entre a semana de 18 de abril e a de 11 de julho, segundo a ANP. No mesmo período, a gasolina comum foi de R$ 5,44 para R$ 5,83, e o gás de cozinha, de R$ 85,15 para R$ 92,17.

William Nozaki, coordenador técnico do Instituto de Estudos Estratégicos de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (Ineep), ligado à Federação Única dos Petroleiros (FUP), afirma que as altas não estão relacionadas aos impostos estaduais, como afirmou Bolsonaro, já que os percentuais cobrados continuaram iguais.

Segundo ele, os aumentos para o consumidor ocorrem mesmo sem os reajustes na Petrobras por causa dos outros elos da cadeia, que atuam de forma independente. Para o diesel, houve o agravante da volta da cobrança de PIS e Cofins em maio, o que adicionou R$ 0,31 ao preço.

“A Petrobras cobra pelo combustível na refinaria. Mas, até ele chegar ao consumidor, o preço ainda vai incorporar margens de lucros de distribuidoras e postos. Na prática, quando a Petrobras reajusta o preço, o consumidor sempre vai sentir o aumento. Mas distribuidores e revendedores nem sempre vão repassar eventuais reduções”, afirma Nozaki.

Em nota, a Federação Nacional do Comércio de Combustíveis e de Lubrificantes (Fecombustíveis) afirmou que os postos “não são culpados pelos preços dos combustíveis no Brasil”. A entidade diz que o dólar, o preço do barril de petróleo no mercado internacional e a carga tributária “fazem com que o combustível no país seja caro”.

Ainda de acordo com a Fecombustíveis, os aumentos nas bombas ocorreram quando a Petrobras reajustou os preços nas refinarias e com as alterações quinzenais na base de cálculo do ICMS, imposto estadual que incide sobre combustíveis.

Segundo Nozaki, a situação deve piorar nas próximas semanas, porque os preços do petróleo no mercado internacional estão em alta. Com isso, a pressão para que a Petrobras intensifique os reajustes deve aumentar.

Reajustes menos frequentes

A indicação de Silva e Luna para substituir Roberto Castello Branco veio em um momento de pressão sobre Bolsonaro: com os combustíveis em alta, o presidente se irritou e chegou a dizer que “alguma coisa aconteceria” na Petrobras.

A fala foi interpretada por investidores como uma possível tentativa de interferência na estatal, o que fez a companhia perder mais de R$ 100 bilhões em valor de mercado. O temor era de que, para baixar o valor dos combustíveis, Silva e Luna deixasse de lado o Preço de Paridade de Importação (PPI). Adotada desde 2016, a metodologia vincula o preço dos combustíveis comercializados pela Petrobras ao valor do petróleo no mercado internacional.

Nozaki, do Ineep, afirma que, mesmo mantendo o PPI, Silva e Luna encontrou um meio-termo. “Sob Castello Branco, havia a tendência de fazer os reajustes com mais frequência. No começo da gestão, a média era de um reajuste a cada 18 dias. No final, passou para um reajuste a cada 12 dias. Ao que tudo indica, esse ritmo tem sofrido alteração na gestão de Silva e Luna, com um reajuste a cada 30 dias”, afirma.

Segundo o pesquisador, o modelo é “funcional” para o governo, já que se equilibra entre as pressões do mercado e questões eleitorais.

Caminhoneiros seguem insatisfeitos

Entre os caminhoneiros, porém, a leitura é de que Silva e Luna é apenas “mais do mesmo” – e não de uma forma positiva. “Não mudou nada até agora. Foi uma coisa mais política do que efetiva”, afirma Wallace Landim, o Chorão, presidente da Associação Brasileira dos Condutores de Veículos Automotores (Abrava).

Lideranças da categoria articulavam uma greve para domingo, 25, tendo como uma das pautas o preço do diesel. O governo minimizou a situação e afirmou que havia “zero chance” de paralisação.

Os petroleiros também fazem críticas à gestão. O coordenador-geral da FUP, Deyvid Bacelar, diz que Silva e Luna “entrará para a história como mais um dos que ajudou a destruir a maior empresa brasileira controlada pelo governo federal”.

“Silva e Luna mantém a política predatória do PPI, que penaliza sobretudo os mais pobres com reajustes sistemáticos nos preços dos combustíveis e do gás de cozinha; e continua a incentivar a venda de pedaços da companhia”, afirma Bacelar.

Medo do mercado passou

Já com o mercado financeiro a estratégia vem funcionando. O diretor de renda variável da Veedha Investimentos, Rodrigo Moliterno, afirma que o “temor inicial” com a nova presidência passou. “Aos olhos do mercado, a gestão está sendo muito positiva. Quando houve a mudança [na presidência], havia aquele receio de interferência, mas a realidade mostrou que não [aconteceu]”, coloca.

Segundo o diretor de renda variável da Valor Investimentos, Romero Oliveira, a gestão de Silva e Luna tem sido “melhor do que se esperava”. “O mercado tinha um receio de que houvesse mudanças drásticas, mas isso não se confirmou – pelo menos até o momento. A gente continua vendo a mesma linha, muito próxima à anterior”, afirma.

Procurada pelo UOL, a Petrobras afirmou que os preços seguem “buscando o equilíbrio” com o mercado internacional, considerando a variação dos valores no exterior e a cotação do dólar e “evitando o repasse imediato da volatilidade externa [variação de preços] causada por eventos conjunturais”.

“O alinhamento dos preços ao mercado internacional é fundamental para garantir que o mercado brasileiro siga sendo suprido sem riscos de desabastecimento”, diz nota enviada pela companhia.

Sobre a venda de refinarias, criticada pela FUP, a empresa afirmou que gerir seu portfólio permite que a Petrobras “invista em ativos de maior retorno e aderentes a sua estratégia”. “Isso contribui para o equilíbrio financeiro e o melhor desempenho da companhia”, completa a nota.

Giulia Fontes