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Preço do petróleo pode ditar o futuro do etanol brasileiro

petroleo rio 170816Trabalho realizado por entidade ligada ao governo dos EUA traçou cenários de como o preço do derivado fóssil se comportará para projetar como o setor de açúcar e etanol será impactado. O resultado é um exercício de lógica essencial para as empresas em fase de estudo para ampliações de participação no mercado

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O preço do etanol nas bombas é resultante de uma série de fatores, desde a situação financeira das usinas, passando pelo clima e moagem de cana até a percepção do consumidor. Todos eles, contudo, acabam impactados, em maior ou menor grau, por um fator primordial: o preço do petróleo.

Ainda que o peso da cotação do barril do óleo sofra grande influência das políticas nacionais, o petróleo é essencial para ditar os rumos do setor sucroenergético brasileiro, especialmente se olharmos para o médio e longo prazo.

Um estudo elaborado nos EUA lançou uma visão sobre o impacto para as usinas de açúcar e etanol do Brasil considerando diferentes cenários para o preço do petróleo. O trabalho apresenta um exercício de lógica essencial para as empresas em fase de estudo para ampliações de participação no mercado.

Na reportagem e infográficos a seguir:

- Possibilidades para o preço do petróleo e suas implicações diretas e indiretas no mercado de etanol

- Como os preços internacionais do açúcar serão afetados e o impacto na produção nacional

- Influência do petróleo na demanda e na produção de etanol até 2024

- Caminhos para a exportação brasileira de etanol

O preço do etanol nas bombas é resultante de uma série de fatores, desde a situação financeira das usinas, passando pelo clima e moagem de cana até a percepção do consumidor. Todos eles, contudo, acabam impactados, em maior ou menor grau, por um fator primordial: o preço do petróleo.

O Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA, na sigla original) elaborou um estudo para entender como esta variável fundamental pode afetar o mercado de etanol, o uso das terras no Brasil e a produção agrícola.

Ainda que as variações na cotação do barril do óleo possam passar despercebidas para muitos, elas afetam os custos de produção e as decisões estratégicas dos produtores de etanol e, consequentemente, trazem reflexos para outras culturas. No Brasil, conforme enfatiza a USDA, essa relação ainda precisa considerar a influência governamental sobre o preço da gasolina, que altera diretamente a preferência dos consumidores em relação ao etanol hidratado – podendo beneficiar ou prejudicar o biocombustível.

“Os altos preços do petróleo são apenas parcialmente transmitidos ao mercado doméstico porque a Petrobras vende gasolina a preços baixos determinados pelo governo, protegendo os motoristas dos preços do óleo cru, que mais que dobraram entre 2009 e 2013”, exemplifica.

Possibilidades para o preço do petróleo nos próximos anos

Em seu estudo, a USDA considerou dois prováveis cenários para o petróleo de 2015 até 2024: um onde os preços do petróleo sobem e permanecem elevados e outro com preços baixos ao longo da década. A referência para os dois cenários são as premissas adotas em outro estudo, o Projeções Agrícolas para 2024 (Agricultural Projections to 2024).

Na perspectiva altista, os preços aumentariam 40% no primeiro ano, seguido de um crescimento de 7% e leves aumentos subsequentes até 2024. Nesse caso, é esperada uma demanda maior por etanol em relação à gasolina, aumentando o preço do etanol e criando incentivos para a ampliação da produção.

Na perspectiva de preços baixos, o preço do petróleo cai 18% no primeiro ano, seguido por dois anos seguidos com quedas de 6% e o restante do período com diminuições anuais de 1%. Com isso, a expectativa seria de uma redução na demanda por etanol em 16% até 2024.

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Contudo, a USDA acredita muito menos neste cenário de queda nos preços do petróleo. “Os preços históricos do petróleo refletem níveis elevados de volatilidade no mercado de óleo cru e uma tendência geral de subida”, aponta e completa: “Isso sugere que um cenário de preços altos de petróleo é mais possível que o contrário, reforçando as expectativas de crescimento dos preços ao longo do tempo, apesar dos valores atuais”.

