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Mundo está viciado em combustíveis fósseis, diz secretário-geral da ONU

António Guterres pede unidade diplomática para solução de crises e prevê encontro marcado com desastre climático


Folha de S. Paulo - 21 set 2022 - 08:05

O secretário-geral da ONU, o português António Guterres, fez um apelo pelo uso da diplomacia para resolver as crises que ameaçam o mundo em seu discurso na Assembleia-Geral da entidade nesta terça-feira, 20.

O chamamento é feito em um momento em que a entidade é criticada por sua ineficiência na resolução de conflitos globais – sendo a Guerra da Ucrânia talvez o maior exemplo disso.

O conflito no Leste Europeu foi um dos temas centrais do pronunciamento de Guterres. O português iniciou sua fala exibindo a imagem imponente de um dos navios de exportação de grãos da Ucrânia – uma espécie de autoelogio, já que o escoamento da produção do país só foi possível graças a um acordo mediado pela ONU e pela Turquia. O navio, disse, é um símbolo da capacidade da diplomacia multilateral em ação, hoje paralisada.

“A Carta das Nações Unidas e os ideais que ela representa estão em perigo. Temos o dever de agir. E no entanto, estamos imobilizados”, acrescentou o português, listando as mudanças climáticas, a multiplicação de conflitos pelo planeta e a situação financeira dos países em desenvolvimento como alguns dos desafios urgentes que a comunidade internacional não tem conseguido solucionar.

Para Guterres, uma das razões para isso seriam as divisões que permeiam a geopolítica, que estariam minando não só o trabalho do Conselho de Segurança, órgão mais importante da ONU, como toda forma de cooperação internacional.

“Não podemos continuar assim”, disse. “Mesmo os grupos criados fora do sistema multilateral caíram na armadilha das divisões geopolíticas, como o G20. Em dado momento, as relações internacionais pareciam ir em direção a um mundo do G20. Hoje, arriscamos terminar com GZero”.

O secretário-geral deu atenção especial à questão climática, fazendo a primeira crítica direta à indústria de combustíveis fósseis, como petróleo, carvão e gás. “O mundo está viciado em combustíveis fósseis. É hora de uma intervenção”, afirmou. “Precisamos responsabilizar as empresas de combustíveis fósseis e seus facilitadores”.

Ele também pediu que as economias desenvolvidas tributem lucros inesperados do setor. “Esses fundos devem ser redirecionados de duas maneiras: para países que sofrem perdas e danos causados pela crise climática; e para as pessoas que lutam com o aumento dos preços dos alimentos e da energia”, sugeriu.

Interlocutores disseram à Folha que a solução defendida por Guterres não trata de compensação financeira por perdas e danos, mas se refere ao caminho apontado pelo Acordo de Paris, assinado em 2015.

O artigo 8 do acordo traz uma lista do que fazer para lidar com perdas e danos climáticos, como a criação de sistemas de alerta precoce sobre eventos extremos, avaliações de risco e preparo para comunidades mais resilientes.

“Devemos garantir que todas as pessoas, comunidades e nações tenham acesso a sistemas eficazes de alerta precoce nos próximos cinco anos”, afirmou Guterres. Hoje, segundo a ONU, os alertas são acessíveis para 60% da população no mundo.

A proposta, que já vinha sendo defendida nos discursos do secretário-geral, poderia ser financiada pelo redirecionamento de recursos vindos da indústria fóssil, segundo sua fala nesta terça, 20. Ela traz um aspecto prático e politicamente delicado, especialmente quando a Guerra da Ucrânia, com a interrupção do fornecimento de gás russo, leva a Europa a investir em fontes de energia fóssil de outros países.

“Os países do G20 emitem 80% de todas as emissões de gases de efeito estufa. Mas os mais pobres e vulneráveis, aqueles que menos contribuíram para essa crise, estão sofrendo seus impactos mais brutais”, argumenta.

A despeito do contexto mais desafiador para o multilateralismo, alguns sinais de transição energética são destaque de um relatório lançado também nesta terça, 20, pela Agência Internacional de Energia (IEA) junto à Agência Internacional de Energia Renovável (Irena).

Entre eles, está a duplicação das vendas globais de veículos elétricos em 2021 em relação ao ano anterior, para o recorde de 6,6 milhões; e o aumento previsto de 8% na capacidade de geração de energia renovável global em 2022 para a marca de 300 GW, capaz de abastecer 225 milhões de residências.

Com isso, o custo da geração deve cair US$ 55 bilhões em 2022, diz o estudo. O documento foi encomendado por 45 países – responsáveis por 60% das emissões globais de gases estufa. Na COP26, o grupo se comprometeu a tornar energias limpas mais acessíveis em todos os setores até 2030.

Além de estratégias de aumento de investimentos, incentivos e cooperação técnica, o relatório traz uma proposta que altera a distribuição de energia entre os países, com a criação de “novas super-redes transfronteiriças para aumentar o comércio de energia de baixo carbono, melhorar a segurança energética e aumentar a flexibilidade do sistema”.

O relatório será discutido na tarde desta terça pelo presidente da COP26, Alok Sharma, junto a ministros do grupo de 45 países em Nova York, onde também acontece a Semana do Clima, reunindo ONGs, movimentos sociais e empresas de todo o mundo em múltiplos eventos paralelos, que buscam aumentar o diálogo e a cooperação em torno da agenda climática.

Ana Carolina Amaral e Clara Balbi – Planeta em Transe
O projeto Planeta em Transe é apoiado pela Open Society Foundations


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