Etanol: Mercado: Gasolina

[Opinião] Crise de energia no horizonte vai encarecer gasolina e bater na inflação mundial

Motivo mais imediato da crise é a falta de gás na Europa, que contagia outros mercados


Folha de S. Paulo - 28 set 2021 - 16:12 - Última atualização em: 29 set 2021 - 11:58

Por Vinicius Torres Freire*

Falta energia no mundo. A crise pode ser transitória, em parte resolvida com arranjos políticos até o final do ano, mas encarece combustíveis, como a gasolina, e a produção de algumas indústrias e serviços, quando não a paralisa. A inflação mundial vai aumentar um pouco mais. Com algum azar e sem arranjos, a crise pode se prolongar até o verão do Hemisfério Sul e o inverno do Norte. Nesse caso, haverá mais dificuldades do que preços maiores.

O problema mais novo e imediato é a falta de gás natural, retirado do subsolo. Em um ano, o preço do gás mais do que dobrou nos Estados Unidos e quadruplicou, mais ou menos, na Europa – está no nível mais alto em cerca de sete anos.

A Europa depende em parte de gás para fazer eletricidade e para aquecimento doméstico. Fábricas de metais, fertilizantes e materiais de construção do mundo inteiro usam gás. Com o preço do produto nas alturas, começa-se a recorrer mais a óleo combustível, o que pressiona marginalmente ainda mais o preço do barril de petróleo. A produção dos poços por ora está limitada por decisão do cartel dos grandes produtores, a Opep.

É fácil perceber que a falta de energia contribui para o aumento dos preços em geral; altas de preços persistentes podem limitar o crescimento econômico, a “retomada” da crise causada pela pandemia. Basta pensar no efeito sobre o custo do aço e dos fertilizantes. A falta de gás criou problemas até para a produção de gelo seco na Inglaterra, dificultando e encarecendo o transporte de mercadorias refrigeradas.

Os preços do gás e da eletricidade subiram tanto que Itália, Espanha e França estão subsidiando consumidores residenciais. Empresas de distribuição de eletricidade na Inglaterra estão indo a breca, em parte por causa da alta de custos e de preços de venda limitados. A Espanha propôs um arranjo europeu de compra conjunta de gás, para que a eurozona não fique à mercê dos fornecedores. O preço da gasolina aumentou cerca de 50% nos Estados Unidos, em um ano. Alguns comentaristas dizem que esse é um dos motivos da queda de popularidade do presidente Joe Biden.

Falta gás porque: 1) o inverno europeu de 2020/21 foi frio e comprido, o que reduziu os estoques além da conta; 2) países europeus desestimulam a produção de gás ou fecham grandes campos de exploração, como um na Holanda, por motivos variados; 3) o maior fornecedor de gás da Europa, a Rússia, não tem aumentado a oferta, por motivos complicados e ainda não muito bem compreendidos até pelos europeus; 4) a China consome mais gás porque quer limpar o ambiente usando menos carvão. A Ásia paga caro e leva o gás americano, por exemplo; 5) até o Brasil e a Argentina entram na lista, pois compram mais gás dos EUA, para abastecer termelétricas que substituem as usinas hidrelétricas secas; 6) as usinas eólicas na Europa, no Reino Unido em particular, estão produzindo menos eletricidade por causa da falta de vento; 7) o furacão Ida prejudicou a produção no Golfo do México.

A reabertura das economias depois do que passou o pior da pandemia contribuiu para a alta dos combustíveis que tinham ido ao nível de colapso, no ano passado. A escassez de agora dá mais um impulso a esta recuperação de preços.

O barril do petróleo (Brent) chegou a US$ 80 nesta terça-feira, maior preço em três anos.

Enquanto não há solução para os problemas do gás, os preços no Hemisfério Norte sobem, pois é preciso fazer estoques para o inverno. Se o inverno no Norte for muito frio, a situação vai piorar, assim como vamos ter problemas por aqui no Brasil se não chover muito a partir de novembro.

Uma crise ainda mais feia de preços ainda parece evitável. A Rússia talvez possa fornecer mais gás. Há um problema enrolado aqui. Os russos acabaram de concluir um gasoduto que parte quase da sua fronteira com a Finlândia e chega na Alemanha, passando pelo Mar Báltico, o Nord Stream 2. A obra foi muito contestada por americanos e alguns europeus; sofreu sanções, por assim dizer. Com o gasoduto novo, os russos podem largar os seus canos de gás que passavam pela Ucrânia. Se a Ucrânia não tem mais essa utilidade, dizem os ocidentais, é possível que os russos até invadam o país, entre outros problemas geopolíticos, embora a Alemanha seja a favor do gasoduto. Segundo a especulação diplomática europeia, os russos usam a escassez de gás para obter o fim de sanções a seu gasoduto. É possível também que estejam apenas repondo seus estoques vazios.

Em breve, a Opep pode permitir aumentos adicionais de produção de petróleo. Não resolve o problema de falta de gás natural, mas o atenua ou segura a alta do petróleo. A especulação dos analistas é que o cartel não vai conter a produção (e faturar ainda mais com preços mais altos) até asfixiar os clientes, como fez nos anos 1970. Querem apenas garantir que o preço do barril flutue em uma faixa alta o suficiente para que o rendimento dos poços pague a conta das despesas de seus governos, mas não alta em excesso que estimularia a entrada de concorrentes no mercado.

Por fim, a certo preço alguns produtores americanos de gás (“shale”) podem voltar a se interessar em produzir e outros podem investir em centros de distribuição. No entanto, também nos Estados Unidos se procura desestimular o uso de gás o que é um problema: o investimento para lidar com uma crise de curto prazo pode não dar retorno.

Em tese, o pior da crise é evitável, ao menos no que diz respeito aos gargalos de gás e petróleo mais imediatos. Os gargalos, porém, podem não ser tão breves.

Críticos variados do programa de descarbonização (ou do seu ritmo e de seu planejamento) dizem que a Europa se lançou em um programa de desestímulo de produção e uso de combustíveis fósseis sem antes dispor de alternativa confiável para crises ao menos pontuais de oferta de energia. Isto é, tributou os fósseis, criou um mercado caro de permissão de uso de carbono, desmontou unidades produtivas. No longo prazo, tende a funcionar. Em crises de oferta, como agora, piorada pela desordem provocada pela pandemia, pode ter que lidar com uma conta de luz e aquecimento cara e com a revolta popular.

* Vinicius Torres Freire é jornalista e foi secretário de redação da Folha de S. Paulo. É mestre em administração pública pela Universidade Harvard (EUA)


Textos opinativos não necessariamente traduzem a opinião do NovaCana. A publicação visa estimular o debate e proporcionar uma variedade de pontos de vista para os leitores.