Etanol: Mercado: Futuro

Enquete revela medidas esperadas por parte da cadeia sucroenergética


Jornal A Cidade - 25 ago 2014 - 09:31 - Última atualização em: 29 nov -1 - 20:53
Preços desestimuladores, estiagem desértica e logística de terceiro mundo. As turbulências que afetam o setor sucroenergético resultam em parte do cenário econômico e, em parte, de ações praticadas pelo governo federal.

Quais ações devem ser executadas no curto prazo para o setor? Para responder a essa dúvida, o jornal A Cidade de Ribeirão Preto estruturou uma enquete respondida por amostragem por profissionais de toda a cadeia.

Participaram 42 empresários, advogados, consultores, economistas e representantes de empresas fornecedoras de equipamentos e de serviços. Sob a condição de ter os nomes preservados, eles responderam por e-mails e no I Fórum  de Economia e Finanças no Agronegócio, realizado em Ribeirão Preto.

Os nove itens da enquete foram respondidos em grau de importância. Os resultados foram tabulados e analisados pelo economista Edgard Monforte Merlo, professor da Faculdade de Economia e Administração (FEA), da USP de Ribeirão Preto.

As três principais urgências que o próximo presidente da República deve adotar para o setor são:
- Criar órgão específico, e com autonomia, para definir as políticas do setor
- Desburocratizar o acesso às linhas de crédito de instituições públicas como o BNDES
- Facilitar mecanismos de apoio à cogeração de energia a partir do bagaço da cana, com a entrada de instituições como o BNDESPar em associações com usinas cogeradoras

tabela pesquisa usinas 250814

Maioria pede órgão focado no setor

Falta política específica e ela pode ser gerada por essa estrutura, que precisa ter autonomia

"Os três itens considerados prioritários na enquete representam 20% a mais que os demais", comenta Edgard Monforte Merlo. Ele acrescenta: "Concordo totalmente com o resultado, pois são o cerne da questão".

Os resultados também foram repercutidos com representantes ligados ao setor. O economista José Rita Moreira, sócio da BLB Brasil Auditores & Consultores, destaca que o governo precisa criar uma política específica para o setor, "que facilite a vida daqueles que trabalham sério e crie penalidades para os aproveitadores de plantão". Para ele, o preço do etanol ao consumidor tem que ser desatrelado do da gasolina, que "deve ser regido por leis de mercado e não por políticas de controle da inflação".

Para o economista Afonso Reis Duarte, a prioridade máxima seria a inclusão do etanol na matriz energética do país. "Nesse contexto, destacaria o setor sucroenergético com uma política clara de crédito, produção, comercialização e de distribuição, com respeito às leis de mercado e sem a ingerência da má política", ressalta Duarte.

Órgão precisa ter o mesmo discurso

O futuro presidente da República deverá "criar órgão específico, e com autonomia, para definir as políticas do setor". Essa é a principal preocupação dos profissionais da área, segundo a enquete do A Cidade. Das 42 respostas, 22 participantes consideram esse item prioritário, ou seja, 52,4%.

O economista da FEA-RP, Edgard Monforte Merlo, diz que é o mais importante, mas também o mais divergente. "Esse órgão precisa ter o mesmo discurso, a mesma frente de atuação, pois o setor sucroenergético acha importante, mas não tem orientação", diz ele. "Há insegurança."

Merlo acrescenta: "É preciso ter uma política mais clara, desburocratizar."

Segundo o economista, uma aluna fez um estudo sobre cogeração de energia a partir do bagaço da cana e ela detectou que os usineiros tinham dúvida em investir nessa área ou na produção de plástico a partir do etanol. Isso, segundo ele, reflete a insegurança e a desorientação dos empresários.

O presidente do CEISE Br, Antônio Eduardo Tonielo Filho, entidade realizadora da Fenasucro, considera esse item o mais importante, mas também o mais difícil de ocorrer. Ele também é diretor das usinas Virálcool, de Pitangueiras, e Santa Inês, de Sertãozinho.

"Estamos amarrados em vários ministérios, ficamos perdidos; precisaríamos de um só órgão com o mesmo poder." Um órgão específico, então, poderia ser um passo importante para destravar o setor.

