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Etanol: Mercado: Gasolina

Importação de gasolina poderá atingir US$ 15 bilhões em 2022


Valor Econômico - 27 mai 2014 - 08:31
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A política de preços do governo federal para o setor de combustíveis pode ampliar ainda mais as importações de gasolina ao longo dos próximos anos e fragilizar o saldo da balança comercial, ao mesmo tempo em que o setor sucroalcooleiro poderá continuar fechando usinas, reduzindo a presença do etanol na matriz energética. Em 2009, o Brasil não importava gasolina. A partir daí, com incentivos do governo para a aquisição de veículos novos, como a redução do IPI, e a política de não reajuste do preço da gasolina, o cenário mudou drasticamente. Entre 2010 e início de 2014, as importações do derivado da gasolina cresceram 490%, segundo estimativas de Adriano Pires, do Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBIE).

"Hoje 12% da gasolina nacional é importada e 17% do diesel vem de fora e, a se manter essa política, a participação do etanol cairá ainda mais", observou Pires.

Para o presidente da Datagro, Plinio Nastari, o etanol está sendo vendido hoje abaixo do seu preço de oportunidade, com defasagem de 18,6% em relação à gasolina, segundo dados da segunda semana de maio. "Estamos importando gasolina a preço mais alto e o etanol está sendo vendido a preço muito baixo", ressaltou. Em dois anos, ele calcula uma perda de R$ 5,4 bilhões apenas para o álcool anidro.

Isso cria um grande desafio. Em 2003, a frota de carros flex era de 0,3% do total de veículos que circulavam pelas ruas brasileiras. Dez anos depois, esse número chegou a 63% da frota. Em 2020, deve atingir 85% e em 2024 poderá alcançar 93%. Isso trará pressão sobre o mercado de combustíveis. "Ano passado, as importações de gasolina chegaram a US$ 3 bilhões, um número que poderá aumentar", comentou o professor da Universidade Federal de Itajubá, Luiz Augusto Horta.

O número poderá crescer mais. Em 2020, poderá chegar a US$ 15 bilhões, segundo Nastari. "Com estimativa conservadora, se a frota usar 20% ou 30% de etanol, um número muito conservador, as importações de gasolina poderão ficar entre 12 bilhões de litros e 18,8 bilhões de litros, o que poderá representar entre US$ 12 bilhões a US$ 15 bilhões em importação."

Já o consumo de etanol, hoje em pouco mais de 23 bilhões de litros, teria de subir para 32 bilhões a 40 bilhões de litros em 2022 para atender a demanda em alta. "São investimentos que não saem do dia para a noite, demandam tempo, teriam de ser pensados já hoje, mas também é preciso observar que irá levar tempo para recuperar a confiança de que a intervenção do governo não voltará tão cedo, isso, se for encerrada mesmo", afirmou Nastari. Para um projeto de uma usina sair do papel e se tornar operacional, o prazo é estimado entre quatro a cinco anos.

A diretora geral da Agência Nacional do Petróleo (ANP), Magda Chambriard, afirmou que as novas refinarias que estão sendo construídas têm um novo perfil de produção, sendo direcionadas principalmente para diesel, querosene de aviação e nafta. Isso criará algumas questões que terão de ser respondidas no médio prazo. "Como será atendida a crescente demanda pelos derivados como gasolina? Haverá competição gasolina e diesel nos carros de luxo e nos utilitários esportivos? Os biocombustíveis irão avançar? Haverá uso líquido do gás natural? Esses são dilemas que serão criados."

Em sua apresentação, usando números da EPE e da Única, ela disse que na próxima década poderá haver um déficit entre 295 mil barris por dia a 400 mil barris por dia de gasolina.

Além da política de controle dos preços dos derivados do petróleo, o governo também eliminou a Contribuição de Intervenção no Domínio Econômico (Cide) cobrada sobre a gasolina, tributo instituído em 2001 e zerado em 2012. "O Tesouro perde R$ 5 bilhões por ano com essa decisão, dando um incentivo a um combustível sujo e fazendo com que o crescimento adicional de mercado se dê com a importação de gasolina", criticou Horta, que foi diretor da ANP.

Essa fragilidade deixa o Brasil em uma situação de incerteza em relação ao seu potencial no cenário internacional em um momento em que várias nações discutem conceder mandatos para elevar o consumo de biocombustíveis. Nos Estados Unidos, cerca de 10% da gasolina é misturada com etanol. A Europa pretende aumentar o uso de biocombustíveis. "Há projeções baseadas em números do próprio governo brasileiro de que a produção de biocombustíveis poderá chegar a um milhão de barris de óleo equivalente por dia nos próximos 20 anos, mas para que isso seja de verdade tem de começar hoje", estimou.

O controle de preços tem impacto sobre a Petrobras. Segundo estimativas de Pires, da CBIE, cerca de 60% do caixa da empresa está diretamente relacionado às operações de gasolina e diesel. Sem liberdade para acompanhar os preços internacionais, a estatal enfrenta um cenário que combina investimentos crescentes para explorar o pré-sal e dobrar sua produção para quatro milhões de barris diários no início da próxima década e crescente endividamento.

Roberto Rockmann

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