Etanol: Mercado: Gasolina

Nova especificação da gasolina não resultará em aumento de preço em São Paulo

Gasolina brasileira recebeu novas especificações, mas isso não vai fazer com que ela fique mais cara. Rendimento é superior em até 6% e ela ficou mais difícil de ser adulterada


O Estado de S. Paulo - 05 ago 2020 - 14:14

A gasolina brasileira segue novas especificações de produção desde o início da semana. A principal vantagem é o ganho de eficiência. Com ela, é possível rodar mais quilômetros com um litro. Havia um receio por parte dos consumidores de que com essa melhora o preço também ficasse maior na hora de abastecer. A boa notícia é que isso não deverá ser visto na prática.

A novidade aproxima a gasolina brasileira do padrão vendido em mercados como Europa e Estados Unidos. As especificações foram definidas em janeiro pela Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP). As mudanças da Resolução nº 807/2020 valem para os tipos comum e Premium.

A ANP não regula, comenta ou faz projeções sobre preços – eles são livres desde 2002. O valor do combustível é definido pela cotação no mercado internacional e outras variáveis, como valor do barril do petróleo, frete e câmbio. Ainda assim, fica a cargo das distribuidoras e revendedores bater o martelo sobre o preço final praticado.

Com base nisso, o Jornal do Carro consultou postos na capital paulista, nas Zonas Leste, Sul e Oeste, e nenhum deles estava praticando aumento de preços até o momento. A média de preços entre os estabelecimentos é de R$ 3,72 o litro de gasolina.

De acordo com o presidente do Sindicato do Comércio Varejista de Derivados de Petróleo do estado de São Paulo (Sincopetro), José Alberto Paiva Gouveia, não houve alta. “O petróleo é o mesmo. O procedimento de fabricação da gasolina é o mesmo. Então, não há motivo para aumentar o preço dos combustíveis. Ainda assim, caso esse reajuste aconteça e fique abaixo dos 5%, ainda será vantajoso”, aponta.

O presidente do Sindicato dos Postos de Combustíveis do ABC (Regran), Wagner de Souza, esclarece que os estabelecimentos da região estão recebendo a nova gasolina, desde segunda-feira, sem qualquer aumento de preço. “Trata-se apenas de uma modificação no processo produtivo (da gasolina). É justo que o consumidor continue pagando o mesmo preço por um produto de melhor qualidade.”

Na última sexta-feira (31), inclusive, houve um movimento reverso, e a Petrobras reduziu em 4% o valor do litro. Caso essa alta aconteça no futuro, mas fique abaixo dos 6%, especialistas são enfáticos ao dizer que o consumidor continua tendo vantagem. Para o diretor de produto da ValeCard, Alan Ávila, “dentro dessa margem, o ganho com os benefícios da nova gasolina superaria o gasto extra”.

Entenda a porcentagem

O engenheiro e especialista em desenvolvimento de novos produtos da Petrobras, Rogério Gonçalves, explica o que muda para os consumidores: “Ao volante, além de rendimento extra do carro, há possibilidade de redução no consumo de gasolina por quilômetro rodado em até 6%”. No mais, potência extra, autonomia ampliada, retomada de velocidade melhorada e até a preservação do motor são os principais pontos que o consumidor poderá notar quando abastecer com a nova gasolina.

De acordo com o especialista, essa melhora varia de veículo para veículo. “Quanto mais novo (o carro), mais se identifica esse ganho. Soluções como injeção direta, turboalimentação, entre outras inovações dos modelos atuais aproveitam melhor esse tipo de gasolina”, esclarece Gonçalves.

Os veículos mais antigos, que usam carburador, também serão beneficiados com a maior densidade da nova gasolina brasileira. Porém, pouco com a octanagem ampliada, pois têm baixa taxa de compressão. Octanagem é o número de octanas que a gasolina pode ter. Quanto mais octanas, mais poderosa ela é em resistência de detonação dentro de motor e gera mais desempenho.

Especificações

Primeiramente, o que muda na nova gasolina é a densidade, cujo valor mínimo exigido passa para 715 kg/m³. Quanto maior, mais alto é o conteúdo energético. Em resumo, o carro consome menos para rodar um quilômetro, resultando em mais economia. Até então, não havia controle do governo sobre esse índice.

Houve também mudança na octanagem. Aliás, o Brasil passa a adotar o padrão de medição RON (Research Octane Number), como na Europa. Agora, a gasolina local passa a ser classificada com no mínimo 92 RON – são 97 RON na Premium. E, a partir de 1º de janeiro de 2022, o tipo comum passa ao mínimo de 93 RON. Isso deixa a gasolina mais resistente e eficiente.

Para completar, mudanças foram realizadas também na temperatura de destilação da gasolina em 50% (T50), que não deve ser inferior a 77 graus. Na prática, os parâmetros de destilação afetam questões como desempenho e aquecimento do motor, e dirigibilidade.

Adulteração

Um dos principais medos do consumidor brasileiro, devido ao alto índice de casos praticados no País, é a adulteração. Porém, de acordo com Gonçalves, não será tão fácil. “Existem vários tipos de adulteração (como adição de solventes e álcool), mas com a possibilidade de monitoramento e controle da densidade da gasolina, a ANP terá mais facilidade de fiscalização”, diz. É nesse ponto que a fraude poderá ser descoberta.

Caso o cliente desconfie da densidade da gasolina, a orientação é pedir o teste com o densímetro ao respectivo posto – que é obrigado a fazê-lo. Caso a dúvida persista, é possível solicitar, também, a demonstração da proporção de etanol na gasolina. A quantidade não pode superar os 27%. São 25% na Premium.

Portanto, se o estabelecimento tiver aumentado o volume de etanol para chegar na densidade mínima, a farsa será revelada.

Segundo a Resolução nº 807/2020, da ANP, a gasolina velha (com as especificações antigas) tem o prazo máximo de 90 dias para sumir do mapa. Ou seja, até o dia 3 de novembro, todos os postos de combustíveis do Brasil devem acabar com os estoques. Para as distribuidoras, o prazo cai para 60 dias.

Vagner Aquino