Etanol: Mercado: Gasolina

Preço de combustíveis da Petrobras continua defasado apesar de reajuste, dizem analistas

Empresa diz que tem compromisso com preços competitivos e em equilíbrio com os mercados internacionais


Folha de S. Paulo - 20 jan 2021 - 14:39

Mesmo com o reajuste de R$ 0,15 no litro da gasolina nesta terça, 19, os preços dos combustíveis da Petrobras continuam defasados, segundo especialistas do setor.

Segundo cálculo de Étore Sanchez, da Ativa Investimentos, o preço da gasolina vendida pela estatal está 7% abaixo do preço da gasolina internacional.

Com relação ao diesel, o percentual de defasagem é estimado entre 11% e 14%, de acordo com a Associação Brasileira dos Importadores de Combustíveis (Abicom).

O chefe de petróleo e gás da FCStone, Thadeu Alves, afirma que a postura da Petrobras de segurar os preços vem sendo mantida por um tempo maior do que o habitual. A estratégia, segundo ele, não faz sentido do ponto de vista econômico.

“Por razão de mercado não é. Se [a Petrobras] quer ganhar uma fatia de mercado maior, com abrangência maior, coloca [o valor] abaixo [do preço internacional]. Mas manter por três semanas a 15% abaixo não faz sentido”, disse Alves.

Ele alertou que em alguns locais sem produção, como São Luís (MA), o preço do diesel está abaixo até do praticado no Golfo Americano, principal praça de importação e de onde o Brasil recebe a commodity.

“Se a Petrobras não mudar a postura atual, se o preço não voltar, vamos ter um impasse, porque ela vai precisar subir sozinha no mercado e vai entrar na situação do governo Dilma”, disse Alves.

Durante o primeiro mandato de Rousseff, entre 2011 e 2014, a determinação era que a Petrobras não fizesse o repasse da alta no barril de petróleo internacional para os preços de combustíveis praticados no mercado interno. Isso causou prejuízo bilionário à estatal.

A Abicom protocolou no início do mês um ofício no Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) reclamando do que vê como uma prática predatória da Petrobras na política de preços.

O presidente da entidade, Sergio Araújo, afirma que a defasagem na Petrobras inviabiliza a importação e pressiona o setor de produção de etanol.

Segundo ele, a credibilidade do país pode ser abalada se a política de preços não for alterada, o que afastaria investidores, atrapalharia a geração de empregos e o desenvolvimento. “Já vivemos esta mesma história no início dos anos 2000 e o resultado não foi bom para o país, para a sociedade e nem para o refinador”, disse.

Outro efeito do preço dos combustíveis diz respeito à inflação. O preço da gasolina compõe 5% do IPCA, principal índice de preços do país, com elevado impacto indireto sobre os preços de outros produtos, dado seu uso para transporte.

Nesse sentido, a defasagem de preços poderia evitar um impacto maior sobre a inflação, que encerrou o ano de 2020 em 4,52%, acima do centro da meta da inflação para o ano, de 4%.

Alves, porém, avalia que não há “nenhum indicativo, suspeita ou rumor” de que haja algum tipo de interferência política na Petrobras para segurar os preços dos combustíveis com o objetivo de evitar o repassa para a inflação, apesar de existir esse efeito colateral benéfico.

O último reajuste feito pela Petrobras no preço da gasolina havia sido em 29 de dezembro, com aumento de 4% no diesel e 5% na gasolina. No mesmo período, o preço do barril do tipo Brent cresceu 8%.

De acordo com um levantamento da ValeCard, empresa especializada em soluções de gestão de frotas, o preço do litro da gasolina subiu de R$ 4,714 para R$ 4,805, uma alta de 1,91% na primeira quinzena de 2021.

De acordo com a pesquisa, a maior alta de preços ocorreu no Amazonas (4,73%), e a menor em Tocantins (0,8%). Nenhum estado do país registrou redução no valor médio do combustível.

Os dados foram obtidos por meio do registro das transações realizadas de 1 a 14 de janeiro com o cartão de abastecimento da ValeCard em cerca de 20 mil estabelecimentos credenciados.

Procurada, a Petrobras afirma que tem compromisso com a prática de preços competitivos e em equilíbrio com os mercados internacionais.

“Estão mantidos os princípios que balizam a prática de preços da Petrobras, como preço de paridade de importação, margens para remuneração dos riscos inerentes à operação e nível de participação no mercado. Os reajustes são realizados sem periodicidade definida, de forma que a volatilidade das cotações internacionais e da taxa de câmbio podem não ser repassadas imediatamente para o mercado interno”, disse a estatal.

Segundo o Instituto de Estudos Estratégicos de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (Ineep), o reajuste foi resultado da pressão do mercado privado sobre a Petrobras e visa viabilizar sua privatização.

O coordenador do Ineep, Rodrigo Leão, vê com preocupação a pressão dos importadores. Na sua avaliação, os reajustes podem causar uma eventual volta da volatilidade dos preços no mercado interno.

“Com a privatização, a tendência é que o preço dos derivados aumente ainda mais. O projeto de petróleo que o país está seguindo é o de submissão ao mercado internacional, sem o mínimo debate sobre os interesses externos", disse Leão.

Diego Garcia


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