Etanol: Mercado: Futuro

Governo projeta futuro do setor sucroenergético até 2025


novaCana.com - 22 set 2016 - 11:35

O setor sucroenergético ainda está tentando se recuperar dos efeitos de uma crise que levou muitas companhias à recuperação judicial ou até mesmo à falência. Ainda que os preços animadores do açúcar esteja estimulando expansões na capacidade de produção e o mercado de máquinas espera aquecimento, as consequências da falta de investimentos nos canaviais terão consequências que podem afetar os resultados do setor pelos próximos anos.

Essa é apenas uma das constatações da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), órgão vinculado ao Ministério de Minas e Energia (MME), em um estudo que procura identificar oportunidades e ameaças ao abastecimento nacional dos veículos leves movidos a etanol e gasolina. A justificativa da falta de investimentos ficou por conta da estagnação da receita e do crescente endividamento das companhias, puxado pelas variações cambiais.

Segundo o documento, as usinas adiaram a expansão dos canaviais, não realizaram adequadamente os tratos culturais e nem renovaram os canaviais no ritmo desejado.

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De acordo com o órgão, a atual capacidade de moagem efetiva das usinas brasileiras é de 750 milhões de tonelada de cana-de-açúcar por safra. Para o cálculo de suas estimativas, a EPE considerou como certo que as usinas atuarão com pelo menos 90% de suas capacidades e que 24 unidades farão ampliações que somarão 39 milhões de toneladas de cana à produção nacional até 2025.

O relatório também considerou a implantação da unidade Centro Norte Energia, com capacidade de moagem de três milhões de toneladas de cana – que está comprometida com leilões de energia para entrega inicial em 2018 – e de outra unidade com capacidade de 2,5 milhões de toneladas, que iniciará suas atividades em 2019 e já possui obras em andamento.

Mercado externo em evidência

Outra perspectiva otimista da EPE é que o Brasil aumentará gradualmente sua participação nas exportações mundiais de açúcar, que chegarão a representar 45% do fluxo em 2025 – uma retomada do cenário observado antes da crise. O resultado é um crescimento médio anual de 3,2% na produção, que chegaria a 47 milhões de toneladas em 2025.

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Com relação à exportação de etanol, no entanto, o órgão não prevê grandes mudanças ao longo da próxima década. “Os principais motivos para a manutenção da tendência atual são a perspectiva de redução do consumo mundial de energia por veículo, a busca generalizada de independência energética, a adoção de tecnologias mais eficientes e a manutenção de certo grau de protecionismo por parte dos principais países consumidores”, afirma o estudo.

Com isso, as exportações de etanol não terão grandes flutuações, mas apresentarão um crescimento gradual. Ainda assim, o avanço será de 42%, indo de 1,9 bilhão de litros em 2015 para 2,7 bilhões de litros em 2025.

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Rendimento industrial da cana voltará a crescer

Sem entrar na questão da produtividade agrícola dos canaviais – que, recentemente, gerou polêmica por meio das declarações do ministro Blairo Maggi –, a EPE destaca em suas previsões que o setor deve presenciar uma melhora no rendimento industrial da cana-de-açúcar, com aumento do nível de Açúcares Totais Recuperáveis (ATR) por tonelada moída.

O indicador, segundo a própria EPE, está associado à variedade da cana, que pode ser mais rica em ATR ou fibra; ao ambiente de produção; à adequação ao corte mecanizado; à idade da cana (renovação no tempo correto); aos tratos culturais realizados; e a aspectos climáticos. “A mecanização da lavoura da cana requer a substituição das variedades antigas por aquelas propícias à colheita mecanizada, assim como o manejo agrícola adequado”, alerta o órgão.

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Dessa forma, a expectativa é que o setor alcance um índice médio de 145 quilos de ATR por tonelada de cana moída. O valor representa um avanço de 10,7% em relação aos 131 kg ATR/t registrados em 2015.

