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Baixa do petróleo mostra que agricultor também deve ser trader de energia

Culturas utilizadas na produção de biocombustíveis – da palma ao açúcar – tiveram queda de preços. Ao mesmo tempo, petróleo mais baixo pode reduzir custos no campo


Bloomberg - 10 mar 2020 - 15:10

A queda do petróleo mandou um recado aos agricultores: agora também precisam ser traders de energia.

Os agricultores se tornaram mais vulneráveis às oscilações dos preços de energia nas últimas décadas, já que países como EUA e Brasil passaram a exigir o uso de biocombustíveis. Cerca de 30% da safra de milho dos EUA é usada para a produção de etanol, enquanto usinas brasileiras chegam a transformar até 60% da cana para produzir o biocombustível. As plantações de palma da Ásia e culturas de colza, ou canola, da Europa também dependem muito da demanda por biodiesel.

Com a pior queda do petróleo desde a Guerra do Golfo em 1991 e a propagação do coronavírus pelo mundo, os mercados agrícolas sentem o aperto. O açúcar perdeu 6,5%, o óleo de palma caiu 11% e a colza europeia registrou baixa de mais de 3%. As ações da produtora de etanol norte-americana Green Plains caíram 43%, a maior baixa desde o início dos registros em 2006. O preço das ações da gigante de fertilizantes Nutrien caiu para o nível mais baixo de todos os tempos.

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“Desde que agricultores passaram a adotar e promover o etanol e o biodiesel, aumentaram seu vínculo com os preços de energia”, disse John C. Baize, consultor independente que assessora o Conselho de Exportação de Soja dos EUA. “Quando os preços de energia estavam altos, as cotações do milho e da soja também subiam. Agora, com o colapso dos preços do petróleo, as cotações das commodities também estão em baixa”.

A queda do petróleo – causada pela guerra de preços entre Arábia Saudita e Rússia – é o mais recente choque para mercados agrícolas já afetados pela demanda mais fraca devido à propagação do coronavírus, que mantém as pessoas em casa. Nas últimas décadas, os mercados tornaram-se mais interligados, e agricultores precisam estar atentos a tudo, desde o petróleo até o estado da economia global.

“O coronavírus e a queda no petróleo afetarão a demanda e a atividade econômica e isso pode ser perigoso”, disse o diretor-gerente da Paragon Global Markets, Michael McDougall, em Nova York. “Os agricultores precisam estar cientes disso”.

As margens de etanol dos EUA foram esmagadas pelo petróleo mais barato, que torna o biocombustível menos competitivo. Os futuros de etanol em Chicago caíram 2,5%, enquanto as ações da produtora Pacific Ethanol Inc. caíram até 28%. A Archer-Daniels-Midland Co., que está tentando vender suas usinas de etanol, teve queda de 7,1%.

“A destruição da demanda dos EUA pesa na mente de todos no momento”, disse o trader de etanol doméstico da BioUrja Trading, Jordan Fife, em Houston.

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Os contratos futuros de açúcar caíram em Nova York, à medida que os preços mais baixos do petróleo aumentam o incentivo para as usinas no Brasil produzirem mais adoçante às custas do etanol. A mudança de hoje pode significar mais 6 milhões de toneladas de açúcar produzidas no Brasil este ano, de acordo com o maior grupo do país, a Raízen.

As ações também foram atingidas, com a gigante brasileira de açúcar e combustível Cosan caindo até 15%, enquanto a produtora de etanol São Martinho teve queda de 33%. A recuperação deste ano nos preços do açúcar já havia sido ameaçada pela recuperação lenta da demanda e pelo mercado de commodities comprometido devido ao coronavírus.

Os óleos comestíveis usados na produção de biodiesel também mergulharam.

O óleo de palma fechou com queda de quase 5%. Seu prêmio ao gasóleo subiu para US$ 201 a tonelada, o maior em três anos. Quando comparado com o desconto médio de US$ 17 no ano passado, isso tornou proibitivo o uso indiscriminado do biocombustível, além de dificultar o uso obrigatório.

Na Europa, onde mais de 70% do óleo de colza é usado para biodiesel, os futuros de Paris caíram até 3,4%. Nos EUA, o óleo de soja caiu 5,8%.

A redução ocorre justamente quando os fabricantes de produtos químicos agrícolas esperam uma recuperação após o tempo chuvoso do ano passado atrapalhar a demanda. A Nutrien Ltd., a maior fornecedora de nutrientes para culturas do mundo, caiu 6,2%, para um recorde de 48,47 dólares canadenses em Toronto. As ações dos concorrentes Mosaic Co. e CF Industries Holdings Inc. caíram mais de 10%.

Mas nem tudo é má notícia para os agricultores. Os preços das safras ainda estão relativamente bons em comparação com o petróleo e os custos mais baixos de energia ajudarão os produtores norte-americanos quando eles acionarem os tratores para semear a safra deste ano.

O diretor-gerente de agricultura e commodities da TJM, Chris Robinson, aconselha seus clientes a aproveitar a queda do petróleo para fixar os preços do diesel. “No final das contas, esse é o lado positivo de ser um trader de energia/agricultor”, disse.

Isis Almeida, Michael Hirtzer e Jen Skerritt