"Esse é um problema da agricultura como um todo, e, no caso do etanol, às vezes um projeto passa por seis ou sete ministérios", comenta o presidente da Associação dos Plantadores de Cana do Oeste do Estado de São Paulo (Canoeste), Manoel Ortolan.

Conseguir linha de crédito é um desafio

Conseguir uma linha de crédito em instituições públicas, como o BNDES, não é uma tarefa fácil. Por isso, esse foi o segundo item considerado o mais importante na enquete do A Cidade.

"Já trabalhei com projetos com esse banco de fomento do governo e ele exige uma série de avaliações", destaca o economista da FEA-RP-USP, Edgard Monforte Merlo.

Esse dado pode indicar que o empresário do setor sofre mais para aprovar uma linha de crédito, pois o banco de fomento após analisar o projeto depende ainda de uma instituição privada para assumir os riscos financeiros. "Não é algo tão fácil e o setor deve ter dificuldade para fazer esses projetos minuciosos", explica Merlo.

Uma usina ou destilaria, por exemplo, como iria apresentar um projeto para o ano seguinte sem uma política clara para a gasolina e para o preço do etanol no atual patamar?

Existe a dificuldade de apresentar receita e também de tornar o projeto viável, ou seja, que deva correr os riscos de mercado.

Para o diretor da Fenasucro, Gabriel Godoy, esse, porém, não seria um problema exclusivo do setor sucroenergético. "Não vejo problemas, pois, sem garantia, não tem quem empreste", comenta o executivo. "Talvez deveriam tornar o sistema mais fácil, mas o gargalo do setor não está aí", emenda Godoy.

Entrada do BNDESPar na cogeração

Facilitar mecanismos de apoio à cogeração de energia a partir do bagaço da cana, com a entrada de instituições como o BNDESPar em associações com usinas cogeradoras foi considerado o terceiro item prioritário na enquete do A Cidade.

"É importantíssimo, o futuro do setor", destaca o economista Edgard Monforte Merlo. "Aproveitar isso é mais barato que outras formas de energia térmica, mas falta mais clareza de decisão pelo governo, pois tudo está pronto, mas...", acrescenta.

Merlo lembra que uma aluna de mestrado estudou a cogeração de energia a partir do bagaço de cana e notou, com os usineiros, o desperdício em não aproveitar esse potencial. Esse parque energético também ajudar na economia de água, diante da atual crise hídrica na seca.

A criação de um órgão específico também ajudaria a daria mais clareza nesse quesito, segundo o economista, pois a cogeração depende de investimento intensivo para montar as centrais e também modernizar os parques periodicamente.

Como o setor sucroenergético está endividado, é preciso ter certeza do retorno do capital investido. "Falta o governo validar esse caminho."

Antônio Eduardo Tonielo Filho, presidente do CEISE Br, realizadora da Fenasucro, lamenta que o etanol ainda não esteja inserido na matriz energética do país. Mas o setor tem potencial para crescer e ele faz uma avaliação:

"Hoje, 40% das usinas vendem energia elétrica e, dessas, quase 90% conseguem dobrar a produção, mas é preciso ter melhor remuneração." Ele aposta em vários projetos saindo do papel se o MW de energia cogerada tiver um valor mínimo de R$ 200.

Subsídio provoca muita controvérsia

A palavra subsídio, por si só, gera controvérsias. E o item instituir subsídios, como desoneração, para toda a cadeia agrícola e industrial do setor sucroenergético, não foi diferente. "Toda vez que o setor teve subsídio, não deu resultado, pois não chegou ao consumidor final", alerta o economista Edgard Monforte Merlo. "Por estar em sexto entre os itens, isso mostra maturidade do setor."

Merlo cita que subsídio é o imposto negativo e que gera acomodação temporária, pois não é algo permanente. Por isso, entende que é "melhor ganhar em venda."

O economista José Rita Moreira, sócio da BLB Brasil Auditores & Consultores, é enfático nessa questão: "O setor sucroenergético não precisa de esmola, ou subsídio, e sim de uma política fiscal que privilegie a industrialização, a comercialização e o consumo."

