Etanol: Mercado: Gasolina

“Controle do preço da gasolina destrói etanol", diz Maílson


Exame - 25 abr 2013 - 10:46 - Última atualização em: 29 nov -1 - 20:53

O governo anunciou um novo pacote de desonerações ontem, dessa vez para oetanol. Para o economista e ex-ministro da Fazenda Maílson da Nóbrega, do ponto de vista da gestão do governo, a desoneração é uma lástima. "O governo tem que eliminar a distorção original e não tentar eliminar as secundárias. É o controle do preço da gasolinaque destrói o mercado do etanol", afirmou em entrevista à EXAME.com.

Para o economista, que foi ministro da Fazenda de 1988 a 1990 (durante o governo Sarney) e hoje é sócio na Tendências Consultoria, a sequência de desonerações pode resultar em falta de dinheiro para o Estado.

EXAME.com - Qual o impacto das desonerações para o etanol?
Maílson da Nóbrega - Se olhar do ponto de vista do combustível, a medida é bem vinda, se olhar do ponto de vista da gestão do governo é uma lástima. Estamos assistindo a evolução de um processo conhecido de ações atabalhoadas. Aprendemos durante muitos anos de crise no Brasil que quando o governo gera uma distorção derivada da sua intervenção na economia, essa distorção gera outras em cadeia. O governo tem que eliminar a distorção original e não tentar eliminar as secundárias. No etanol, o governo controla o preço da gasolina e com isso destrói o mercado do etanol. O governo deveria fazer o preço da gasolina seguir um padrão (como o do preço no Golfo do México), mas isso teria um impacto na inflação e o governo não quer fazer isso, então faz a distorção secundária e com isso piora o sistema tributário, que já é caótico. É uma balbúrdia, uma desoneração aqui, outra acolá, daqui a pouco vai faltar dinheiro no Estado. Se a desoneração fosse para melhorar o sistema tributário, uniformizar alíquotas, mas é para o governo exercer a micro gestão, caso a caso, e isso a gente aprendeu que dá errado, atiça lobbies de toda natureza e gera a percepção que a salvação está em Brasília e que o governo é suscetível a pressões de qualquer natureza - e a empresa passa a investir mais em ir para Brasília do que na gestão do seu negócio.

Como é possível saber se a medida vai realmente incentivar os investimentos?
O investimento tem duas partes importantes, a primeira é a decisão de investir, a segunda é o financiamento desse investimento. Se a decisão de investir enfrentar o obstáculo da incerteza, não adianta o financiamento porque a decisão não será tomada. O empresário está preparado para lidar com riscos, não com incerteza, ele fica na mão do governo, sem saber se a medida será mantida.

Nesse contexto, o que poderia ser feito para aumentar os investimentos no país?
Criar o ambiente para o investimento requer tempo, coerência e medidas duras que enfrentem grupos de interesse e melhorem o ambiente de negócios. O que o governo vive hoje é o efeito de anos de descaso nas reformas. O governo Lula, depois que o Palocci saiu, só fez colher os frutos de árvores que outros plantaram. Agora é hora de plantar de novo e não é fácil. Tem que melhorar a expectativa dos empresários em relação ao futuro. Hoje há um ambiente generalizado em incertezas. O governo trabalha mais para turvar o ambiente de negócios do que para melhorá-lo. Razoavelmente, teremos aumento de investimento nesse inicio de ano porque está em um nível tão baixo que chega aolimite da capacidade instalada das empresas e ainda há demanda na economia. Deve ocorrer um aumento nos investimentos, diferentemente de 2011, pode subir de 3% a 5%.

Beatriz Olivon

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