Além de avaliar a relação do setor sucroenergético com a demanda por etanol e gasolina, a metodologia da pesquisa ainda considerou as terras disponíveis para agronegócios no Brasil, a relação da cana-de-açúcar com outras culturas, as características da moagem em diferentes regiões e os valores pagos a fornecedores e recebidos pelas usinas com distinção por localidade. Já possíveis mudanças em incentivos para a produção de etanol ou outras commodities foram observadas de acordo com cada cenário analisado.

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Expectativas para a moagem de cana-de-açúcar

As demandas por biocombustíveis e por petróleo são definidas pela USDA como “inexoravelmente relacionadas”, uma vez que um atua como substituto para o outro no setor de transportes. Dessa forma, no cenário que prevê altos preços para o petróleo, o etanol começa a ser valorizado já em 2016. Mas no cenário de preços baixos para o óleo, os usineiros do Brasil só perceberiam aumento em 2019.

De forma geral, a alta do petróleo causaria uma elevação nos preços e na produção de cana-de-açúcar e de etanol. A expectativa, segundo números revelados com exclusividade ao NovaCana, é que a moagem atinja 926 milhões de toneladas até 2024. Na comparação com os dados de 2014, isso representaria um crescimento de 44,7% (4,5% ao ano). Nesta visão, os preços ficariam tão atraentes que os investimentos das usinas sucroenergéticas voltariam de forma significativa.

Já o cenário de preços baixos – menos provável no longo prazo – resultaria em uma queda nos preços e, também, em uma produção menor de cana-de-açúcar e de etanol. Nesse caso, a projeção da USDA é de uma moagem de 868,1 milhões de toneladas em 2024, um crescimento de 35,6% na comparação com as 640 milhões de toneladas registradas em 2014. Isso representa uma média de 3,5% de crescimento ano a ano.

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Todos os números considerados pela USDA estão acima da expectativa do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) divulgada em agosto de 2015. Na ocasião, a estimativa era de uma moagem de 839 milhões de toneladas na safra 2024/25, ainda que um cenário mais otimista chegasse ao número de 1,06 bilhão de toneladas.

Produção de açúcar segue (quase) inabalada

Mesmo com essas mudanças na moagem prevista pela USDA, as alterações no mix de produção da usina devem deixar a produção de açúcar bastante similar nos dois cenários analisados. Com os preços do petróleo mais elevados, a expectativa é que sejam fabricadas 57,5 milhões de toneladas em 2024.

Já no cenário de preços baixos, apesar da queda na moagem, a produção de açúcar iria para 57,7 milhões de toneladas. A vantagem do adoçante nesse caso pode ser atribuída principalmente à diminuição do consumo de etanol.

Além disso, a USDA acredita que ocorreria um aumento nas vendas de açúcar para mercados internacionais, com um acréscimo médio de 461 mil toneladas ao ano – ou 1,3%. Na comparação com outros países exportadores de açúcar, o Brasil seria o mais beneficiado nesse sentido.

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No panorama que prevê altos preços para o petróleo, a demanda por etanol faria o Brasil produzir e exportar menos açúcar (o país responde por 46% do mercado global), aumentando assim os preços internacionais de açúcar em cerca de US$ 4,4 por tonelada entre 2015 e 2024. Dessa maneira, este pequeno aumento, formaria um leve ciclo positivo, intensificando a expansão dos canaviais. A produção nacional de açúcar cairia 1,18%, enquanto as exportações seriam afetadas por um decréscimo de 1,48% durante o período, valores proporcionais ao aumento no preço internacinoal do açúcar. Essa redução na exportação de açúcar brasileiro seria, até certo ponto, ocupada pelas exportações da Austrália, da Índia e da Ucrânia.

Mudanças na produção e na demanda por etanol

Na maneira como o cenário de altos preços para o petróleo foi desenhado pela USDA, com uma grande valorização inicial, a expectativa é, também, de um crescimento maior na produção e na demanda já nos primeiros anos do período analisado, com uma taxa de crescimento menos acelerada – mas ainda positiva – a partir de 2020.

