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Etanol: Mercado: Gasolina

Etanol volta a ganhar espaço da gasolina


Brasil Econômico - 04 set 2013 - 09:05 - Última atualização em: 29 nov -1 - 20:53
brasileconomico numeros 040913Impulsionado pela boa colheita de cana-de-açúcar e por incentivos fiscais, o crescimento do consumo de etanol no Brasil começa a reduzir a pressão sobre a balança comercial de combustíveis e sobre as contas da Petrobras. Dados divulgados ontem pela Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), apontam que as vendas de etanol hidratado cresceram 4,8% entre janeiro e julho de 2013. No início deste segundo semestre, quando a alta nas vendas começou a se intensificar, as importações de gasolina caíram para a casa dos 500 mil barris por mês, bem abaixo dos 1,6 milhão de barris registrados, em média, no trimestre anterior.

Segundo a União da Indústria de Cana de Açúcar (Única), entre o início oficial da safra, em 1° de abril, e a primeira quinzena de agosto, as vendas de etanol nos estados do Centro-Sul tiveram alta de 26%, somando 9,64 bilhões de litros no período. O volume inclui o etanol hidratado, vendido nas bombas, e o anidro, misturado à gasolina. A expectativa da entidade é que o mercado feche o mês com vendas superiores às registradas em agosto do ano passado. "Apesar da leve queda observada nas vendas de etanol hidratado ao mercado doméstico na primeira quinzena de agosto, não houve alteração na demanda final do produto, que continua aquecida", analisou o diretor técnico da Única, Antônio de Pádua Rodrigues.

Em maio, o governo aumentou a mistura de etanol anidro na gasolina para 25 %. Com a redução gradativa dos preços após o início da safra — em agosto, um litro de etanol custava no país, em média, R$ 1,902 — as vendas de hidratado também têm reagido. Em julho, informa a ANP, as distribuidoras de combustíveis venderam 890 mil litros do combustível, volume 16,2% superior ao registrado no mesmo mês do ano anterior.

O Sindicato das Empresas Distribuidoras de Combustíveis e Lubrificantes (Sindicom) avalia que, além dos efeitos da safra, o mercado está sendo beneficiado pela isenção de PIS/Cofins sobre a cadeia do combustível, em vigor desde abril. "Uma possível alta nos preços da gasolina, reivindicada pela Petrobras, pode aumentar ainda mais a demanda e melhorar a remuneração dos produtores", avaliam pesquisadores do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada, da Esalq/USP (Cepea), no relatório de acompanhamento do mercado de agosto. Ninguém no mercado, porém, aposta em um retorno a níveis de 2009, quando as vendas de etanol — somando o hidratado e o anidro — superaram as de gasolina. "Tudo vai depender da política de preços do governo. Se aumentar a gasolina, como se noticia, o etanol pode ficar mais competitivo", diz o consultor do Sindicom, Dietmar Schupp. Naquele ano, as vendas de etanol hidratado bateram recorde no país, chegando a 16,4 bilhões de litros. Três anos seguidos sob pressão do subsídio à gasolina, levaram o mercado a atingir, no ano passado, apenas 9,8 bilhões de litros.

A reviravolta no mercado de combustíveis trouxe grandes prejuízos à balança comercial brasileira, que vem acumulando déficits no setor de petróleo, e à Petrobras, que apresenta seguidas perdas em sua área de refino com a venda, no Brasil, de gasolina e diesel que compra a preços mais altos no exterior. Nem os reajustes de preços autorizados pelo governo nos últimos dois anos foram suficientes para amenizar a situação. Do lado da estatal, foram compensados por novos aumentos nas cotações internacionais e pela desvalorização cambial — com o dólar na casa dos R$ 2,40 e o petróleo em torno dos US$ 110, a estatal pressiona por novos repasses.

Do lado do mercado, os reajustes autorizados não provocaram grandes aumentos para o consumidor, já que foram acompanhados de redução de impostos, mantendo a vantagem do derivado de petróleo sobre o biocombustível na maior parte dos estados. A desoneração de PIS/Cofins, que retirou R$ 0,12 por litro em impostos sobre o produto, contribui para melhorar a competitividade. "Parte disso era sonegado, e esse foi um dos motivos da luta pela isenção, mas parte foi repassado ao consumidor", diz Schupp.

"Estamos vivendo certamente uma conjuntura mais favorável para o etanol. A perspectiva de médio prazo é de melhora da atratividade do produto. Entretanto, ainda não dá pra dizer quão atrativo vai se tornar o combustível. O setor ainda sofre muito com problemas de endividamento, elevação do custo e baixa rentabilidade" , comenta o professor do Instituto de Economia daUFRJ, Edmar Almeida. "Eu acho que vamos ter que esperar mais algum tempo antes de realmente dizer que o setor entrou numa trajetória de crescimento sustentado", conclui o especialista.

Com o aumento da produção de álcool, é reduzida a pressão sobre a Petrobras para que atenda ao mercado de combustíveis com importados, o que beneficia o seu caixa.

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Vantagem sobre gasolina em quatro estados
Segundo o levantamento semanal de preços dos combustíveis feito pela Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), o etanol é hoje mais competitivo do que a gasolina em quatro estados: Goiás, Mato Grosso, Paraná e São Paulo. Nestes, o preço do biocombustível custa menos do que 70% do preço do derivado de petróleo, garantindo economia para o consumidor.

Em Mato Grosso do Sul e Minas Gerais, a relação entre os preços dos combustíveis é de 71%. "Minas Gerais, que é um grande mercado consumidor de combustíveis, deve entrar em breve na lista", comenta Dietmar Schupp, do Sindicato das Empresas Distribuidoras de Combustíveis e Lubrificantes (Sindicom). No Rio de Janeiro e em Tocantins, o etanol custa 75% do preço da gasolina.

Os quatro estados onde o etanol é hoje mais vantajoso do que a gasolina têm algum tipo de benefício tributário para o biocombustível. Em São Paulo e no Paraná, o ICMS do derivado da cana é menor do que o cobrado sobre a gasolina. Em Mato Grosso e em Goiás, há incentivos fiscais para a produção de etanol, além de ICMS diferenciado. São estados produtores de cana de açúcar, que buscam fomentar a indústria de bicombustíveis.

Do outro lado da lista, há estados em que o produto não será competitivo com a gasolina em condições normais, devido à grande distância que os separa dos principais centros produtores. Em Roraima, por exemplo, o litro do etanol custa o equivalente a 92% do preço da gasolina. No Nordeste, excluindo a Bahia, em todos os estados a relação é superior a 80%. Nestes casos, um aumento nos preços da gasolina pode alterar as condições de mercado.

Até 2009, o Brasil exportava volumes razoáveis de gasolina, chegando a vender 23,260 milhões de barris em 2007, segundo dados da ANP. Desde então, com o crescimento da frota e a crise do etanol, as vendas externas declinaram até chegar a 769 mil barris em 2012. Este ano, as exportações voltaram a crescer, atingindo 1,1 milhão de barris até julho.