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Etanol: Mercado: Futuro

Governo muda projeção de oferta e demanda do etanol e reduz problema no abastecimento


novaCana.com - 01 jul 2015 - 13:18 - Última atualização em: 01 jul 2015 - 17:13

Três meses atrás o setor de etanol aumentou suas esperanças de que o governo estaria mais realista em relação ao problema da oferta futura de etanol e gasolina no Brasil. Uma apresentação feita pelo ministro do Ministério de Minas e Energia (MME), Eduardo Braga, à Comissão de Serviços de Infraestrutura do Senado Federal, inaugurou a admissão do problema no abastecimento doméstico de veículos, batizado pela pasta como ‘desafio do Ciclo Otto’.

mme comparativo senado

A expectativa era de que a necessidade de importação de gasolina e o peso que isso teria sobre a balança comercial pudesse guiar de maneira positiva as discussões sobre o futuro do etanol na matriz energética.

Mas essa visão durou menos de três meses.

Na apresentação feita aos ministros o consumo nacional é radicalmente menor: uma diferença que atinge 12,3 bilhões de litros em 2023

Há uma semana, outra apresentação do MME mostrou uma nova – e substancialmente distinta – estimativa de produção e déficit de combustíveis no horizonte até 2023. O espaço aberto para o crescimento do etanol na matriz brasileira de biocombustíveis sofreu um corte abrupto em relação ao apresentado há menos de três meses pelo ministério. Um déficit na oferta que chegaria a 26 bilhões de litros em 2023, foi reduzido para 6,6 bilhões de litros. O novo cenário foi exposto durante a reunião do Conselho Nacional de Política Energética (CNPE), em 23 de junho. (Clique nas imagens para ampliar)

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Na apresentação feita aos ministros que compõem o Conselho (mais completa que a dedicada aos senadores) o principal motivo para tamanha redução no gap é uma diminuição no consumo de combustíveis de ciclo Otto. A nova projeção aponta que a demanda brasileira será 12,3 bilhões de litros menor em 2023 do que previram em abril deste ano.

Além da menor demanda, o governo está prevendo um aumento na produção de etanol total de 5 bilhões de litros em 2023 e um aumento na produção de gasolina de 2 bilhões de litros.

mme comparativo 6 total otto

A resposta oficial sobre a mudança abrupta dos números alega que “vários fatores contribuíram para a alteração do cenário”. Alguns foram listados pelo MME:

- A redução do licenciamento de veículos novos no País, o que implica diminuição da taxa de crescimento da demanda por combustível;

- As perspectivas de manutenção de preços baixos para o açúcar no curto e médio prazos;

- A elevação recente dos preços da gasolina, com o restabelecimento da CIDE;

- E o aumento do percentual de mistura do etanol anidro na gasolina comercializada no País, de 25% para 27%.

“O Ministério de Minas e Energia esclarece que cenários elaborados para fins de planejamento podem variar com o tempo. A variação dessas premissas, em todo modelo econométrico, tende a gerar alterações menores no curto prazo e maiores no final do período do cenário em questão”, informa a nota enviada ao novaCana.com.

O ministério recusou o pedido de entrevista por telefone para complementar as informações prestadas via e-mail.

Desafio do Ciclo Otto: gap energético quatro vezes menor

A apresentação mais recente mostra uma lacuna bastante inferior ao gráfico de abril, exibido aos senadores. O chamado ‘gap energético’ atinge, em 2023, uma diferença de 19,3 bilhões de litros entre os
gráficos, passa de 26 para 6,6 bilhões de litros.

Considerando que o consumo de combustíveis está intimamente relacionado à atividade econômica, a reportagem questionou o MME se a drástica redução do consumo doméstico de combustíveis de Ciclo Otto, estimada para o horizonte até 2023, significa que o MME reviu suas perspectivas para o crescimento econômico.

O ministério respondeu por-mail que a apresentação ao Senado “baseou-se nos números oficiais de demanda para o Ciclo-Otto publicados no Plano Decenal de Energia (PDE 2023) [...] que no caso dos combustíveis utiliza premissas como crescimento do PIB, licenciamento de veículos novos, frota circulante, e preços relativos de combustíveis”.

mme comparativo 1 gap energetico

Realizado pela Empresa de Pesquisa Energética (EPE), o PDE é um instrumento do planejamento energético do governo, no entanto suas projeções são consideradas demasiadamente otimistas pelo mercado.

Além disso, a utilização dos números pelo PDE foi feita de maneira seletiva, uma vez que as projeções do plano para a oferta de etanol são bastante superiores e incorporam como premissa a instalação de 18 novas usinas até 2023.

Quanto aos números apresentados ao CNPE “já consideram um cenário de demanda que está sendo utilizado na elaboração do PDE 2024”, justifica o ministério.

Entretanto, não há certeza de que a nova projeção seja um guia efetivo para as ações do governo. A pasta de energia ressalvou que a estimativa atual está sujeita a novas mudanças. ”Cabe ressaltar que o PDE é oferecido à consulta pública e que seus resultados podem sofrer alterações antes de sua publicação definitiva”.

O ministério quer evitar a impressão de que a preocupação com o futuro do abastecimento tenha sido minimizada a partir da nova estimativa e sinaliza que ainda que o 'gap' energético tenha sido reduzido neste novo cenário, ele ainda é objeto de atenção por parte da pasta, "porque representa uma parcela significativa da demanda de combustível no país".

Etanol: o dobro do volume de hidratado e 6 bilhões de litros a menos de anidro

A estimativa mais recente apresenta um volume crescente na produção de etanol hidratado. A alta é parcialmente explicada pela redução do volume esperado de etanol anidro. Como o gap é virtualmente composto por gasolina C – ou seja, com 27% de anidro – a redução desse vácuo resulta em um número menor para o biocombustível.

mme comparativo 2 anidro

Entretanto, os novos números apontam crescimento real na produção de etanol, iniciando em 2017. Questionado se o número considera a entrada em operação de novas usinas, o ministério respondeu que não. O volume de etanol total, que seria até 5 bilhões de litros superior ao anteriormente previsto, será suprido pelas usinas já existentes.

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“O balanço geral reflete uma maior oferta de etanol, fruto de uma readequação da destinação da cana de açúcar das safras no horizonte decenal com o mesmo parque industrial atual, operando em plena capacidade de produção no médio prazo”.

O ministério afirma que “a diminuição da demanda por combustível para o Ciclo-Otto, somados a um contexto de aumento da remuneração do etanol em comparação com o açúcar, contribuem para um aumento da oferta de etanol”. E completa: “o balanço de etanol ainda sofre a influência de outros mercados (interno e externo) para seus dois principais produtos, o açúcar e o etanol”.

Vale notar que a aposta na manutenção dos baixos preços para o açúcar em um horizonte temporal de dez anos soa como um tiro no escuro, já que o mercado da commodity é altamente volátil.

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Gasolina: alta de 2 bilhões de litros

Embora não sejam conhecidos novos projetos para o refino de gasolina no Brasil, o gráfico mais recente aponta crescimento na produção doméstica de gasolina em relação ao estimado em abril. Até 2021 são 1,079 bilhão de litros a mais por ano, daí até 2024 o aumento entre cenários é 2,025 bilhões de litros. A resposta do MME não explica a origem desta diferença.

mme comparativo 5 gasolina

A apresentação completa do MME aos demais membros do CNPE está disponível aqui

Amanda SchArr - novaCana.com