O presidente do CEISE Br, Antônio Eduardo Tonielo Filho, também não concorda com subsídio, embora suas empresas possam ser beneficiadas caso isso ocorra. "Claro que quero, mas subsídio é desleal e imoral e não uma solução; o que precisamos é ter preço, ganhar, e pagar impostos", destaca. Para ele, a carga tributária brasileira é alta em geral e precisaria diminuir em todas as cadeias, não só no setor sucroenergético.

Manoel Ortolan, presidente da Associação dos Plantadores de Cana do Oeste do Estado de São Paulo (Canoeste), acredita que a volta da Cide (Contribuição de Intervenção no Domínio Econômico), um tributo cobrado na gasolina, permitiria que o etanol tivesse um preço melhor nas bombas dos postos de combustíveis e, consequentemente, melhor competitividade de mercado.

Gabriel Godoy, diretor da Fenasucro: "tem que ajudar, incentivar o setor, pois o custo cai com uma produção em larga escala."

E o motor mais eficiente?

Pressionar as montadoras a fabricar motores mais eficientes e com menor consumo de etanol foi o único item da enquete do A Cidade que não teve uma escolha como prioritária máxima.

O desvio padrão (24,344), medida de dispersão em probabilidade e estatística, indica que não houve divergência entre as opiniões das pessoas que responderam a enquete, mas há quem considere a questão importante. 

"Não adianta pressionar, é uma questão de mercado: se o etanol for viável, com preço competitivo com a gasolina nas bombas dos postos de combustíveis, o consumidor vai preferi-lo."

Merlo lembra que na época do Proálcool poucos comprovam o carro movido a álcool e que a fase dos carros flex foi diferente, pois teve um boom de vendas. Com preço competitivo, as fabricantes irão montar mais carros flex.

Para Gabriel Godoy, diretor da Fenasucro, pressionar as montadoras a fabricar motores mais eficientes movidos a etanol é necessário, mas, no momento, não é a prioridade.

Antônio Eduardo Tonielo Filho, presidente do CEISE Br, realizadora da Fenasucro, tem uma visão diferente. Ele escolheria esse item como a segunda prioridade do setor. "As pessoas estão erradas", diz ele. E justifica: carros com motores mais eficientes levariam o consumidor a usar mais o etanol. Ele cita que os veículos a álcool da década de 1990 eram mais eficientes que os atuais flex.

"A maioria das montadoras adaptou o carro a gasolina para o flex e a eficiência do motor caiu abaixo de 70%", comenta. Ele lembra que a adaptação de algo existente é mais fácil do que desenvolver um motor novo, que demanda pesquisa tecnológica. "É preciso dar um prazo para esse desenvolvimento e até isenção de IPI para essa tecnologia", informa ele.

Tonielo Filho avisa ainda que existem carros acima de 70% de eficiência no mercado, que compensam o uso de etanol mesmo neste momento, mas que a população não tem essa informação.

Setor não vê logística como problema

Embora muitos setores destacam que seus problemas são como transportar mercadorias e produtos, a enquete do A Cidade indicou que facilitar a logística para distribuição dos produtos do setor para exportação é o menos prioritário dos nove analisados por representantes ligados ao setor sucroenergético.

Pelo desvio padrão (23,603) não apresentou divergência de opiniões. "Foi uma surpresa, pois a logística não é vista como problema no setor", comenta o economista Edgard Monforte Merlo, da FEA-RP-USP.

"Todos falam da crise de logística, mas o resultado não mostra isso", emenda ele, lembrando que é possível que a palavra "exportação" do item possa ter interferido nas escolhas da enquete.

O setor sucroenergético precisa, imediatamente, resolver o seu problema interno, sair da atual crise, suprir adequadamente o mercado interno e ter retorno financeiro, para depois pensar, com o excedente, se houver, em possíveis exportações.

Para Gabriel Godoy, diretor da Fenasucro, é difícil exportar etanol, pois os Estados Unidos, por exemplo, produzem atualmente mais etanol de milho do que o Brasil, que usa a cana-de-açúcar como matéria-prima.

Para exportar seriam necessários novos portos, mas não adianta pensar nisso no momento. "Não existe preço mundial para o etanol, diferente da situação do açúcar, que é uma commodity e tem o preço regulado pelo mercado internacional", explica Godoy.

Jornal A Cidade - Ribeirão Preto