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[Opinião] O que o preço negativo do petróleo está nos dizendo

Crise decorrente da covid-19 é choque deflacionário extraordinário para a economia


The New York Times / O Estado de S. Paulo - 22 abr 2020 - 07:44

Por Neil Irwin*

A pandemia do coronavírus provocou uma série de distorções alucinantes em todos os mercados financeiros do mundo, mas na segunda-feira vimos a mais bizarra delas até o momento: a queda no preço do petróleo nos Estados Unidos para menos US$ 37,63.

Isso significa que, se você tivesse de entregar um volume de mil barris de petróleo em Cushing, Oklahoma, em maio – em um importante contrato de futuros, você receberia US$ 37,63 para isso (o que equivale a cinco caminhões tanque, de modo que qualquer piada sobre armazenar petróleo no seu porão terá de continuar sendo uma piada).

Há duas maneiras de examinar a situação. Primeiramente, verificar o que ocorreu em um sentido técnico. O colapso dos contratos futuros para maio no caso do petróleo da West Texas Intermediate mostra como o choque da crise vem tendo um efeito cascata em todos os mercados e fazendo com que eles se comportem estranhamente.

Mas a mensagem mais abrangente é de que a crise da covid-19 é um choque deflacionário extraordinário para a economia, causando a paralisação de uma vasta parcela de recursos produtivos do mundo. Não permita que a escassez de alguns produtos, como máscaras faciais ou papel higiênico, confundam a questão. As consequências certamente persistirão além do período de confinamentos.

Nas últimas seis semanas, a demanda por produtos derivados do petróleo entrou em colapso. Com muito menos aviões no ar, as empresas aéreas gastam menos combustível de jato. As pessoas não estão dirigindo, de maneira que precisam de menos gasolina.

Mas os produtores de petróleo demoraram para cortar sua produção, o que significa que há um excesso do produto. Todos os lugares costumeiros para armazená-lo estão cheios, daí os preços futuros negativos para desobstruir o mercado.

Os preços futuros sugerem que o mercado de petróleo funcionará assim, com os produtores suspendendo a produção. O contrato de futuros para junho era negociado a US$ 21,41 na última segunda-feira e os contratos para setembro a mais de US$ 30. Os negociantes de commodities chamam a isto uma “situação de contango”, com preços extremamente mais altos num futuro próximo do que hoje.

O resultado econômico da pandemia é, mais do que qualquer outra coisa, uma interrupção repentina da demanda. Há poucos produtos em que a escassez é um problema, como os equipamentos médicos, material de proteção pessoal e lenços desinfetantes. Mas o quadro geral mostra que uma imensa parcela da produção econômica potencial simplesmente está suspensa.

Isso inclui restaurantes, linhas aéreas e estádios esportivos, que estão vazios. E os 22 milhões de trabalhadores que já se candidataram aos benefícios de seguro-desemprego nos Estados Unidos, com muitos mais que virão. E inclui outros, como o setor automotivo, que temporariamente fechou suas fábricas. E agora estamos vendo o setor energético, com mais capacidade de bombeamento do petróleo do que a demanda presente, e uma capacidade de armazenamento inadequada.

Tudo isto aponta para um colapso deflacionário – uma superabundância do lado da oferta de produtos e serviços, e consequentemente preços em queda – que excede qualquer coisa vista na vida de muitas pessoas. O petróleo não é a única commodity cujo preço vem despencando. Os contratos futuros de milho registraram queda de 19% desde fevereiro. O valor dos títulos do governo protegidos da inflação indica que a inflação será de apenas 0,56% ao ano nos próximos cinco anos, com o IPC (Índice de Preços ao Consumidor) caindo 0,4% em março.

A boa notícia é que a capacidade não vai desaparecer da noite para o dia. O petróleo ainda estará pronto para exploração quando a economia começar a se recuperar; os desempregados estarão ansiosos para retornar ao trabalho; os estádios e restaurantes reabrirão. Mas quanto mais tempo a paralisação da economia continuar, mais graves os riscos de algum dano permanente.

No mercado do petróleo, mesmo achando que os preços negativos no caso dos contratos futuros para maio são uma aberração bizarra, a lição é mais profunda. Um aumento abrupto na produção energética americana durante a última década tem superado as necessidades mundiais de energia, especialmente se as muitas mudanças resultantes da pandemia, como menos viagens aéreas, persistirem por meses ou anos.

Economia tem a ver com oferta e procura, produção e consumo. A questão na economia pós-pandemia é se este equilíbrio, uma vez perdido, poderá ser rapidamente restaurado. E isto será muito mais complicado do que encontrar mais lugares para armazenar o petróleo da West Texas Intermediate.

* Neil Irwin é correspondente econômico sênior do New York Times

Tradução de Terezinha Martino – O Estado de S. Paulo


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