Assim, a produção chegaria a 42,1 bilhões de litros de etanol até 2024. Na comparação com os dados de 2014, isso representaria um crescimento de 45,2%. Em contrapartida, a produção de etanol em um cenário com menores preços do petróleo alcançaria 37,1 bilhões de litros ao final do período analisado, um aumento de 27,9%.

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Além disso, a USDA estima que o primeiro impacto de um petróleo mais valorizado seria a redução das importações brasileiras de gasolina e de óleo cru, com o consumo caindo, em média, 5,2% por ano até 2024.

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Isso afetaria não somente a demanda por etanol hidratado – que passaria a ter a preferência dos consumidores – como também afetaria custos agrícolas com um aumento no preço dos fertilizantes.

“A medida que a demanda por gasolina enfraquece, a demanda por etanol hidratado aumenta 8% por ano e um adicional de 15,2 bilhões de litros serão consumidos de 2015 a 2024 na comparação com o cenário de referência [com preços praticamente constantes]”, afirma o estudo. Consequentemente, a demanda por etanol anidro também diminuiria ao longo do período.

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Já no cenário oposto haveria uma maior demanda por gasolina. Segundo o estudo, com a diminuição nos custos de importação de gasolina, o preço do combustível cairia, em média, 17,2% ao ano. Essa situação faria o consumo de etanol anidro crescer (por meio da taxa de mistura) a uma média anual de 2,4%, enquanto a demanda por hidratado cairia 16% anualmente até 2024.

“Essas mudanças na demanda levariam a uma alteração nas estratégias de investimento e produção das usinas, com o total de cana-de-açúcar para a produção de etanol diminuindo ao longo do período projetado”, completa a USDA.

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Exportação de etanol é aposta certeira

Na hipótese de preços altos de petróleo, uma possibilidade se torna bastante atrativa para os empresários brasileiros: a exportação de etanol. Segundo a USDA, para atingir a demanda doméstica e de exportação durante o período analisado, o Brasil precisaria produzir 10 bilhões de litros a mais nesse cenário do que no de preços baixos. As exportações, especificamente, atingiriam 4,5 bilhões de litros em 2024, um valor 3,8% maior que o observado no cenário de referência (2014), que estima um crescimento orgânico sem flutuações.

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“Com uma grande base de cana-de-açúcar para suportar tanto a indústria de etanol quanto de açúcar, o Brasil tem o potencial para uma expansão na exportação de etanol mais rápida que a de qualquer outro país, pois pode direcionar mais cana-de-açúcar para a produção de etanol”, atesta o estudo. E alerta: “No entanto, esse potencial é restringido por iniciativas políticas e pela necessidade do país em satisfazer suas grandes demandas domésticas de açúcar e etanol”.

Mesmo dentro do chamado cenário de referência, que não prevê mudanças drásticas nos preços do derivado fóssil, a expectativa é que as exportações brasileiras de etanol cheguem a 4,3 bilhões em 2024.

Já em um panorama de preços baixos de petróleo, a exportação de etanol é menos interessante que em sua contraparte de preços altos, mas continua acima da previsão do cenário de referência. Isso acontece por causa do declínio anual previsto de 13% – ou 3,2 bilhões de litros – na produção de hidratado até 2024.

Com essa queda na demanda interna por etanol hidratado, as exportações brasileiras de etanol podem chegar a até 4,4 bilhões de litros em 2024, um montante 3,2% superior ao do cenário de referência.

Assim, para os usineiros interessados em apenas exportar, interessaria mais um cenário extremo para o preço do petróleo, seja de alta ou de baixa, que uma consistência nos valores. Obviamente, um contexto mais amplo de mercado implicaria em desvantagem para os empresários brasileiros caso houvesse uma continuidade de preços baixos.

Resta ao setor, então, torcer para uma elevação do petróleo, que está se comportando de forma mais parecida ao cenário de preços baixos – inicialmente considerado mais improvável pela USDA – que o contrário.

O estudo na integra pode ser acessado aqui (.pdf).

Renata Bossle – NovaCana

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