Avanços dependerão de incentivos governamentais

Ainda que a dependência de subsídios tenha sido considerada uma opção “não segura” pelo ministro da agricultura, o MME apresenta uma postura diferente. O relatório da EPE não cogita interromper por completo a interferência do governo no setor e, inclusive, apresenta os impactos que mudanças na intensidade dos incentivos governamentais podem trazer para a produção de cana-de-açúcar e para o mercado de etanol.

“O empenho para o atendimento às metas da 21ª Conferência das Partes (COP-21), assim como o nível dos esforços direcionados pelo setor sucroenergético com vistas à melhoria dos fatores de produção, resultará em diferentes trajetórias de evolução das práticas agrícolas e de fluxo de entrada e saída de unidades de produção”, afirma o documento, que atesta: “Estes dois movimentos, associados, definirão o grau de redução dos custos de produção do etanol e da competitividade do etanol hidratado frente à gasolina C”.

As 3 visões da EPE

Assim, foram elaborados três cenários para o cálculo de estimativas, de crescimento baixo, médio e alto. As diferenças entre os cenários sugere que a EPE acredita num presença mais forte do governo, já que em dois dos três cenários (médio e alto) o governo precisa adotar medidas positivas que hoje não estão em vigor.

Para o cenário intermediário, um meio termo entre as visões, a aposta é de apoio significativo do governo, com políticas de incentivo ao etanol, como alterações na Cide, no PIS/Cofins e no preço da gasolina. Também foram consideradas modificações do ICMS incidente sobre o etanol e a gasolina em alguns estados, o que pode favorecer o etanol, e admitiu-se a continuidade de linhas de financiamento para o setor.

A EPE ainda considerou alguns fatores que dependem de investimentos do próprio setor, como ações para a redução de custos (renovação dos canavial e tratos culturais adequados) e a inserção de novas variedades. “Estas variedades proporcionam uma maior produtividade e maior rendimento da cana (qualidade), bem como reduzem as perdas e as impurezas no processo de colheita”, complementa.

Ainda dentro desse cenário médio, o órgão estimou que haverá um retorno dos investimentos em novas unidades após 2020. Isso deve acontecer a medida que a inserção de novas tecnologias agrícolas e industriais promova a redução dos custos de produção, um fator que seria, ainda, aliado a um aumento da demanda por combustíveis do Ciclo Otto e, consequentemente, uma elevação dos preços.

Por sua vez, um segundo cenário – mais otimista – considera que as premissas adotadas para o cenário de crescimento médio ocorrerão com uma intensidade superior. Isso implicaria em um número maior de projetos e em uma maior produtividade agrícola, uma vez que a inserção de novas variedades mais produtivas também seria acentuada.

Já um cenário mais pessimista leva em conta que haverá poucas políticas de incentivo ao etanol. Dentro dessa perspectiva, os produtores não implementariam melhores práticas agrícolas (manejo agrícola e varietal, assim como a renovação no período adequado) e de inovação tecnológica. Com isso, caem tanto o número de projetos quanto a produtividade agrícola.

Indicadores agrícolas apresentam melhoras tímidas

Considerando as premissas gerais e as possibilidades dos três cenários elaborados pela EPE, o órgão acredita que a área de cana processada pelas usinas pode crescer entre 0,7% e 1,2% no período de 2015 a 2015. Em números absolutos, isso representa um avanço que vai de 0,66 a 1,06 milhões de hectares.

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Esse resultado é bastante modesto quando comparado à década anterior. De acordo com o documento, a área destinada ao setor sucroalcooleiro apresentou um crescimento de 2,8 milhões de hectares entre 2005 a 2015 devido à demanda de etanol pelos veículos flex e ao crescimento da demanda de açúcar.

