Etanol: Mercado: Futuro

Preços do petróleo devem manter baixa prolongada, prevê Wall Street


Wall Street Journal - 29 out 2014 - 11:47 - Última atualização em: 29 nov -1 - 20:53
O boom do petróleo e gás de xisto nos EUA mudou o panorama energético, criando um excesso de oferta num mercado que passou anos de aperto no abastecimento

Até aqueles mais otimistas sobre o setor de petróleo em Wall Street estão jogando a toalha, reconhecendo que a queda de 25% nos preços do barril desde junho não será revertida tão cedo.

Os preços do petróleo nos Estados Unidos começaram a semana atingindo novos mínimos, queda provocada em parte pela capitulação do Goldman Sachs Group Inc., cujos analistas rebaixaram suas metas de preço porque preveem que a oferta vai superar de longe a demanda pelo menos até meados do próximo ano.

O Goldman se une a vários outros bancos, incluindo Citigroup Inc. e Deutsche Bank AG , que reduziram suas previsões nas últimas semanas. Segundo eles, os preços serão pressionados à medida que a produção dos EUA continua a subir e a Organização dos Países Exportadores de Petróleo debate se deve reduzir sua própria produção.

Operadores dizem que a mudança na previsão do Goldman é especialmente notável porque o banco tem um histórico de posições otimistas no setor de petróleo e suas projeções já influenciaram o mercado no passado. No início do mês, a previsão do banco de que o petróleo estava prestes a se recuperar levantou os preços.

Muitos operadores e analistas foram pegos de surpresa pelo forte declínio do mercado. O boom do petróleo e gás de xisto nos EUA modificou o panorama energético, criando um excesso de oferta num mercado que tinha passado por anos de aperto no abastecimento. Essa nova abundância obrigou os investidores a reavaliar suas perspectivas para setores e países inteiros e para a toda economia mundial.

Como um corte na produção aparentemente não estará na pauta de discussão na próxima reunião da Opep, em 27 de novembro, o petróleo precisa baratear a ponto de incentivar outros produtores a reduzir sua oferta, avalia o Goldman. O chefe de pesquisas de commodities do banco não estava disponível para comentar o assunto.

“A Opep não vai mais atuar como o produtor que dá o primeiro passo para alterar [os preços]”, avaliou o Goldman num relatório de análise. “Estamos reduzindo nossa previsão [...] para o preço em que os EUA passarão a desacelerar sua produção.”

O Goldman cortou suas previsões de preços para o primeiro trimestre e para o segundo semestre de 2015, de US$ 100 para US$ 85 o barril do tipo Brent, a referência mundial, e de US$ 90 para US$ 75 o barril do West Texas Intermediate, referência nos EUA.

O petróleo WTI para entrega em dezembro chegou a cair para US$ 79,44 o barril na segunda-feira, o preço intradiário mais baixo desde junho de 2012, antes de se estabilizar em US$ 81 o barril, na Bolsa Mercantil de Nova York (Nymex). Ontem, o mesmo contrato futuro fechou em US$ 81,42 o barril, com alta de 0,52%. Já o barril do Brent subiu 0,23%, para US$ 86,03, na bolsa ICE Futures da Europa.

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O Citigroup avalia que o Brent será negociado por volta de US$ 92 o barril nos primeiros três meses de 2015, enquanto o Deutsche Bank prevê uns US$ 88 por barril.

Muitos investidores acreditam que os preços ainda têm espaço para cair.

“A demanda tem sido muito inferior ao que as pessoas esperavam”, diz Nicholas Johnson, que administra US$ 25 bilhões em investimentos em commodities para a Pacific Investment Management Co., ou Pimco, uma divisão da Allianz AG . “Ao mesmo tempo, a produção dos EUA tem sido muito superior ao que as pessoas esperavam.”

A Pimco está apostando que os preços do petróleo nos EUA para contratos com vencimento mais próximo cairão em relação a contratos que vencem em datas posteriores, ou seja, a firma antecipa que o produto será mais barato no curto prazo, comparado com um ano a partir de agora.

Alguns investidores têm deixado o mercado, em vez de tentar prever quando o petróleo atingirá seu ponto mais baixo. O volume de contratos de petróleo bruto em aberto na Nymex caiu uns 17% desde o início de julho, para o nível mais baixo em quase dois anos, o que indica que os operadores que fecharam contratos por preços mais elevados em meados do ano não compraram o mesmo número de novos contratos.

A produção petrolífera americana deu um salto nos últimos anos, com o fraturamento hidráulico e novas técnicas de perfuração horizontal permitindo aos produtores acessar depósitos aprisionados em jazidas de xisto. Em setembro, a produção de petróleo bruto do país atingiu uma média de 8,7 milhões de barris por dia, o nível mais alto em 28 anos. Alguns analistas dizem, no entanto, que as mudanças provocadas pelo aumento da produção podem não durar muito, já que petróleo barato e abundante estimula a demanda.

A demanda de curto prazo poderia aumentar os preços antes do fim do ano, avaliou o Morgan Stanley num relatório de análise divulgado na segunda-feira. O banco prevê que o petróleo Brent ficará numa média de US$ 98 por barril no próximo ano.

O nível exato em que os produtores americanos reagiriam a uma baixa nos preços, cortando novos investimentos ou mesmo fechando poços, não está claro. Mas diversos analistas dizem que o crescimento da produção pode desacelerar se os preços nos EUA caírem abaixo de US$ 75 o barril por um período sustentado.

“Poderíamos ver US$ 70 [o barril] aqui. Não creio que isso esteja fora de questão”, diz Robin Wehbe, diretor de portfólio da Boston Asset Management, divisão do Bank of New York Mellon Corp. , com US$ 50 bilhões em ativos sob gestão.

Wehbe cortou sua exposição às produtoras de petróleo e aumentou seus investimentos em empresas da área “midstream”, que operam oleodutos e outras partes da infraestrutura, assim como os setores que se beneficiam com os baixos preços do petróleo nos EUA, tais como o de fabricação de plásticos.

Os preços mais baixos do petróleo também ajudaram os motoristas americanos, que viram os preços da gasolina ao consumidor caírem mais de US$ 0,20 por litro desde o fim de junho.

A Agência Internacional de Energia baixou recentemente suas previsões para o crescimento da demanda mundial neste ano e no próximo, citando fraco crescimento econômico na Europa e na Ásia.

“Não parece provável no futuro próximo” que haja crescimento global, diz Richard Weiss, gerente de portfólio sênior da American Century Investments, que administra US$ 140 bilhões. “Na verdade, parece que está indo para o outro lado.”

Weiss é um dos gestores do Global Allocation Fund, de US$ 66 milhões, que atualmente tem menos dinheiro investido em commodities, incluindo petróleo, do que a sua estratégia de longo prazo recomenda.

Até a próxima reunião da Opep, dizem investidores e analistas, os operadores vão hesitar em comprar posições vultosas.

“Houve uma transferência de poder da Opep para o xisto dos EUA e isso está criando muitas distorções no mercado”, diz Wehbe.

NICOLE FRIEDMAN

Colaborou Benoit Faucon