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Com relação à produtividade agrícola, a EPE aponta que a taxa de crescimento entre 2000 e 2009 foi de 2,1% a.a., quando o setor atingiu seu mais alto índice – até o momento – de 81,6 toneladas de cana por hectare. Entretanto, a crise no setor e a falta de investimentos teriam começado a prejudicar os resultados posteriores.

Segundo o órgão, a recuperação desse indicador começou em 2012, atingindo 76,9 t/ha em 2015. É esperado um recuo em 2016, mas ele seria seguido por aumentos graduais. Assim, em 2025, a produtividade registraria níveis entre 83,3 e 88,3 t/ha – todos superiores ao recorde de 2009.

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A partir dessas duas projeções – área e produtividade agrícola – a EPE calculou sua estimativa de moagem. A expectativa é de um crescimento entre 111 e 192 milhões de toneladas entre 2015 e 2025, um montante inferior às 283 milhões de toneladas de cana vistas entre 2005 e 2015.

No total, o setor deve registrar uma moagem entre 776 e 858 milhões de toneladas em 2025.

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Dessa forma, considerando a melhora no rendimento industrial observada anteriormente e o aumento na moagem, a EPE estima que o setor atingirá um ATR total entre 112 e 124 milhões de toneladas em 2025. Com esse crescimento projetado de 25 a 36,9 milhões de toneladas, esse é o único índice em que a melhora projetada pela EPE é superior ao que foi registrado entre 2005 e 2015, quando houve um aumento de 24,8 milhões de toneladas.

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Projeções para o mercado de etanol

Mesmo com o maior interesse dos produtores no mercado internacional de açúcar, a EPE acredita que a oferta nacional de etanol deve crescer entre 8,2 e 15,5 bilhões de litros até 2025. Entre 2005 e 2015, essa expansão foi de 14,8 bilhões de litros.

Dentro do cenário mais otimista, a produção chegaria a 46 bilhões de litros em 2025. Essa é a única estimativa que se enquadra na previsão do governo, que estima um total de 54 bilhões de litros de etanol até 2030. Esse número seria necessário para atender às metas ambientais estimuladas pelo país dentro do compromisso da Cop 21.

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Segundo a EPE, entre 2015 e 2025, a demanda por combustíveis do Ciclo Otto deve ver uma desaceleração considerável, crescendo a uma média de 0,9% ao ano. Dessa forma, ela iria de 54 para 59 bilhões de litros de gasolina equivalente no período.

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Dentro desse contexto, o consumo interno de etanol carburante – destinado tanto ao anidro quanto ao hidratado – teria um crescimento mais acentuado, ainda que não inteiramente justificado pela EPE. No acumulado do período, a demanda teria um aumento entre 1,6% e 3,6%, ou de 5,2 a 12,5 bilhões de litros. Por ser inferior ao crescimento estimado para a produção, esse índice prevê que o Brasil continuará a exportar o biocombustível.

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Esse aumento é inferior ao registrado entre 2005 e 2015, quando a demanda de etanol carburante cresceu 16,4 bilhões de litros. Contudo, esse momento histórico inclui um grande avanço na frota de veículos flex, que agora já faz parte da demanda consolidada.

Especificamente, a demanda de gasolina A, que dita a demanda por etanol anidro, deve ficar entre 27 e 31 bilhões de litros em 2025. Nesse caso, o cenário médio e o otimista para o setor de etanol chegam a prever uma redução de demanda, uma vez que foram consumidos 30 milhões de litros em 2015.

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Com isso, fica claro que a EPE aposta em um aumento na participação de mercado para o etanol hidratado. Segundo o relatório, o marketshare sai de 38% em 2015 e alcança, em 2025, entre 38% e 51%, considerando os diferentes cenários do estudo. Ainda assim, essa participação é inferior a que foi registrada entre 2007 e 2010, quando o hidratado possuía de 55% a 71% de marketshare.

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O documento na íntegra pode ser acessado aqui (.pdf).

Renata Bossle – novaCana.com